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Saturday, May 9, 2015

A tibieza, um mal do século


Temos visto por aqui certas qualidades e defeitos que têm uma particularidade: deixou de se falar neles, na altura em que isso era mais preciso. 

Palavras como honra, pundonor, temperança, ou pelo contrário, garridice e descoco são convenientemente ignoradas, varridas para debaixo do tapete: assim não se gera nenhum desconforto, nivela-se por baixo, entra-se num relativismo  obrigatório and so on.

 O que nos leva a outra palavra fora de moda: a tibieza ou seja, frouxidão, falta de entusiasmo e de zelo, fraqueza. 

 Mencionada sobretudo no contexto religioso, a tibieza é, no entanto, uma falha de carácter que prejudica a vida humana em todos os seus aspectos.

 Caracteriza as pessoas vira casacas, sem palavra, medíocres, que nunca tomam partidos, que procuram agradar a gregos e troianos, incapazes de tomar a defesa do que é justo ou das pessoas de quem dizem gostar para não se zangarem com ninguém; a tibieza é apanágio de vira casacas, passivo-agressivos, políticos intrujões, alpinistas sociais, cobardes e hipócritas.

O poeta do sec. XVII, Abraham Cowley, afirmava que a tibieza é um pecado tanto na religião, como no amor.

Uma pessoa tíbia não pode ser fiel; é o tipo de criatura que prefere perder o amor da sua vida a abrir mão dos maus hábitos, das "amizades coloridas" e das más companhias. 

Não sabe amar, porque não possui emoções intensas a não ser um grande amor ao seu conforto, prazeres, prestígio ou sossego. Ou como vi muito bem dito "são almas que não têm a audácia do crime, nem a coragem da virtude". 



  Entre uma coisa e outra, é quase preferível ser abertamente mau. Para ser mau é necessária uma certa dose de ousadia que, se aplicada noutra direcção, poderia dar bons resultados. É preciso sacar da espada para traçar uma linha e dizer "é deste lado que fico, ou estão comigo ou estão contra mim" e não ter medo das consequências. Os maus enganam menos.  Se alguns vilões célebres da História aplicassem a mesma energia e zelo que puseram em fazer o mal a algo de construtivo, grandes coisas podiam ter sido alcançadas. César Bórgia não hesitava em fazer o mal sempre que necessário, mas era tido por muitos como um herói. Se a balança tivesse pendido para o lado das boas obras, talvez não tivesse morrido tão novo nem infame. Além disso, quem é mau pode fazer maldades apenas por achar que está com a razão, por andar mal guiado e um dia, se perceber que não andava a lutar do lado certo, arrepender-se. 

 Para ser virtuoso, também é preciso coragem. Muito mais do que para ser mau, pois há mais provações do que recompensas imediatas. É necessário "ter sal". Quem procura fazer o que é correcto, andar recta e honradamente, sabe que será sempre perseguido, mesmo que triunfe no fim: ora por gente invejosa, ora por aqueles que acham que podem abusar da sua bondade, ou ainda pelos vigaristas que existem em todos os quadrantes da sociedade e a quem a  honestidade não dá jeito. Como dizia um grande santo, "ser santo é uma vida de cão". 

Mas o tíbio, o morno, o insosso, consegue ser pior do que o mau, embora não lhe falte a consciência do bom: tem discernimento para ver o certo e o errado, mas dissimula porque lhe dá convém, porque não se quer maçar, porque os medíocres têm sempre sucesso (já que são sempre úteis a quem mexe os cordelinhos) porque cai mal marcar uma posição. Dante e Edmund Burke explicaram isto muito bem ao dizer que os lugares mais quentes do Inferno são reservados para os que escolheram a neutralidade em tempo de crise, e que para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada.

Mal por mal, antes Pombal...




1 comment:

Sandra Marques de Paiva said...

Conheço alguém assim que sofre nas mãos de alguém malvado e eu sinto mais raiva do bonzinho do que do malvado. Há limites para tudo e a bondade nunca deve ser desculpa para perder a dignidade e o orgulho.

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