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Friday, May 22, 2015

Atirar o pau ao gato... e outras violências da semana.



Quem nasceu/cresceu no final dos anos 80/inícios de 90 lembrar-se-á de uma excelente série do mesmo tipo de Os Amigos do Gaspar, que se chamava No Tempo dos Afonsinhos. Protagonizada por bonecos ao melhor estilo de Barcelos e com música de Sérgio Godinho, retratava a vida de um povo celtibero (?) que vivia numa citânia e que afirmava, apesar da distância dos "tempos idos", "não andar longe do que os portugueses são".

E era verdade. Os afonsinhos eram desenrascados, mas sempre prontos a ir com as modas e a assarapantar-se com qualquer nova, tal como os lusitanos de hoje. Não tinham era futebol nem redes sociais; de resto o barro, passe o trocadilho, era o mesmo.


 Nas últimas duas semanas temos assistido não só a um triste festival de violência, como a uma histeria, um exagero, um aqui D´El Rei em consequência disso. 

Depois dos casos de bullying e de um outro realmente trágico que pôs todos os pais do país a pensar em que erros estará a sociedade a cometer, tivemos a violência no futebol e por fim, a violência contra animais na ordem do dia. Sem querer aligeirar, parece ser para compensar as semanas em que os jornais não têm nada para escrever. E sem dúvida, os média aproveitam o "pratinho" muitas vezes com uma falta de isenção e de sobriedade de bradar aos céus.

 O que se passou no Marquês e em Guimarães diz muito de nós como povo, infelizmente: ao ver as imagens, só me lembrava dos Afonsinhos. Foi o quadro completo: houve os adeptos vândalos, o mau polícia para ser crucificado, o bom polícia para puxar à lágrima e tentar conter a fúria popular contra a autoridade, recordando desesperadamente "olhem que a Polícia é vossa amiga" e a pobre criancinha aos berros, como seria normal nessas circunstâncias, para o schock value. Como notícia, não se arranja melhor.



 Vamos por partes: o Subcomissário foi pouco profissional. O Subcomissário tinha de respeitar os procedimentos como lhe compete (e aqui entre nós, se ia perder a cabeça e largar à bastonada, não faltariam lá brutos merecedores, não havia que descarregar em velhinhos e pais de família). Foi mal feito? Foi, porque para desautorizar a autoridade já basta o que basta e a cada elemento das Forças de Segurança compete zelar pela honra da farda.

 Mas por favor, senhores, chamemos as coisas pelos nomes : três cacetadas e uns empurrões não são "espancar brutalmente" alguém, como o Correio da Manhã tratou de repetir ad nauseam com o ar mais lamechas deste mundo. Tenho por "espancar brutalmente" deixar uma pessoa assim que nem a alma se lhe aproveita, não a chorar com duas zurzidelas. 

Eu que sou mulher não me aterrorizava por tão pouco. Andamos aqui há dias e dias a discutir apaixonadamente dois sopapos entre dois homens, que noutros tempos dali a pouco já não era nada e se resolvia com uma rodada no botequim mais próximo. Estilo Asterix. Ou a nossa versão, os Afonsinhos.

 Na terra dos meus avós todas as semanas havia picardias com a GNR - ora à conta do futebol, ora em épocas mais recuadas, por pouca simpatia com a República. Os guardas davam umas traulitadas nos machos alfa lá do sítio, noutro dia os machos alfa lá do sítio devolviam a gentileza, era como no Fado "palavra puxa palavra, desata tudo à estalada para um posto ali ao lado". Ou como diria Eça de Queiroz, "no fundo todos nós somos fadistas: do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada, e viva lá seu compadre! Aí está o que é!". Ou o que era, porque agora está tudo muito sensível, pelo menos quando se trata de apontar o dedo à polícia.

Nada disto desculpa, atenção, a má atitude: mas há que pensar nas consequências, na forma como estamos a tratar publicamente quem nos defende. Porque, caros cidadãos ordeiros e muito indignados, se vos assaltarem a casa é escusado chamar os adeptos do Benfica, ou de outro clube qualquer, para vos virem acudir. 

  E a semana terminou com a violência contra os indefesos bichinhos: uma jovem, abençoada seja, terminou o noivado com o companheiro, um rapaz lá do ginásio, por alegadamente lhe ter deixado a gata neste estado depois de uma discussão. Talvez se pudesse noticiar um pobre rapaz não "brutalmente espancado", vá, mas bastante moído de sopapos, e não era a fazer festas como o senhor polícia. Não gosto de violência, mas gosto ainda menos de cobardes. Um dia é na gata, noutro é nos filhos, não?

  Mas logo a seguir foi o caso do exercício de física, em que um menino vândalo atira um gato da varanda e é suposto os alunos calcularem a velocidade a que o pobre bicho aterrava, como se fosse "o Diogo atirou uma melancia; a que velocidade aterrou ela?" (e mesmo isso, era de vândalo!). Ainda se fosse "o Diogo ia a perseguir o gato feito anormal, tropeçou e virou da varanda abaixo- a que velocidade se estatelou o bruto?".

Mal por mal, sempre havia um bocadinho de justiça na violência...

Brutalidades sem sentido e gente atarantada é que não dá.





4 comments:

C. N. Gil said...

Em relação aos acontecimentos de Guimarães e Lisboa:

-Já disse várias vezes que o jogo de futebol é-me indiferente. Já tudo o resto que é acessório ao jogo é no mínimo parvo e no extremo revoltante.
Assistimos ao extremo. Depois do que vimos o estádio do Guimarães e o do Benfica deveriam ser interditados por, no mínimo, uma época. Era triste? Era. Temos pena! Eu quando me portava mal em puto tinha sempre direito a castigo...
Fora isso, houve uma batalha campal e alguém que levou umas bordoadas? Bem, quem anda à chuva molha-se...
Não digo com isto que o policia procedeu bem, mas também não se pode dizer que este país acarinhe as suas forças policiais, que chegam a ser condenadas por fazer o seu trabalho exemplarmente, portanto...
Já quanto ao estúpido e o gato, os ovos mexidos deviam estar mesmo, mesmo, mas mesmo maus! Ainda assim devia haver um policia que o pusesse no mesmo estado do gato! Assim à laia da compensação karmica!

Quanto ao exercício de física, é verdade que herrar é umano, mas isto não é um herro, é uma piada falhada (tipo aquela o que é que mia, tem duas patas e deita bué sangue? Meio gato), o que é muito mais grave! Não acredito que a alminha que imaginou o exercício não tivesse noção da estupidez que estava a fazer...
...mas como já vi de tudo, se não tinha mesmo noção então, por mais inteligente que possa ser, é estúpido que nem um porta, ou mais ainda, que hoje em dia já há portas inteligentes (infelizmente não no governo, mas tb não se pode ter tudo, né?)

:)

Imperatriz Sissi said...

Assino por baixo. Quem escreveu o exercício devia partilhar o laboratório com os professores de química e provavelmente inalou alguma coisa daquelas que fazem rir. Por momentos achei estar a ler um excerto de algum manual da juventude hitleriana ou dos guardas vermelhos. Está tudo doido!

C. N. Gil said...

Mas já agora, deixa-me acrescentar que se o exercício fosse...:

O Diogo estendeu um tapete Persa por baixo da sua varanda e amarrou um ão com manteiga às costas de um gato largando-o em seguida da sua varanda a cinco metros do chão. Sabendo que um gato cai sempre de pé, e que a probabilidade de um pão com manteiga cair com o lado barrado no chão se relaciona directamente com o valor do tapete, o que achas que aconteceu?
A- O gato aterrou de pé
B- O gato aterrou de costas, manchando o tapete com manteiga
C- O gato ficou a flutuar de lado por cima do tapete visto que não pode cair nem de pé nem de costas, descobrindo-se assim o principio da anti-gravidade


...eu até acharia bem feito!

:D

Imperatriz Sissi said...

Continuo a preferir "o Diogo largou uma melancia; havia um trampolim lá em baixo e ela voltou para cima; a que velocidade lhe acertou em cheio na narigueta?"

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