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Sunday, May 17, 2015

Adriana Lima dixit: em louvor dos homens ciumentos


"Gosto de homens ciumentos. Adoro o ciúme. Adoro."


Nos tempos que correm, as palavras da encantadora modelo podem soar estranhas ou imprudentes - no mínimo, de uma franqueza fora do vulgar.

É que infelizmente, todas sabemos pelos jornais as consequências trágicas do ciúme masculino quando levado ao extremo. Para não falar no ciúme não tão perigoso, mas frequente e exagerado, que transforma qualquer relação num purgatório. A própria Adriana Lima admitiu, noutra ocasião, não gostar de sair com homens demasiado ciumentos.

Há verdade, porém, nas palavras do "anjo" da Victoria´s Secret. Verdades que só uma bela mulher latina (detesto a conotação que a palavra ganhou, mas adiante) poderia dizer e entender. Talvez uma irlandesa o pudesse fazer também, sendo a Irlanda terra de homens católicos e de sangue a ferver, mas tenho para mim que portuguesas, brasileiras, espanholas, italianas e assim por diante sintam uma maior compreensão desse fenómeno (e dos seus perigos e encantos) do que as americanas, as alemãs, as inglesas, exímias na arte de racionalizar os sentimentos e querer tudo nos devidos lugares. 

 Não sei quanto a vocês, mas quando vejo filmes românticos de Hollywood quase sempre acho as mulheres picuinhas, frívolas e intolerantes. Questão cultural: a nossa forma de amar é mais intensa, mas também mais paciente. Ainda temos o reflexo ancestral e maternal de ver os homens como eles são, de não esperar que ajam exactamente como nós. 


São muitos séculos de história, de ciúmes ora sentidos na pele ora ouvidos em relatos de família, de hábito na velha associação "se ele não é zeloso, não se importa" . O ciúme clássico do homem italiano, que vem sempre a par com um amor despótico, avassalador, apaixonado, o "raio" de que falava Mario Puzo, não deixa de se aplicar ao homem português. Tive duas antepassadas a sofrer disso para o provar, sendo que só uma delas tropeçou num marido de origem siciliana. E Adriana Lima, volto a dizer, tem alguma razão. Os ciúmes deles fazem uma mulher sorrir (porque às vezes são cómicos, de tão disparatados) envaidecem-na, oferecem um sentimento de pertença e protecção. Para não falar nas reconciliações fervorosas, cheias de juras e promessas. O homem ciumento tem  toda uma atitude "esta mulher dá comigo em doido" que é extremamente romântica. 

Sim, o ciúme é romanesco e intenso. Não podemos negar isso a bem do politicamente correcto, em nome do "eu não sou insensata" porque quando se trata de paixão, ninguém é muito ponderado e sustentar o contrário seria hipócrita. Em boa verdade, um homem que não tem ciúme algum, que não se rala de todo se a amada veste assim, sai assado, age cozido, que até a incentiva a causar cobiça nos outros, faz-lhe quase um insulto. Não a respeita, não a leva a sério. É um homem Beta, um efeminado, para não dizer coisa pior. Quem adora uma mulher, vê-a como coisa sagrada.


 No entanto, bem se diz que o ciúme é como os temperos: usado em quantidades estratégicas, um bocadinho todos os dias, dá cor e sabor à dinâmica homem-mulher. Mas se a mão escapa e vira um frasco de malagueta para a panela...temos choro, aflição e mal estar. É impossível apreciar uma refeição carregada de piri piri ou jindungo, por muito bem confeccionada que seja, com os mais raros e frescos ingredientes, servida com o maior requinte. Tal como é impraticável funcionar numa relação com demasiada possessividade, por muito amor, química e compatibilidade que haja.

 A desconfiança inviabiliza a comunicação; há sempre assuntos do passado a pôr pedras entre os dois envolvidos; um percalço que não teria importância alguma para qualquer outro casal torna-se um cavalo não de batalha, mas de Tróia; não se segue adiante; o relacionamento não cresce, não evolui; é interrompido (se não oficialmente, pelo menos interiormente) a toda a hora; surge a tentação de refrear os sentimentos, de se doar menos, para evitar sofrimentos escusados- ora por parte do ciumento, que despreza a mulher por coisas que ela nem sequer sonhou, ora da cara metade, que se vai escudando e endurecendo face a cada suposição injusta. 

    Não se pode dizer à pimenta que não queime, ao lume que não arda; mas qualquer um, dotado de razão, consegue moderar a dose e conter as queimadas, de modo a não causar estragos.






1 comment:

Cat said...

Adoro como tu descreves a forma da mulher latina de amar! É tão verdade.
Nós amamos sem racionalizações, sem pensamentos científicos sobre o assunto.
Até pode ser mau... mas é tão bom poder gostar livremente :)

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