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Monday, May 18, 2015

Alegoria do amor...e dos ovos


O ovo, como todos sabemos, está desde sempre associado à vida e fertilidade. Poucas coisas quotidianas terão uma simbologia tão grande. Se praticamente todos os dias usamos ovos com a maior sem cerimónia para tudo o que é preciso (dos pratos mais refinados ao simples ovo estrelado, sem esquecer as máscaras de beleza caseiras e o intemporal champô à base de gemas) a verdade é que o venerável ovo - ou não fosse ele o ingrediente por excelência em doces conventuais que eram preparados pelas mãos mais santas - se presta a todo o tipo de sábios provérbios. 

Somos avisados de pequenos que não se fazem omeletas sem ovos e que não devemos pôr os ovos todos no mesmo cesto; dizem os orientais que teimar com uma pessoa obtusa é o mesmo que atirar ovos contra uma rocha; os brasileiros, quando se referem a almas melindrosas e picuinhas, 
acusam-nas de procurar cabelos num ovo; até o Bom Livro, quando alerta contra o povo mau e mexeriqueiro (Is 59,5) emprega o ovo como metáfora "chocam ovos de basilisco (...) o que comer dos ovos deles morrerá" (livra!).  Também Job (6,6) o arquétipo da paciência, se lamenta dizendo que não há gosto na clara de ovo (plenamente de acordo; nunca gostei muito de claras, embora mereçam às vezes nomes tão românticos como claras em castelo ou sirvam para fazer os bonitos suspiros).

Voltemos aos jogos infantis: numa corrida, invariavelmente o último a chegar é  um ovo podre, o que nos faz supor que o primeiro será um ovo perfeito, o que será uma grande glória. Antes de inventarem os balões de água, os ovos podres eram as estrelas do Entrudo; e não esqueçamos o papel punitivo de atirar ovos  nem as alegrias, para os mais pequenos, do Kinder Surpresa.

Cartão (vitoriano?) de S. Valentim

E dava para continuar por aqui fora. Mas também nas relações se podem fazer alegorias com ovos - e não é só lembrando os poderes atribuídos às gemadas para a paixão e fertilidade, apontando que um casal em que um só goste de gemas e o outro de claras tem grandes indícios de ser compatível ou  considerando que meu docinho de ovos é um termo carinhoso bem mais decente do que "môr" (antes ovo podre, irra). 

É que em nenhum relacionamento convém andar a pisar ovos. Se entre duas pessoas há o constante pavor de desagradar, se não existe à vontade para dizer o que se pensa, liberdade para brincar um com o outro, abertura para cometer erros e corrigi-los, se a mínima coisa provoca um afastamento, é porque não há confiança (e a confiança é como os ovos: uma vez quebrada, não se pode colar na perfeição). Uma ligação em que um elemento, ou ambos, pisam ovos, não é forte o suficiente; não tem a necessária flexibilidade para resistir aos impactos, para contornar obstáculos. Falta-lhe o elo inquebrável que une duas pessoas verdadeiramente apaixonadas.

Porém, também não é sensato fazer o contrário; esborrachar a cesta dos ovos deliberadamente - ou seja, tocar sem necessidade em pontos sensíveis ou fazer coisas que se sabe de antemão que vão magoar a outra parte. Primeiro, porque isso não é amor; quem ama não sai das cascas, não fere de propósito. Por muita segurança que haja na relação, por muito que se ache "ela (e) ama-me tanto que atura tudo". 

Segundo, porque é convidar complicações. Nunca se sabe qual é o limite de cascas quebradas do outro. Qual é o momento em que uma pessoa se cansa de evitar pisar ovos por alguém que atira a cesta a toda a hora, esmaga os ovos com as botifarras e ainda lhes salta em cima,  deixando o chão cheio de claras e cacos impossíveis de colar. Não vale a pena chorar por leite derramado, nem lamentar os ovos escangalhados...

  





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