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Wednesday, May 6, 2015

Dois remédios contra a ganância e a soberba



Ganância e soberba são dois males discretos, que andam por aí disfarçados de virtudes.

 O esprit dù siecle convida a que se demonstre garra, ambição, assertividade, determinação e confiança (estamos na era da selfie, e isso diz tudo). 
Isto faz com que se confunda ambição saudável com ganância, e soberba com um certo orgulho nativo, com uma dignidade inabalável que não é incompatível nem com a humildade que convém aos grandes, nem com a modéstia que é apanágio dos sábios. 

Depois, o materialismo da nossa época influencia as pessoas a agarrar-se a coisas, em vez de usufruírem delas com o devido desprendimento. Não se deve ser perdulário, mas por vezes, na ânsia de aproveitar ao máximo as alegrias materiais que a vida oferece, a maioria esquece que isso passa num instante e do mundo não se leva nada. Se meditarmos nisto, não vale a pena perder o sono por causa de um carro bonito, de prestígio social ou da última it bag

  Quem é ganancioso e soberbo perde mais do que ganha: perde paz de espírito, porque nunca está satisfeito; tenta constantemente impressionar, superar, amesquinhar ou bajular os outros; qualquer coisa melindra o seu frágil ego e passa a vida a invejar, a ressentir-se, a comparar-se com os demais. 


Perde elegância, porque quem pensa demasiado de si mesmo e se embevece com as suas conquistas nunca é capaz de se criticar a si antes de reparar nos males alheios, de se pôr em último lugar (é o tipo de pessoa que causa complicações no trânsito e nas filas) de se fazer leve, de estar à vontade (ora se sente inferiorizado num ambiente mais selecto, ora se dá ares junto de pessoas que considera "gente humilde", ora entra em modo "você sabe com quem está a falar?" ). 

Perde ocasiões de ser feliz, porque se coloca num pedestal de tal ordem que não sabe perdoar nem dar o desconto: espera muito pouco de si, mas perfeição de quem o rodeia. Quer ter tudo, dando quase nada em troca. E por fim, também desperdiça boas oportunidades de aprender, de se aperfeiçoar. É bom ter confiança em si mesmo, mas achar que se sabe tudo, que não se comete erros, é convidar desgostos e vexames. É verdadeiro que quem se exalta será humilhado. Verdadeiro e lógico...

Há sempre alguém maior - mais bonito, mais talentoso, mais sortudo, com mais vantagens de nascimento, mais meios, mais talento. De qualquer modo tudo isso é relativo, portanto é ridículo obcecar-se com competições vãs.


 Sem essa elegância do espírito,  sem a  noção de que a vida dá e tira logo é inútil maçar-se com isso, sem o desprezo pelas vaidades do mundo, não se pode sequer usufruir delas em paz e sossego.

 Por exemplo, a rapariga vaidosa que teve a sorte de nascer bonita nunca se sente feliz, porque anda no terror de que outra lhe faça sombra, de engordar, de envelhecer; o ganancioso que enriqueceu passa a viver no medo da ruína; a celebridade que alcançou o êxito teme cair no esquecimento, dando-se a figuras patéticas para continuar a ser notada...e assim por diante.

 Ora, contra esses males, duas elevadas almas portuguesas escreveram verdades que são grandes remédios: a respeito de ganância e soberba, recomenda Gonçalo Fernandes Trancoso que "nem por alteza de estado nos ensoberbeçamos, nem por baixeza, desesperemos" e dá como exemplo um certo fidalgo de Veneza que era felicíssimo pois além do respeito de todos e de uma esposa que amava, possuía a riqueza necessária para viver "em honra e quietação"

Ora, é essa a prosperidade a que se deve aspirar -  ter a segurança que permite viver em paz  (e que difere consoante o gosto, estado e  condição de cada um) honestamente, sem andar em aflições. Desesperar-se por mais do que isso é ganância e vaidade.

  Sobre soberba, relata D. Luiz de Lancastre e Távora acerca da educação da Marquesa D. Leonor: "o que tantas vezes os pais lhe havia dito sobre a vacuidade de ufanar-se de coisas que só ao acaso se deviam (...) o orgulho pode ser legítimo...mas só quando não assume a forma de arrogância".

 Possam todas as pessoas sensatas viver em honra e quietação sem se ufanarem do que é frágil, perecível e  fruto do acaso. Vanitas vanitatum et omnia vanitas...

1 comment:

gisela pascoal said...

Sem dúvida alguma, a ganância, o egocentrismo, soberba, bem chamemos-lhe estupidez mesmo, não leva ninguém a lado nenhum. Se não temos em nós o bom como vemos no outro? Gostei muito do texto. Obrigada por nos alertares para valores que regularmente se estão a perder. Beijinho

http://giselapascoal.blogspot.pt/

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