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Thursday, May 14, 2015

Afinal, somos um país de brandos linchamentos


Quando preparava o post publicado esta tarde - e desculpem-me se isto hoje está muito sério e interventivo, amanhã escrevo algo leve ou não me chame Sissi -  constatei mais uma vez algo que me tem chamado a atenção: o povo português, tido como fofinho, submisso e de brandos costumes, é danado para gritar mata e esfola.

 Para saber isso, basta uma alma deter-se no convénio por excelência de toda a crueldadezinha lusa: as caixas de comentários dos jornais online, ou as páginas de social media de jornais e revistas. Um conciábulo semi anónimo, pejadinho de palavrões e erros de ortografia, mas que ainda assim (ou talvez isso piore o cenário) faria corar de vergonha Anás, Caifaz e todos os fariseus juntos.

A cada onda de indignação facebookiana, a cada notícia de um crime ou de uma celebridade que tem muito dinheiro ou nenhum, é ver destilar o veneno: é um festival de (com termos bem mais criativos, mas vou ser espartana) "bem feito", "vai trabalhar" , "bandalho", "esfolem-nos vivos", "castrem-no" e "pena de morte já". Jesus, muito pede o português a pena de morte, até para crimes que não estão sujeitos à pena de morte em praticamente lado nenhum. Nem sei como permitiram que fôssemos um dos primeiros estados europeus a aboli-la: se calhar é porque nesse tempo ainda não havia redes sociais, e o lusitano descarregava o seu ódio noutras coisas - lutas de varapau, corridas de touros e brincadeiras assim.



 O que me faz pensar...das duas, uma; ou isto é um reflexo da revolta passivo-agressiva e ressabiada, tão tipicamente nacional (bajular o "senhor doutor fulano" pela frente, chamar-lhe "ladrão" mal vira costas) e então palavras
 leva-as o vento, ou temos uma nação valente quando se trata de condenar o próximo, sempre com sede de sangue. Se assim é posso supor que em tempos idos, execuções públicas e Autos de Fé deviam ser uma verdadeira animação. Estão a imaginar se existissem selfies? Ia ser um fartar vilanagem de hashtags do estilo #estejáestabemassado e #jápartiramosossosdestefilhodap***naroda.


 Por muito que eu vá contra a moda do "não julgueis" obrigatório, há que lembrar que é errado primeiro, cair em histeria sem ponderar os factos (por causa de um episódio que dali a dias já ninguém se lembra) segundo, fazer justiça à máxima "violência gera violência" e terceiro,  seguir a multidão, porque ela vai quase sempre para o lado errado. Já os romanos, povo muito evoluído e civilizador, tinham uma mistura de medinho e nojinho da populaça volúvel, sempre pronta a passar qualquer figura de bestial a besta. Davam pão e circo para a entreter, e viu-se onde os franceses falharam quando deixou de haver pão e brioches...

O povo precisa sempre de heróis e vilões. Quem compreender isso e souber tirar partido do facto, tem as chaves do poder na mão. Mas um bocadinho de boa educação, mesmo quando se trata de atirar pedras, não ficaria nada mal no retrato...mais que violentos, são malcriados que se fartam. Já que não têm Misericórdia, tenham tento na língua...


3 comments:

Marcos Ferreira said...

Gostei muito prima! :) Beijinho grande!

Lingua Afiada said...

Para além do uso excessivo de obscenidades e impropérios, desejos de morte e de violência extrema, o que me choca realmente é a quantidade de erros ortográficos e palavras novas que encontramos nos comentários.
É impressionante a quantidade de pessoas que não consegue escrever uma frase sem erros.

Sandra Marques de Paiva said...

O problema do povinho é que só tem mesmo língua, mais nada!

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