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Wednesday, May 20, 2015

A diplomacia é muito bonita, mas...


Há muito de verdade na famosa frase acima. Primeiro, porque temos o dever moral de nos perdoar uns aos outros ou no mínimo, de dar o desconto ao próximo. Isto é válido para qualquer pessoa civilizada que siga as normas de boa sociedade, mesmo que não seja religiosa ou (como agora está mais na moda dizer) espiritual. Quanto mais não seja, a raiva pode ser legítima (e se surge, convém resolver o problema o mais depressa possível) mas a raiva prolongada, ou o ódio velho que não cansa, são emoções muito exigentes - exactamente como estar apaixonado, mas em versão desagradável.   

Poucas coisas são tão reconfortantes como uma trégua, o desvanecer de uma animosidade, o esclarecer de um mal entendido. Sou uma grande crente nas primeiras impressões, mas por vezes as pessoas que são mais parecidas connosco, que são um adversário à altura, podem chocar inicialmente contra nós em determinadas circunstâncias. Transformar um desafecto num amigo não é só sábio e estratégico: é um alívio.

 Também Mario Puzo, em O Padrinho, tem uma versão igualmente célebre mas menos altruísta (e muito mais desconfortável de levar a cabo) : mantém os amigos perto, e os inimigos mais perto.

 Não compreendo as pessoas com paciência para fazer isto durante muito tempo, talvez porque distingo "oponente" de "inimigo". Ou seja, só daria o título de inimigo a um ente que não me inspirasse o mínimo respeito; podemos não gostar de uma pessoa, pode ser impossível estarmos ambos felizes porque queremos o mesmo, e nem por isso deixarmos de ter uma certa admiração por ela.  Um inimigo é outra coisa: é alguém que nos faz encarquilhar o sangue, que nos causa aversão. Ora, para estar perto de uma pessoa que nos provoca asco e desprezo, é preciso ter estômago e sangue de barata...acho que nisso a minha costela siciliana me atraiçoou.


 No entanto, tenho conhecido muita gente assim - perita em transformar (ou tentar) inimigos em amigos ("amigos" é como quem diz, porque uma vez conseguido, continuam a pensar a mesmíssima coisa acerca dessas pessoas). 

Ou por medo do confronto e insegurança, ou pelo sentido político próprio de quem está em posições de poder ou destaque. Face a um insulto, um enxovalho, uma incompreensão qualquer, deixam de parte o reflexo natural "quem não se sente, não é filho de boa gente" e tratam de dar a outra face - não com um desprezo altivo, não ignorando de alto, não deixando rosnar quem rosna, mas dando o peito às balas, convidando a pessoa a esclarecer o assunto ao jantar, chamando-a para o seu lado.

 Não digo que isto seja sempre uma má abordagem: não me parece é boa ideia aplicá-la invariavelmente, com todo e qualquer ser que nos salte ao caminho no firme propósito de causar dano.

 É que nem toda a gente critica, detesta ou embirra por um mal entendido, porque não conhece bem, porque está mal informada. Há quem seja mauzinho e virulento por inveja, por ruindade, por baixeza. E nesses casos, das duas uma: ou recusa qualquer forma de "amizade", fazendo ainda pior (o que envergonha quem estendeu a mão) ou finge aceitar, fazendo trinta por uma linha na mesma. E de forma ainda mais perigosa, pois aplica a fórmula de manter os inimigos perto com todas as vantagens da proximidade.




Depois, porque há companhias e amizades que rebaixam qualquer pessoa honrada; é mesmo um elogio e prova de carácter não se dar com elas, não ser conivente; é um dever de decência reprová-las para quem quiser ouvir.

 A gente assim pode dar-se a outra face, mas dando a face e girando dali para fora. E convém estar atento daí em diante, pois como ouvi um reverendo Padre dizer uma vez " Nosso Senhor mandou dar a outra face, mas não disse quantas vezes".

 Não esqueçamos que Abraham Lincoln era um anjo de pessoa, super bem intencionado, mas a sua abordagem demasiado plácida das inimizades acabou mal: morreu assassinado numa noite de teatro, e ainda lhe chamaram tirano por cima.

Há a diplomacia, há o perdão...e depois há a imprudência. Tenho para mim que certas pessoas são imunes à diplomacia, e é tolice tentar...


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