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Saturday, May 30, 2015

Expliquem-me lá, assim sem palavrões nem nada.


Porque é que um texto escrito por um punho feminino, num portal feminino, para mostrar que uma mulher tem força, tem garra, não se deixa pisar por ninguém...tem de ter palavrões? Principalmente quando se dirige a homens. A dar-lhes um pontapé no dito cujo.

Ainda ontem vi um por aí a cirandar-me nos feeds e deu-me cá uma urticária!

Assim um palavrãozinho bem feio no título, bem agressivo, a puxar ao clique. Seguido de mais umas tantas expressões brejeiras, mas tudo com um ar compungido, misturado quase sempre a um toque de "estou-me nas tintas para ti", "olha para mim tão bem sem ti, sou uma guerreira" ou ainda, "as meninas boas tornam-se más porque há muitos maus rapazes". Boo-hoo, cry me a river.

 E quando não é o discurso da raposa que não chegou às uvas, é o discurso da mulher que tem imensos casos amorosos, que se entorna, que volta para casa num bonito estado após uma noite de estúrdia e de rambóia, depois de ter enjoado e virado o barco. Blhec.

Não é que não haja por aí autores e autoras a escrever bem atirando, ocasionalmente, uma palavra feia por outra. Há, são é raros. Para escrever bem usando palavras más, é preciso escrever mesmo MUITO bem, ser um Bocage, um Guerra Junqueiro, ou então ter muitíssima piada. Ambos são coisas raras.  

E não é que uma rapariga dizer um palavrão seja uma coisa de outro mundo - conheço muitas senhoras elegantes que os dizem. Sempre em surdina, que isto as coisas desagradáveis (como as estrias, os desaires conjugais e as falências) não são para mostrar ao mundo. O que ainda mais me ajuda: pensará este mulherio que transgride muito por dizer uma asneira, por escrever uma asneira - pior, por não escrever senão asneiras?

 Estes artigos não me chocam pelo palavrão - afligem-me por soarem tão forçados. Chocam-me, muitos deles, pela frivolidade, pela mediocridade. É como se a menina se sentasse, atirasse a palavra F*** para o monitor, e pensasse "agora que já tenho a asneirola para servir de isco, que palha é que eu aqui ponho? Zás, justifico tudo com um desgosto amoroso. Ai, que difícil é ser mulher!". E o leitor engole, acha lindo, como os pequenitos que se deleitavam a escrever "palavras feias" no quadro preto quando a professora virava costas...disse uma brejeirice? É atrevido, é subversivo, é profundo.

 E eu aqui, a revolver-me de pena. Se calhar sou demasiado subtil para este mundo, mas sempre achei que difícil é escrever em termos. Difícil é ganhar uma disputa sem descer no salto ou -  como muitas Senhoras que tenho conhecido - sem dar à outra parte o prazer de uma única palavra. Ou, caso a tristeza seja uma fonte de inspiração excelente para a escrita, ao menos fazê-lo com elegância, sem parecer uma desesperada. Desesperada por mostrar que se é forte, que se está nas tintas, ou outro tipo de desespero. Mais valia irem dar um jeito à cara, espatifar o orçamento nas compras, uma patetice feminina qualquer- o estereótipo sempre era menos mau. Poupem-me. (E aqui acabava com um palavrão bem rematado, mas imaginam como ficava feio? Passo).


1 comment:

Sandra Marques de Paiva said...

hahahahahahahaha. Confesso que digo uma série de asneirolas, mas também aacho muito feio que o digam. Assim como não gosto de ver mulheres a beber cerveja.... Sou uma criatura muito estranha ;)

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