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Sunday, May 3, 2015

Frase do dia: diz-me o que lês, dir-te-ei quem és.



"Os bons livros pertencem ao próprio lar para onde foram levados"


Esta semana comprei mais uma edição de uma das minhas obras preferidas - tenho esta mania, até por causa de outra mania: como sublinho e faço anotações, gosto de ter um exemplar mais modesto para não estragar as versões antigas, bonitinhas e encadernadas...quanto mais amo um livro, menos respeito lhe tenho, é um facto.

A frase acima vinha então na nota do editor do referido livro-comprado-para-reler-e-riscar -sem-dó, e deu-me que pensar. 

Poucas coisas dizem tanto das pessoas como um rápido olhar à sua biblioteca (ou à sua lista de livros favoritos nas redes sociais, que vai dar mais ou menos ao mesmo). 

É uma daquelas pistas essenciais para um bom profiling, tão eficaz como notar as subtilezas no vestuário (as aparências podem enganar, mas também esclarecem muita coisa a um observador experiente) ou na linguagem. As leituras que uma pessoa faz  - ou mais eloquente ainda, os livros que tolera - desmascaram mais fachadas que um bom desmaquilhante. São as coisas que não suportamos, mais do que aquelas que se apreciam, que denunciam verdadeiramente o carácter, o gosto e a bússula moral de cada um. Em suma, cada casa tem os livros que merece e os que lhe são necessários ou condizem com os hábitos, referências e estilo de quem os compra...

 Podemos dar o desconto a quem sabemos ser um leitor compulsivo, trabalha na área editorial ou compra livros por atacado (já o fiz e juro que andei meses a desfazer-me de porcarias). Estas pessoas podem ter em casa livros que passam adiante pouco depois de lhes dar uma olhadela na diagonal, e isso não conta.  Mas regra geral o conteúdo da livraria (salvo seja) põe rapidamente a nu o curioso, o poseur, o que não gosta de ler (banda desenhada que lhe ofereceram e um qualquer livro da moda escrito por um qualquer pivot de telejornal) o sonhador inveterado, o ingénuo, o alpinista social, a desmiolada ( testemunho lamechas de uma celebridade, literatura light pseudo erótica) o imaturo  - ou que não leu muito mas gosta de fingir que enfim, leu alguma coisita para não parecer parvo de todo (A Lua de Joana, Os Filhos da Droga, o Principezinho e, para dar um ar de profundidade, Fernando Pessoa) o aspirante a escritor (livros publicados por outros autores praticamente anónimos, Nicholas Sparks, poesia sem grande critério) e tantos outros tipos. Isto sem falar na profissão, condição e background de cada um. E quanto mais instruído o sujeito, mais contrastante pode ser o veredicto da estante, passe a rima...


 Lembro-me de um caso que foi claro como água. Uma conhecida minha, amiga de uma amiga, não era má rapariga mas sempre me pareceu um pouco superficial - do género que tem mais ambição do que miolo e tenta a muito custo refinar-se. Vinha de uma família simpática mas sem meios nem estudos e nada na sua conversa fazia entrever grande sensibilidade, quanto mais mundo. Por isso fiquei bastante surpreendida quando soube que era uma aluna excelente, com vários prémios na faculdade, mas quem sou eu para julgar o intelecto dos outros... Finalmente, quando estive em casa dela, olhei-lhe para a estante, que era bastante parca...e estava explicado. Além dos livros de Direito  só lá estavam meia dúzia de romances light, do mais básico que imaginar se possa, e se não estou em erro, um Paulo Coelho. Nem um só clássico da literatura, um Aristóteles, um Platão para leitura complementar, os Lusíadas que fosse! 

Todo o seu pensamento, todas as suas referências, vinham do propósito (legítimo, mas mercenário) de subir na escala social para se parecer com as personagens daqueles Sexo e a Cidade à portuguesa. Era, afinal, apenas uma rapariga muito esforçada.

  Mais tarde a mãe, coitada, veio contar-me, desvanecida, que ela se tinha mudado para a capital porque sempre fora muito cosmopolita - confirmando a noção delirante de que se pode ser cosmopolita toda a vida sem nunca ter arredado pé da santa terrinha. Zás, tinha de vir o palavrão, aprendido sem dúvida nas páginas dos folhetins...



1 comment:

p said...

Este post está muito bom. Lembra-me de quando fui visitar uma amiga recém-casada - cujo única ambição conhecida era mesmo essa, casar- tendo ela acabado de decorar a sua casa e dizer que ainda havia de comprar alguns livros para decorar a sala "nem precisam de ver verdadeiros, daqueles blocos de plástico a imitar livros".
Ou outra vez em que fui a casa de um rapaz e nem um único livro havia - só revistas- porque não gostava de ler; é que terminei logo tudo dali a dias que não era, de todo, pessoa para mim. Não me consigo imaginar com uma pessoa avessa à leitura (antes só...).

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