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Sunday, May 3, 2015

A importância do vestir honesto, segundo Eça de Queiroz


"De resto, pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior! Era atroz! Não dizia por ela; até aquele vestido tinha chique, era simples, era honesto. 
Mas em geral era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as toilettes daquele verão!"
  in O Primo Basílio


Um termo que uso muito (roubado a Eça de Queiroz, nem mais) para elogiar toilettes é "honesto".

Um vestido ou outfit "honesto" tem bom ar, é correcto (em termos de proporções e relativamente ao propósito ou ocasião) de qualidade (nos tecidos, no corte) e com o equilíbrio necessário entre impacto e discrição para se tornar elegante. É - para usar outro termo queirosiano - "fresco" à vista, ou como se diz actualmente, clean. Não cansa os olhos com demasiada informação nem dá um aspecto adoentado e macilento a quem o usa.

Logicamente, um traje demasiado revelador ou espampanante, mesmo que seja interessante do ponto de vista criativo, não  se pode descrever como honesto...nem na perspectiva atrás descrita, nem no quesito do decoro (pois é quase impossível revelar muita pele e estar elegante). 

  Exercitar os olhos para determinar, num relance, a "honestidade" de uma peça é uma boa dica para ajudar a construir um guarda roupa de maior qualidade, confortável, que dure e tenha no seu todo um ar mais "dispendioso" (mesmo que não o seja).  E como nos habituamos a ter esse critério sempre presente? É fácil.




Repare-se sempre:

- Nos tecidos: Nos romances de Eça de Queiroz, há uma constante referência aos tecidos- nomeadamente à seda. E quem podia esquecer o "extraordinário casaco" de peles de João da Ega? Fibras naturais têm sempre mais hipóteses de cair bem. 
Atente-se igualmente à consistência e opacidade  (um tecido com "brilho" sintético nunca é boa ideia). Se se "cola" ao corpo, se é demasiado fino ou pelo contrário, nada maleável, se pica/arranha/faz transpirar...é para esquecer.

- Nos padrões e texturas: cada vez mais há liberdade em termos de estampas, até para as misturar (o que é quase uma arte, e arriscada de dominar às primeiras). Se usados junto ao rosto, padrões demasiado fortes, intrincados (ou simplesmente, de uma cor pouco adequada à pele de quem os veste) podem também "poluir" ou dar um ar cansado ao visual.  

Porém, os clássicos representam sempre menos probabilidade de erro: tartan, windowplane, polka dots, breton stripes...estes podem ser usados mesmo em camisas ou blusas. Já outros, como os florais, chinoiserie, cornucópias... resultam melhor em saias e vestidos. 
Estas são as peças em que as estampas correm menos risco de cansar ou ficar datadas: uma bonita saia lápis floral é sempre um bom investimento; já calças às flores...precisam de estar em voga e de uma silhueta esguia para o resultado não ser desastroso.
 O tigresse é quase considerado um neutro hoje em dia, mas manda o bom senso que se utilize sobretudo em acessórios; o mesmo se aplica à pele de cobra ou crocodilo, que dependem um pouco mais das tendências. Não esqueçamos ainda que ao comprar em marcas acessíveis, peças lisas dão a impressão de maior qualidade: um padrão de ar desbotado ou que não coincida nas costuras denuncia rapidamente um fabrico inferior... 

- Nas aplicações: poucas e estrategicamente colocadas. Uma camisola com aplicações para saídas informais, uns sapatos ou clutch com fantasias para uma festa, uma saia boho de inspiração indiana com contas e bordados para um piquenique...recorde-se, no entanto, que apesar de ser tentador investir menos nestas peças por serem de uso pontual, é muito feio ver aplicações a 
descoser-se ou colocadas sobre um material inferior -nomeadamente, quando se trata de calçado. Botins cheios de tachas e correntes douradas não são a melhor ideia para o quotidiano, principalmente se forem de fabrico duvidoso. Em Os Maias, os sapatos de cetim verde eram o calçado preferido da cortesã Encarnacion, que os usava todos os dias - o que nos diz alguma coisa. Sapatinhos extravagantes são para dias de festa!

- Nos acessórios: menos é mais. Recorde-se o estilo de Maria Eduarda, o protótipo queirosiano de mulher de gosto e de luxo "trazia ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas às vezes uma gravata de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivela era cravejada de pedras, avivavam este traje sóbrio ,quasi severo".

- Nas cores: as personagens de Eça de Queiroz sabiam usar a cor para criar impacto ou pelo contrário, para expressar dignidade e sobriedade. Lembra-se da toilette "cor de trigo" de Maria Monforte, que lhe dava "o esplendor de uma Ceres"? Ou do outfit de Raquel com "coisas brancas, coisas cor de rosa (...) parecia um moranguinho!"? É sempre bom fazer um estudo dos tons que vão bem ou mal à pele, cabelo, olhos, em suma, ao "tipo" que se tem, principalmente quando se trata de escolher cores vivas ou da moda. 

Estas podem ser aplicadas em acessórios ou numa peça de qualidade, por fantasia (um vestido de noite magenta ou verde esmeralda terá mais utilidade a longo prazo do que um casaco rosa -neón, por exemplo). Porém, é bom lembrar que mais coisa menos coisa, as cores neutras nunca ficam mal a ninguém; um vestido preto (avivado por maquilhagem ou um acessório de cor rica fria ou quente, conforme a coloração de quem veste) dá sempre um aspecto composto; e quando na dúvida, junto ao rosto é boa ideia usar uma cor clara e luminosa (e.g: pérola). É o caso de Maria Eduarda, com os seus vestidos escuros e o seu casaco branco de veludo de génova, que tanto impressiona Carlos da Maia.

- Nas marcas: apesar das flutuações das tendências, certas marcas e designers para todas as bolsas e ocasiões especializaram-se em estilos marcadamente sexy, juvenis e/ou vistosos, que têm a sua graça mas são mais sujeitos a erro (pensemos em Versace, Cavalli, Isabel Marant, Custo Barcelona, Desigual, Bershka, Forever 21, Pimkie, Stradivarius ...).  Outras têm um posicionamento mais sóbrio e clean, sendo inspirações ou opções imediatas para visuais seguros seja no registo formal, profissional ou casual. É o caso de Armani, Chanel, Prada, Carolina Herrera, Yves Saint Laurent, Ralph Lauren, Burberry, Tommy Hilfiger, Karen Millen, Uterque, Lanidor, Sacoor Brothers, Massimo Dutti, Michael Kors, Sfera, Quebramar e de algumas linhas da Zara, Mango ou H&M. Se o objectivo é um look "honesto" a maior parte do guarda roupa deverá vir de marcas mais seguras, usando peças coloridas ou extravagantes como apontamento.

- Na silhueta: Por muito elegante que uma toilette seja, nunca terá boa linha se não estiver de acordo com a figura de quem veste. Ainda que um vestido seja bem acabado, caro e de um design perfeito, não funcionará se estiver demasiado largo/pequeno ou se as proporções estiverem mal pensadas, chamando a atenção para os pontos fracos de quem o usa. A exemplo veja-se Leopoldina que, sem ser uma beleza no sentido tradicional, pasmava Lisboa, que a considerava "uma Vénus" com os vestidos apropriados à sua silhueta "sem largueza de roda, apertados atrás". Ressalve-se que Leopoldina não era nada honesta, mas lá que saberia vestir....

 Usemos o poder de observação queirosiano na hora de escolher as toilettes! Pensar "o primo Basílio ou o Carlos da Maia aprovariam?"é decerto um bom guia da consciência...

1 comment:

Géraldine said...

Este texto está divinal! Parabéns :-D

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