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Tuesday, May 12, 2015

Isso de as meninas boas irem para o céu, e as outras...


...para toda a parte, frase de Mae West que se tornou demasiado popular (ou seja, a maioria das pessoas que a usa nem sabe quem foi a autora) e desculpa todas as asneiras, tem muito que se lhe diga.

 Se a aplicarmos no sentido "paciência a mais é cobardia", estou de acordo. A dignidade feminina, uma atitude subtil de feminilidade e elegância, não pode ser confundida com a mentalidade "de tapete", porque essa forma de estar conduz precisamente ao contrário: ao desespero abjecto por agradar.

Máximas muito acertadas como "uma senhora só vê e ouve aquilo que quer" (ou seja, não se rebaixa a disputar atenções com ninguém, não entra em despiques nem em debates, não se deixa incomodar por atitudes menos dignas de outras mulheres nem por acções levianas por parte dos homens) devem ser aplicadas com o devido bom senso. Ignorar tem limites: quando esses limites são ultrapassados, só uma tola não se retira, dando à situação o mais gélido e merecido desprezo.

 Mas de resto, é muito errado que se valorize a "bad girl" - a rapariga desmiolada, leviana, barulhenta, atrevida, prá frentex, respondona, que age por impulso e vive para o momento - dando a entender que uma mulher serena, ponderada, discreta e com amor próprio não chega a lado nenhum. Isso é, em suma, ir com a moral do século, boçal e cobiçosa, que reza "não é guardando a honra que se avança na vida", ou, como diz o povo "honra e proveito não cabem no mesmo saco". 


 Ser uma boa rapariga - como de resto, ser uma pessoa honesta -  pode custar muito, é verdade. E atenção: não estou a falar de uma rapariga de bem que faz por alardear isso, vestindo como uma beata e dando sermões desagradáveis a toda a gente. Basta que a "boa rapariga" tenha princípios, palavra, juízo e não vá com as modas, as bajulações e as conveniências pouco transparentes.

Pode  custar uma promoção ou um salto na carreira, porque não se quis corresponder ao flirt de um superior ou alinhar numa batotice qualquer. Pode acabar com amizades, pois nem toda a gente gosta de franqueza (mesmo que as verdades sejam ditas de forma gentil, como convém) e rectidão: quem não adere a determinadps divertimentos, companhias ou  gostos, não achando bem, porque não acha, certas "condescendências" passa facilmente por cortes ou coca bichinhos. Pode afastar pretendentes mais modernos, que esperam que uma mulher os convide (ou pelo menos, que se faça muitíssimo convidada) como estão habituados, ou que se retraem perante uma atitude mais séria ou prudente. 


 Pode magoar porque há quem trate as mulheres todas da mesma maneira, achando que todas valem o mesmo. No limite, até cavalheiros bem educados, habituados de pequenos a valorizar uma "good girl" terão os seus momentos em que preferem...bom, outro tipo de companhia com menos classe. A boa rapariga recorda-lhes de forma demasiado evidente as suas responsabilidades, mesmo que não diga nada e nem faça por isso. E ficam tão zangados com essa ideia, lá por dentro, que são capazes de se confundir, ou de agir como se misturassem tudo.

 Nessas alturas dá vontade de pensar "Porque não nasci desmiolada? Porque não faço todos os disparates como as outras? Se a recompensa é a mesma!". Mas isso é o pior raciocínio que se pode fazer. Mesmo que não haja recompensa imediata (ou alguma) para quem exercita as suas virtudes e corrige os seus defeitos (porque a virtude é como os músculos, não é um dado adquirido), há pelo menos a benesse da consciência tranquila, da dignidade intacta e da selecção natural. Quem se afasta, é porque não era companhia que prestasse. Quem não valoriza honestidade e dignidade, se calhar carece desses atributos.

Não desprezemos nunca a força da gentileza, da discrição, da serenidade, do silêncio, da renúncia.

Obter isto ou aquilo sabendo que para tal se cedeu nos valores, se forçou um bocadinho as coisas, que se vendeu a alma ou se fez mais esforço do que seria correcto fazer, que se colocou uma etiqueta pouco elevada em si própria, não pode ser felicidade. Para aplicar a fórmula de Mae West, é preciso ter a inteligência de Mae West e ser um caso único como ela. Na maioria das vezes, seguir-lhe o exemplo é receita para o desastre.

 As meninas más podem ir para todo o lado, mas todo o lado não é necessariamente um sítio selectivo, ou dos eleitos, ou onde interesse estar.


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