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Thursday, May 14, 2015

Bullying (e outros fins do mundo)


Hoje tudo se diagnostica, tudo se classifica, tudo se etiqueta. "Bullying" é uma etiqueta que se coloca com alguma leviandade actualmente. Não creio que haja mais bullying (ou mais "violência entre miúdos", já que bullying, se correctamente empregado, terá uma conotação de comportamento continuado, assédio e perseguição) do que houve no passado. 

Simplesmente agora qualquer pessoa tem uma câmara no bolso, redes sociais para se indignar e/ou tomar mais consciência (mal ou bem) do que se passa. Para não mencionar que há outra abertura  - ou ligeireza de costumes - para tomar, sem que isso pareça grande coisa, atitudes que na minha adolescência as pessoas pensariam vinte vezes antes de admitir. 

Nos últimos dias, não se tem falado noutra coisa: das orelhas do rapaz do Ídolos à sessão de tortura levada a cabo por uma data de serigaitas que - mostram as redes sociais - se dedicam a dançar funk e twerk nas horas vagas (não vou partilhar o vídeo, ele está por todo o lado mesmo). Dignas discípulas de uma MTV que mostra cenas degradantes, a beirar a pornografia, como estas. Pelas danças e os trapos as conhecereis.

 Já aqui o disse em tempos que de ser incomodado ninguém está livre - começa no infantário e continua pela vida fora (tanto que se fala em bullying no local de trabalho). Há sempre alguém que embirra com outrem, porque lhe apetece, e se arma em valentão...porque pode. 



"Já vi pessoas maltratadas por serem gordas, magras, excepcionalmente bonitas ou feias, mais pobres que os outros, mais ricas que os outros (olha o menino mimado!) por serem uns zés ninguém, por serem famosas, pelo insucesso, pelo sucesso a mais, por terem dificuldades de aprendizagem ou serem  sobredotadas, pelos mais variados motivos. Há sempre alguma coisa por onde pegar, e quem gosta de ser mau para os outros faz sempre tentativas.  A diferença entre a vítima e a pessoa que se faz respeitar reside somente na capacidade de dar o troco. Na consciência do próprio valor, do "eu não preciso de aturar isto". No poder que cada um concede a si mesmo".

 Dar e levar pancada faz parte, infelizmente, de uma certa iniciação social. Isso já era comum no tempo de Cristo (e antes) e foi piorando numas fases da Humanidade, melhorando noutras. Por muito que a sociedade evolua, não creio que se escape a esta dinâmica um tanto darwinista. 

E sim, lembro-me da primeira bully que conheci...e que foi logo embirrar comigo. Claro que também me lembro do Fernando que me roubou o chapéu no primeiro dia de creche (que simpatia!) e do Luís que um dia, esquecendo a máxima "numa menina não se bate nem com uma flor" me deu um soco que me abriu o lábio (mais tarde enchi-o de pontapés, não tenham pena) e de muitos outros com quem tive algum tipo de contenda. Mas esses não eram bullies. Eram só parvalhões ocasionais, resolvia-se tudo à bolachada e pronto. 

A  Lili, essa, era uma bully de primeira. Muito grande, muito feia, sempre ranhosa e coitada, vinda de uma família totalmente disfuncional, ninguém lhe fazia frente: uns por medo, outros por pena. 

Eu era toda ingénua, miudinha e totó, a achar que ia para o infantário fazer amiguinhos, afinal era um colégio com freirinhas e tudo. Claro que ela foi pegar comigo. Andou um ano inteiro a perseguir-me, a psicopata. Uma vez saiu debaixo da mesa (onde eu estava a pintar com outros miúdos) ao melhor estilo O Exorcista, a olhar para mim fixamente com o nariz a pingar e a língua de fora. Tive tanto medo que fugi a correr e fui esconder-me debaixo do hábito da Irmã Lucinda. Claro que fui castigada por faltar ao respeito à boa Irmã, que não percebeu o que se estava a passar. 

 Vieram as férias e no final do Verão, eu estava aterrorizada por voltar ao colégio. Porém - abençoada sorte - o senhor pai percebeu o que me andava a moer por dentro e resumiu o remédio a uma receita muito simples, embora pouco politicamente correcta:

"Bate-lhe também". 

Em vão lhe disse que ela era maior do que eu e ia fazer-me em picadinho: o "bate-lhe também, que ela perde a vontade" foi irredutível. Explicou ele - coisas que um militar sabe melhor que ninguém -  que a valentona se baseava mais no terror psicológico do que na força. Meu dito, meu feito. 

No primeiro dia de aulas ela vem para me bater, assim com ar de quem ainda não aqueceu...puxei a mão atrás...e sem grande força, assentei-lhe um estalo. Um estalo hesitante, fraquinho; ia para lhe dar outro mas ela recuou vexada, espantada, de mão na cara. "Tu...bateste-me?". 

Pois bati. Foi a última vez que me incomodou. E rapidamente aprendi um mantra essencial à sobrevivência escolar: quem vai à guerra dá e leva. C´est la vie. 

O que me leva a várias questões, agora pondo de parte os linchamentos facebookianos clamando pelo sangue da SIC e fazendo a apologia da justiça de Fafe às quatro bullies de calções-cueca e leggings. 

Sem querer minimizar o problema, a própria ideia de bullying como coisa muito grave e muito séria está talvez a tirar aos miúdos a ideia de que sim senhora, são capazes de se defender. Se em vez de tanta sessão de esclarecimento se gastasse dinheiro numas aulas de auto defesa obrigatórias, outro galo cantaria. O que me choca mais - fora medidas que logicamente, têm de ser tomadas e não é os pais afectando a honrada, mas tardia, atitude de "entregar os filhos à polícia" que se livra a água do capote - é o rapazinho não se ter defendido por mais de dez minutos. Que eu nem vi o vídeo porque embora o que disse neste texto possa sugerir o contrário, detesto violência. 

 Estivessem que não estivessem uns matulões lá atrás a guardar as cobardezinhas, sem luta é que não ia: um soco em cada uma que ficava vingado, qual não se bate em raparigas qual cabaça, com amazonas destas só se perdem as que caem no chão, e ó pernas para que te quero.  Bem dizia Maquiavel: o mal sempre que necessário.

 Mas os valores andam de tal maneira invertidos que ó senhores, nem isto.





2 comments:

Sandra Marques de Paiva said...

Totalmente de acordo. Eu vi o video até ao fim, não o vi amarrado: no mínimo tentava fugir dali ou pedir ajuda a quem passasse na rua.

CJL said...

Infelizmente acho que é mais fácil a luta de 1 para 1 do que de 1 para 5 ou 6: perante um grupo agressor a vítima tem mais medo e é nisso que eles se fundamentam. Sim, porque sozinhos não valem nada e são uns medricas de primeira...

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