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Saturday, May 23, 2015

Deixem o Mar em paz!


Parece que mais uma vez, Portugal não ficou bem colocado no Festival da Canção. E parece que, como de costume, levou outra cantiga sobre...o mar. Quando não é o Fado, é o mar. Quando não é o mar, é o Fado. 

 Nada contra o Fado nem contra o mar. Nada contra a canção ou a intérprete que de resto, nem ouvi bem.

Como não vejo televisão generalista nem sequer tenho opinião, reparem, quanto a valer a pena continuar a gastar meios para participar num certame que já não vale o que valia, que está cada vez mais parecido com um freak show, que - desculpem a franqueza - se fez um bocadinho eurotrash, onde nunca nos deram grande troco, que tem um sistema de votação esquisitíssimo com mais lobbies do que a máfia siciliana (dizem uns) e/ou com os vizinhos a votar todos uns nos outros (dizem alguns). 

Percebo que, se calhar, para algumas cabeças seja ponto de honra Portugal ganhar alguma vez, já que andamos desesperadamente a tentar há décadas (e claramente, a fazer mais esforço para agradar "lá fora" do que para escrever uma canção com pés e cabeça).

  E sou tão compreensiva com esta ilusão teimosa que até dou desconto a que tendo nós, coitaditos, apenas como vizinhos a Espanha e o Mar e não sendo boa ideia compor odes a Espanha, nos fuja a falta de imaginação para o mar.

O mar é daquelas coisas que andam de noite, assim neutras - como o infinito, o silêncio, a dor, o destino e o amor - que está mesmo à mão quando se tem preguiça ou falta o talento para a escrita. Não que grandes autores não tenham usado estes temas (de Fernando Pessoa a Marguerite Duras) mas são assim um pouquito óbvios.


 Dito isto, lá porque estamos entalados entre Espanha e o Mar - condicionantes que nos empurraram para a grandeza dos Descobrimentos, certo, mas essa não foi a única grandeza que tivemos mesmo que queiramos viver da História -  e tudo isto é fado, não temos de usar sempre essa desculpa esfarrapada. Falar sobre o mar em cada canção só porque  é para inglês ouvir é o mesmo que enfiar um panfleto turístico pelos olhos do júri dentro. Os estrangeiros hão-de julgar que não pensamos em mais nada. Imaginem se os russos só cantassem sobre a neve, ou os italianos sobre macarrão. É mais ou menos o mesmo. Sim, temos o mar mas também temos dores de cabeça, e dias bons e dias maus, e sonhos como toda a gente - tudo emoções que costumam inspirar os autores e com que os ouvintes se identificam.

 De mais a mais, há países tão cercados pelo mar como nós ou mais, e não os vejo a fazer essas figuras na sua música. Inglaterra, pátria de alguns dos maiores êxitos do pop e do rock, nunca se ralou com o facto de ter o mar à volta. Não sei muito sobre a pop japonesa mas suponho que poucas cantigas falem de "ai ai, vivo num país insular, que desgraçada sensação". 



  O problema é que Portugal é como certas crianças que cantam muito bem quando estão sozinhas, mas mal os pais babados lhes pedem que repitam a proeza à frente dos convidados perdem a naturalidade, cantam baixinho com voz de mimo e estragam tudo.

 Há demasiada preocupação em criar o tema que "vai ganhar o festival". Basta ver que a cada edição se mudam as regras, pensando que assim é que se vai acertar... quando bastava, se calhar, não levar uma cantiga escrita de propósito para a ocasião. Embora haja fórmulas provadas que resultam (na música pop, pelo menos) a  maioria dos grandes hits não foi escrita de encomenda.

  Canções como Umbrella (que acabou por se tornar conhecida pela voz de Rihanna) foram inicialmente oferecidas a outras cantoras. Andaram meses na gaveta, às vezes mais.

Deviam procurar-se músicas - não importa tanto a língua em que são cantadas - que fossem orelhudas, que ficassem no ouvido, que arrepiassem, que fossem boas para a rádio, que funcionassem no festival, sim senhor, mas principalmente fora dele e depois dele. Veja-se o exemplo dos ABBA, que deram nas vistas com Waterloo mas havia muito mais material de onde aquele tinha vindo.

E de preferência, sem o mar ao barulho. É que sinceramente, já enjoa e assim como assim, quem fala outras línguas nem percebe o que é que "mar" quer dizer.

5 comments:

Adeselna Davies said...

O tema da Eurovisão era construir pontes e qual o título da nossa canção: há um mar que nos separa... Mar, saudade, triste... é tudo tão dull e tão chato! O vencedor falou de como todos somos heróis, os tugas andam a queixar-se pelos cantos. É essa a diferença de uma música com potencial e uma que simplesmente é tão aborrecida. Música portuguesa tem de ser assim, senão já não é "boa". A música Suzy era parola mas meteu o público todo a mexer-se em tantos anos de músicas lentas e aborrecidas.

minimilk said...

Os melhores anos de eurovisão foram aqueles em que cantores com boa voz cantavam boa música em boa letra. Só assim a atirar para o ar, não estou a ver a palavra mar na "Desfolhada", nem no "Depois do adeus".

C. N. Gil said...

Já me debrucei um bocado sobre isto lá no meu canto, mas digo-te isto:

O festival RTP da canção, como aliás a maior parte do que se passa com a música e as artes em geral neste canto, gere-se por campadrios...
...até ao ponto em que, neste edição, foi a RTP a convidar os compositores a escrever as músicas, não havendo hipóteses a mais ninguém senão os convidados!

Por um mero acaso eu tinha uma música e letra (não, não falava de mar - https://vimeo.com/120282376 se quiseres ouvir e ler) que foi apresentada aos XXL Blues, mas que estava um bocado fora do que costumamos fazer. No entanto olhamos bem para a música e pensamos "Isto era um tema com pedalada para um festival!" e decidimos concorrer. Falamos com um rapaz que canta umas coisas (já esteve na voz de Portugal onde ficou bem colocado e num outro concurso da TVI onde chegou quase à final também) que ouviu o tema e aceitou prontamente a ideia e estavamos prontos para o gravar assim que saisse o regulamento! Claro que quando o regulamento saiu só nos pudemos rir... Olhamos uns para os outros e pensamos "Mais do mesmo!". E foi mais do mesmo!

Claro que, posto isto, mesmo que para o ano as coisas mudem - coisa que acho difícil porque depois dos homens da luta a RTP tem medo, muito medo - e ainda que tenha musicas para isso, não me darei ao trabalho, tal como a maior parte do pessoal que conheço. Para a maior parte dos músicos e compositores o festival tornou-se uma anedota...

Já o festival eurovisão, propriamente dito, teve momentos de altíssimo nível musical e conceptual. O tema vencedor, O tema da Austrália (país convidado), o tema da Bélgica, da Russia, da Lituania e tantos outros estiveram ao nível da melhor Pop que se faz no mundo, com produções musicais e de palco de rivalizar com alguns dos melhores concertos que já vi...

...se a nossa musica tivesse passado a sua mediocridade de produção musical e de palco estaria ainda mais em evidência...

:)

Imperatriz Sissi said...

@Adeselna- verdade. Se o tema era esse, que grande barrete!

@Minimilk, pois não. Acima de tudo eram canções com rasgo, não escritas a pensar 2 o que é que vai levar a portugalidade lá fora?". Trying too hard...

@CN, a canção estava bem interessante. E isso de mudarem as regras de ano para ano, a ver se desta acertam é ridículo. Acabamos quase sempre com temas lamechas, letrinhas revisteiras ou esforços a ver se cola. NB: o videoclip tinha o mar mas isso foi irónico, certo? ;)

C. N. Gil said...

LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL

Mera coincidência!
O video (video lyric e não video clip), tem tempestades, a simbolizar uma tempestade na alma! Algumas são no mar e outras em terra...
...como é mais ou menos costume com essa coisa das tempestades, que como sabes, são irrequietas demais para ficarem quietas só num sítio!

Mas amodos que é só por isso!
LOL

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