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Sunday, May 10, 2015

A mãe Kardashian - uma "momager" que veio do Inferno?


"O amor de mãe é o combustível que permite 
a um ser humano comum fazer coisas impossíveis"
                                                             
                                       Marion C. Garrety


Nos últimos dias, revistas e portais americanos largaram nas redes sociais vários artigos (creio que a propósito desta peça da New York Times Magazine) sobre a mãe do "clã" Kardashian, Kris Jenner. 


Que o New York Times perca tempo a espantar-se com detalhes tão patetas (para dizer o mínimo) como o facto de a Kardashian Mor preferir papel higiénico preto em casa, põe em causa tanto a seriedade do jornal (num suplemento ou não, o artigo não deixa de ter o selo do NY Times) como o estatuto dos nova iorquinos enquanto gente muito mundana (quem repara em rolos de papel? E quem se surpreende com papel às cores, coisa que se encontra em qualquer Continente da esquina?). Fui ver se a jornalista teria nascido nalguma toca numa remota cidadezinha do interior americano mas não, parece que nasceu em Brooklin e tem um CV bastante impressionante como freelancer. Talvez procurasse desesperadamente algo que fizesse manchete nas redes sociais, salvo seja. Talvez procurasse desesperadamente uma curiosidade num tema que não tem nada que se lhe diga. Eu tendo a reparar em pormenores ridículos quando me aborreço de morte, por isso vou dar o desconto. O jornalista que nunca tenha passado por tal, que atire a primeira pedra. Certa vez tive de escrever sobre uma abóbora gigante e juro que procurei todos os detalhes que pudesse usar para criar um texto minimamente civilizado; suponho que escrever sobre Kris Jenner não ande muito longe de o fazer sobre uma abóbora.



Iria mais longe dizendo que o  New York Times ufanar-se de um artigo acerca dos Kardashians diz tudo sobre a imprensa do nosso tempo. E é verdade: diz que é o que temos. Goste-se ou não, nunca se viu uma coisa assim - o fenómeno duradouro de uma família famosa por ser famosa, caso único mesmo no Universo dos reality shows. E os jornais noticiam sempre as coisas nunca vistas, boas ou más. Aterrassem os extra terrestres em Manhattan e os jornalistas teriam de os entrevistar: à falta de ETs há esta família toda com nomes a começar por K.

O que me faz confusão não é, pois, que se escreva sobre os Kardashian: é que se tente escrever sobre eles com uma abordagem mainstream e normal, tentando fazer com que pessoas que não aprovam os Kardashian os admirem. Que a imprensa, não sei com que objectivo, procure  aflitivamente tirar os Kardashain do seu nicho de freak show, dos tablóides cor de rosa, para os passar a instalar sem um erguer de sobrancelhas nas revistas de moda mais exclusivas, nos eventos mais selectos, de modo a que ter uma Kardashian na capa seja o mesmo que ter, digamos, uma Sophia Loren, uma Elizabeth Taylor. 



E nem toda a gente é assim tão democrática. Eu pelo menos não consigo esquecer que a) são personagens de um reality show, por amor da Santa b) Kim Kardashian saltou para a fama com uma cassete infame, tenha ou não culpa do facto, e a família inteira capitalizou isso, o que tem um nome muito feio no meu dicionário c) nenhum deles canta, dança ou representa e por muito talento para o negócio que tenham, nenhum seria famoso por ter talento para o negócio. Ponto. Isso se calhar faz de mim uma snob, faz de muita gente snob, mas 
paciência.



 Mas voltemos a Kris Jenner. Eu pouco vi de Keeping Up with the Kardashians. Passei os olhos por alguns episódios, em parte  para perceber que diabos se passava ali, em parte no contexto de um exercício  a que chamo desligar completamente os neurónios a ver se o cérebro faz reset. Não gosto de reality shows, mas tenho de admitir que este é um produto de televisão bem feito no seu género: pelo menos há ali uma linha condutora, um guião, a fotografia não é má, percebe-se o que eles dizem (ao contrário do que vemos nos formatos portugueses). Sei que houve algumas cenas escabrosas, mas por acaso não apanhei nenhuma; o pouco a que assisti mostrava mais as raparigas às voltas com as suas lojas do que outra coisa qualquer. 

 Porém, a cena mais marcante que me calhou ver foi quando Kim Kardashian estava hesitante em fazer um nu frontal para a Playboy...e a mãe a incentivou. Insistiu nisso, de tal maneira que eu lhe chamaria coacção, para não lhe chamar outra coisa.  Com aquela forma de insistir que só uma mãe tem, mas aplicada a algo *assaz* sinistro.




 Pronto, acabou-se ali qualquer tentativa de ser compreensiva,  de bem, se calhar aquilo do vídeo íntimo que vazou  foi mesmo um acidente e coitadas, fez-se limonada com os limões que a vida lhes deu

 Foi das coisas mais constrangedoras que já vi. Nesse momento fiquei com profunda pena de Kim Kardashian (que a generalidade dos média e fãs descrevem como genuinamente simpática, não é nada má rapariga nem diva, mas não muito esperta, um peão nas mãos da mãe e do novo marido). E há dias dizia-se que Kris Jenner já estará a trabalhar junto da irmã mais nova, Kylie (que ainda nem atingiu a maioridade) para fazer outro tanto. 




Diz-se que Lucrécia Bórgia foi um fantoche nas mãos do pai, mas Alexandre VI era um menino comparado com Kris Jenner.

O que nos remete para o estatuto recém cunhado de "Momager" - portmanteau de "mom" e "manager" que eleva a outro nível a ideia de stage mom. Sabem, aquelas mães que querem por força que os filhos sejam estrelas e lhes gerem a carreira a ferros.

 O artigo do New York Times elogia Kris, a sua visão de negócio que permitiu que todos os seis filhos estejam lindamente encaminhados na vida, cada um a valer não sei quantos milhões. O que diz tudo do nosso tempo de mentalidade burguesa em que não é guardando a honra que se triunfa e toda a gente acha isso normalíssimo ou até louvável. 

Há limites para o que se sacrifica pelo sucesso; quando uma mãe não  traça esses limites e ainda faz pior, bom...deixo ao vosso critério a designação que se dá a isso.

Orientar a prole é uma coisa - explorá-la é inteiramente outra, para não falar- pois neste caso nem vale a pena - na orientação moral e espiritual que compete a uma mãe.



  A única associação de ideias curiosa que se tira do texto do NY Times será notar como uma mulher com ética suficiente para ficar do lado oposto ao do então marido no julgamento de OJ Simpson (o pai de Kim foi advogado do atleta em tribunal enquanto Kris protestou em memória da mulher assassinada, de quem era muito amiga) se comporta assim com os próprios filhos. 

Ora, por ganância, nem mais. O primeiro casamento acabou por adultério da parte dela e com o novo marido falido, havia que ser criativa para manter o estilo de vida a que estava acostumada. Que a sua visão para o negócio tenha superado todas as expectativas é só um sinal dos tempos.



Mas não sejamos hipócritas:  momagers como Kris Jenner existiram desde a noite dos tempos em todas as esferas da sociedade. A mãe da famosa cortesã Verónica Franco, as mães de Judy Garland e Brooke Shields, as de Madame de Maintenon, da infeliz Lady Jane Grey ou a da socialite Consuelo Vanderbilt, só para nomear algumas, todas ficaram famosas por procurar estabelecer as filhas de forma questionável (via carreira, casamento ou manobras menos decentes).

A diferença está apenas na indiscrição com que Kris (péssima mãe, mulher de negócios inquestionável) o faz, e no aplauso. É que antigamente, estas coisas eram toleradas (ou fazia-se-lhes vista grossa)...



 Depois, quantas mães ambiciosas e desmioladas, vendo o exemplo, não tentarão fazer o mesmo? As consequências para a sociedade são de tremer.

É caso para dizer que o "amor" desta momager levou os filhos a fazer coisas impossíveis, ou pelo menos coisas que de outro modo não fariam. Mas o impossível não é sinónimo de bom.


1 comment:

Sandra Marques de Paiva said...

Já dei uma vista de olhos no programa delas e realmente.... que dizer? Infelizmente não temos o poder de escolher os nossos pais!

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