Recomenda-se:

Netscope

Friday, April 3, 2015

Thy will be done, e a nobre arte da Mea Culpa



É impressionante como a nossa época é agressiva, assertiva, do-it-yourself, egocêntrica. Basta reparar nos títulos de livros e revistas, dar uma olhadela aos social media ou estar atento às conversas na rua.

  Há um foco permanente no eu, não só por uma perspectiva de falso merecimento ou entitlement, mas num sentido de constante ambição (eu faço, eu posso, eu tenho, eu consigo, desistir é para os fracos, etc).

 Parece que as pessoas nunca descansam. 

Conquiste-o, rezam as revistas femininas...como se o amor fosse assim coisa que se fabricasse. Mude o comportamento dele! - Como se as pessoas fossem de plasticina ou pudessem ser manipuladas a transformar-se por amor a quem na realidade não amam lá muito (porque quem ama faz por agradar naturalmente, embora não haja pessoas perfeitas). 

Consiga o que merece! - sem convidar muitas vezes à auto-análise.

 É certo que nada se alcança sem esforço e sacrifício, e que se somos obrigados a viver em sociedade há que trabalhar a nossa forma de comunicar, a diplomacia - a arte de lidar com o nosso semelhante, em suma.

É claro que há muitos aspectos que dependem exclusivamente de nós - pelo trabalho e empenho, pelo jogo de cintura, pela nobre arte de sujar a camisola quando a causa é válida. É muito feio culpar o mundo pela nossa infelicidade quando se cometem os mesmos erros uma e outra vez.

E também é verdade que devemos procurar aperfeiçoar-nos diariamente, ser gentis connosco e condescendentes com os outros. Não há mal nenhum em dar a si mesmo um auto elogio, em dizer com os seus botões "eu sou capaz de fazer isto" e em aspirar à evolução. Nem em desejar "se ao menos X...corrigisse esse defeito, a nossa relação seria impecável".

  Mas parece-me que as pessoas são demasiado indulgentes consigo mesmas: acham-se todas o máximo, acham que merecem o melhor, acham que conseguem mudar tudo, inclusive os outros.

 Quando fazem a análise no sentido de "evoluir" é quase proibido pensar "ai que quantidade absurda de asneiras que fiz! O que para aqui vai! Fui arrogante, rancoroso, mauzinho, de cabeça leve...se calhar fui demasiado duro com fulano ou beltrano...às tantas a culpa também foi minha!". Tudo isso vai contra as correntes super optimistas e auto centradas do pensamento actual, que quase sufocam a voz da consciência.

 Por vezes, a nobre Arte da Mea Culpa é muito útil, já que os acontecimentos nunca partem de um lado só. E para isso não é preciso humilhar-se nem deprimir-se: basta dizer, até de forma bem humorada, "acho que estive mal; francamente, fui um bocadinho urso nessa situação". Quem diz urso, diz ursa, claro. Assumir que não se é perfeito é apanágio dos grandes; é sinal de honra e dignidade; nunca houve uma personagem importante que não cometesse um disparate ou mais.

 Depois, há a Nobre Arte do Thy Will be Done - porque nem tudo depende da nossa vontade. Às vezes não estamos no lugar certo, ou com a pessoa certa, ou no momento certo, ou ainda precisamos de comer muito sal para sermos dignos daquilo que achamos merecer, e há que ser humilde para encarar essa possibilidade. 

Volto a Maquiavel: há a virtude, que é aproveitar os ventos da Fortuna, e a  Fortuna, que não obedece a ninguém. Por vezes temos de aceitar e fazer o que podemos com o que nos é dado. Também isto anda fora de moda no zeitgeist do antropocentrismo exacerbado, porque exige capacidade de obediência (conotada hoje com fraqueza) e de resignação (muitas vezes confundida com indolência, porque agora a rebeldia, mesmo a rebeldia inútil, é que está na moda).

 Um belo "faço o que posso, conheço as minhas forças e fraquezas, e de resto seja o que Deus quiser" (ou a Sorte, para quem não acredita em outra coisa), uma mentalidade alea jacta est no que se refere a nós e de desculpar 70 vezes 7 em relação aos outros, não esperando demasiado deles, poupava muitas angústias, muitos ódios de estimação, muito ressentimento invejoso e muito sentimento de inadequação por aí. Um Mea culpazinho uma vez por outra, não custa nada...




No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...