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Saturday, May 16, 2015

A vã glória de mandar (e a nobre arte da obediência)



Uma senhora da minha estima, dotada de várias belas qualidades, era acometida do defeitozito de ser muito mandona. Tinha a mania de pôr e dispor, mais por vício do que por outra coisa. E quando alguém lhe fazia frente, achando ela um adversário à altura, retirava-se vencida com o invariável lamento "eu aqui não mando nada!".

Eu achava-lhe muita graça pois sempre me pareceu que grande nau, grande tormenta; grande poder, grande responsabilidade; que o poder (como a honra, a beleza e a riqueza) é leve de ter, e pesado de manter, ou como dizia o outro, se soubesses o que custa mandar, gostarias de obedecer

Esta frase tem sido muito mal interpretada, no contexto egoísta e malandro de manter a multidão quietinha como um rebanho e destituída de espírito crítico: mas já Aristóteles dizia, e penso que quase ninguém embirra com Aristóteles, que aquele que nunca aprendeu a obedecer jamais poderá ser um bom comandante. Mandar, ou mandar bem, com justiça, com seriedade, com bons resultados, é muito difícil; ninguém lá chega sem ter sido primeiro habituado a uma sólida disciplina e sim - sem ter aprendido a temida, quase blasfema coisa (aos olhos da sociedade de hoje) que é obedecer ao que é bom, justo e não viola a boa consciência sem rebeldias, sem lamúrias e sem fazer perguntas. E se lá chegou sem isso...não pode dar bom resultado.





 Imagine-se o exemplo mais simples: um batalhão está quase a ser massacrado pelo inimigo. O comandante dá as ordens necessárias para que se possam salvar (e se possível, sair dali com honra) e os soldados, em vez de fazerem cada um o que lhe compete põem-se a questionar, a filosofar, a discutir por obra de quem é que o comandante é mais que eles. Enquanto estão nisso, a perder tempo, o inimigo avança e não sobra um para contar a história. Imaginem o mesmo cenário num barco prestes a naufragar com os marinheiros a pôr em causa o que diz o capitão...

 Na vida militar, se é necessária capacidade de liderança, é preciso antes disso capacidade de obediência. Uma não existe sem a outra.  E a obediência exige muitas outras qualidades para aparecer à superfície: uma mente ordenada, capaz de saber quando falar e quando calar; humildade para considerar sempre que não se sabe o suficiente, mesmo quando já se sabe muito; serenidade para esperar a sua vez. Só quem sabe despir-se de si próprio para aquiescer quando necessário será levado a sério quando levantar a voz para dar a sua opinião. Quem se rebela constantemente, quem contraria porque sim, será tido como "do contra" mesmo se tiver algo de válido a dizer. 

Mas hoje ser autoritário, falar alto, é visto como tão grande virtude que o que mais há é gente tola que nem ao menos se deixa governar, pois está muito certa de que governa...

 Na nossa época valorizam-se, sobretudo e algo cegamente, características como a liderança, a basófia, a assertividade, a fanfarronice, a ambição, o dinamismo. O "soldado obediente" não é respeitado; a obediência deixou de estar associada à força; não vem mesmo a par com uma palavra próxima - e que está terrivelmente na moda: a resiliência. 



Ainda gostava de saber qual seria o desfecho se alguém respondesse numa entrevista de emprego, quando perguntado sobre as suas maiores qualidades "considero-me uma pessoa obediente". Das duas, três: a) era convidado a sair, confundido com um palerma incapaz de tomar iniciativas; b) era tomado por um palerma que se cala a tudo e contratado, mas apenas porque a empresa é  daquelas "jovens e dinâmicas", formada por vigaristas que tiranizam os funcionários, exímias no pecado de bradar aos céus de não pagar o salário a quem trabalha; c) era contratado pela originalidade, porque hoje em dia ninguém diz tal coisa.

Ontem foi publicada uma crónica - mais uma - a pregar como Fátima anda, desde sempre, a enganar as pessoas; e em França, fala-se em monumentos de inspiração religiosa que estão a ser considerados "ofensivos". Quando toda a criação quer ser rebelde e mandar, a primeira vítima disso é logicamente o Criador (ou a simples ideia do mesmo, para os incrédulos). É difícil crer, porque é difícil obedecer.

                                   

Nesta senda de rebeldia pueril,  à Morangos com Açúcar, levada a cabo por adultos, Deus é assim um pai tirano ou professor chato a quem convém fugir, fazer negaças, atirar giz, pregar toda a sorte de partidas. Haverá ateus, agnósticos e descrentes que sejam pessoas serenas, que não crêem mas deixam crer. Porém, conheço muito poucos. Os que tenho visto - e os que vejo mais são os que dão nas vistas pois fazem questão de maçar quem acredita - têm sempre daddy issues. Birra. 

Um complexo que tentam furiosamente negar - não querem, porque não querem, um poderoso disciplinador lá em cima, a contar todas as asneiras que fazem. "Eu sou um rebelde, um Satanás, um debochado e ERA O QUE ME FALTAVA que alguém me julgasse". Está bem, cada um na sua; e os outros com isso? Mas não. Parecem dizer, mais a si mesmos do que aos outros, que não há Deus e pronto. 

Um ateu desesperado é tão chato como uma testemunha de Jeová, com a diferença de que acredita muitíssimo no poder de não crer em nada e de se sentir na obrigação de testemunhar a sua má nova aos outros; mal por mal as testemunhas que batem às portas serão mais bem intencionadas, pois sempre se preocupam com a salvação do seu semelhante conforme a entendem. O ateu fala barato apenas quer companhia, mas nem sabe bem para quê. Lá está: medinho da obediência. Disciplina e sacrifício, nem pensar nisso é bom. 



 Mais do que em qualquer época, hoje toda a gente quer mandar alguma coisa; a vã glória de mandar está mais do que nunca acessível a todos, mas não há poder que lhes baste. Toda a gente tem um carro para dirigir a seu bel talante, e agarra-se a isso como se a sua vida dependesse de tal, tiranizando os outros no trânsito; quem está frustrado passa à frente nas filas, demora-se despoticamente no multibanco só para aborrecer quem está atrás, para ter a ilusão de que manda em alguma coisa; tenta roubar a noiva ou marido do próximo (a) só para mostrar a si mesmo que tem poder;  toda a gente tem acesso às redes sociais para dizer da sua justiça, e abusa disso; as mulheres querem mandar nos homens a todo  o custo; por sua vez os homens desesperam-se para provar que ainda são eles que mandam; ao mínimo sinal de descontentamento mesmo quem não cumpre deveres cívicos nem liga à política chama os cravos à baila, porque o povo quer sempre ordenar e trata de lembrar isso, por mais que esteja instituído fiquem descansadinhos, nós somos uma democracia; e o Governo apressa-se, o mais subtilmente que pode, a responder que quem manda é ele; todos querem ser famosos, vão ao Ídolos mas zangam-se que o júri que não sabe nada e não manda nada; o Islão quer impor-se ao ocidente; e o ocidente, bem...quer provar que é laico e mandar sendo laico.

 Todos querem mandar - mas só pelo que julgam ser as partes boas. A vaidade satisfeita, o salário fácil, a "vidinha de luxo"; vive-se na doce ilusão de que o poder não dá trabalho. Não há rebeldia gratuita sem um fundo de preguiça e de ganância.

Mas o mais estranho é que estes rebeldes, sempre do contra, sempre a desdizer tudo, sempre a vangloriar-se do seu livre pensamento, são os primeiros a acobardar-se quando o caso é justo, a recuar quando seria legítimo revoltar-se, a ir com a carneirada, a aderir aos modismos parvos, a calar-se quando deviam falar, a adoptar palavras caras que não compreendem, a consumir coisas de que até não gostam só porque é chic e cosmopolita, a ser todos Charlies sem nunca ter lido o Charlie, a linchar sem perguntar: quando se trata de modas, perdem logo o espírito crítico, vai-se a costela de Che Guevara. E se tiverem vantagens e facilidades nisso - pasme -se - até obedecem. Sem resmungar "eu aqui não mando nada".


2 comments:

Marisa Fernandes said...

Excelente texto! Dos melhores que tenho lido no seu blogue.

Imperatriz Sissi said...

Grata :) Beijinho.

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