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Monday, May 11, 2015

As mulheres "Oriana" e as mulheres "Briolanja"



"Dizei antes que fui bem aventurada por Deus me dar tal Senhor"

                                                               (Romance de Amadis)


Uma das minhas paixonetas literárias de adolescência foi Amadis de Gaula, o cavaleiro perfeito da novela medieval (muito provavelmente de origem portuguesa) lindamente recontada por Afonso Lopes Vieira em Romance de Amadis. Ainda não tínhamos dado o livro na aula de Português e eu já o lera e relera, encantada com o mais perfeito de todos os amores.


"O verdadeiro amor, ao encher coração do homem,
de tal sorte o eleva e apura que o livra do peso do mundo".


Embora Amadis (que ao longo da história vai ganhando/adoptando nomes extremamente cool como Amadis Sem Tempo, Donzel do Mar ou Beltenebroso) seja apenas mais um exemplo do comportamento masculino típico do amor cortês - a idealização da amada, a dedicação absoluta, etc -sempre me pareceu um bocadinho mais realista e menos exagerado do que, por exemplo, Jaufre Rudel, que morre de amor por uma princesa que nunca tinha visto.
  
 O Romance de Amadis tem isso tudo - a fatalidade, a fidelidade inquebrável, a vassalagem à criatura amada - mas as personagens também vacilam, embora sempre dentro da honra (ou compromisso de honra). Amadis é concebido por um amor fulminante antes do casamento entre el-rei Perion e a infanta Elisena, que se amaram "dez noites seguidas" e só mais tarde puderam legitimar a sua paixão. O caso acaba por não ser grave porque naquele tempo a palavra dada valia um escrito e  quando alguém "já tinha o outro por esposo" era a sério. Predestinado, escrito na pedra, para o resto da vida. Não importava o que acontecesse. 





"Ficai, senhora, que ainda que vos defendestes de muitos,

 e ele de muitas também se defendeu, 
mandou Deus que vos não defendesseis um do outro".

Mais tarde, também Amadis vive igual situação com a sua amada, Oriana - e a breve descrição da cena causou mais burburinho na aula do que muitas Sombras de não sei quê hoje em dia. O Amor medieval não era para brincadeiras...

 Nem as donzelas medievais se portavam todas bem; até por um romance cheio de arquétipos isso se vê.

O que me leva ao que nos traz aqui hoje: Oriana e Briolanja.

Sem querer cansar-vos a relembrar tudo, Amadis apaixona-se pela princesa Oriana, "a beleza Sem Par" logo que lhe põe a vista em cima - o que seria natural, pois são os dois lindíssimos...esta identificação de corpo e alma não fenece com o tempo e torna Amadis capaz de todas as façanhas para ser digno da amada.

  E Oriana corresponde não só ao perfeito ideal do seu tempo, mas ao comportamento tradicional feminino: demonstra o seu amor, mas com subtileza; é discreta e tem uma certa aura inatingível, o que desperta no amado o desejo varonil de conquista, de superação.  

Muitas peripécias depois, Amadis - que como bom cavaleiro, quer ajudar todos e tem por obrigação defender as donzelas em perigo embora seja devotado só a uma - é chamado a acudir à linda Rainha Briolanja de Sobradisa, a quem um tio roubou o reino. O bom do Amadis lá vai, presta-lhe esse serviço...e que faz Briolanja, a atiradiça? Não contente com tão grande favor, entende que se apaixonou por Amadis, que mal conhece, e que o quer para si.


 Em vão Amadis lhe explica por A+ B que não pode, porque já está comprometido com Oriana, que seria impossível gostar de outra pessoa e que uma infidelidade está fora de questão. Achando que o vence pela insistência, como se o amor pudesse nascer do hábito, da pena ou das súplicas, Briolanja não tem mais nada: prende o desgraçado numa torre a pão e água até que ele mude de ideias e chama uma data de gente para o convencer (que valente desavergonhada!).

 O caso dá muito brado e confusão, mas na maior parte das versões o cavaleiro permanece inflexivelmente fiel*** até que Briolanja se cansa, ganha um bocadinho de noção e o deixa partir. 

Mas graças a isso Oriana quase se separa de Amadis (que aí fica mesmo às portas da morte, coitado). Como todas as apaixonadas, deixa-se assaltar pela dúvida e sendo orgulhosa, não quer ver nem pintado um homem que não está assim tão interessado nela a ponto de dar conversa a outra. Mesmo gostando tanto dele. Mai´nada

Oriana é uma rapariga ajuizada e respeitável. 

"Se não vai a bem, vai a mal" - Briolanja de Sobradisa, a Atiradiça

Já Briolanja, como devem ter percebido, é o exemplo perfeito de Mulher da Luta. Uma personagem que caberia melhor num romance light do século XXI do que num romance de cavalaria. Atira-se a um cavalheiro em vez de esperar que ele mostre interesse nela; não tem o mínimo orgulho ou dignidade; é imatura, desesperada e constrói uma paixão doentia na sua cabeça antes de saber se o caso tem pernas para andar; julga que o amor pode ser forçado por ela se mostrar tão disponível e pior ainda, não tem o mínimo de respeito pelas outras mulheres nem pelos relacionamentos alheios. 

Teve sorte com Amadis, que não se quis aproveitar dela; outro qualquer até podia entusiasmar-se com a oportunidade dada assim de bandeja mas dificilmente se apaixonaria verdadeiramente, quanto mais levá-la a sério. Easy comes, easy goes. Só se desse com um Homem Beta, preguiçoso e passivo, e mesmo assim não digo nada. 

Briolanja é patética, mas é quase seguro dizer que se tornou mais normal as mulheres serem Briolanjas do que Orianas. E é muito por culpa das Briolanjas que às vezes as mulheres são tratadas com menos respeito...


(***numa outra, que não faz grande sentido com o resto da história, Oriana 
dá-lhe autorização para ceder temporariamente a Briolanja, antes que ela o mate, numa versão medieval do "vamos dar um tempo para sair com outras pessoas").



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