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Tuesday, May 5, 2015

Met Gala: quando o politicamente correcto dificulta o dress code

Um dos vestidos presentes na exposição que
 deu o mote para a gala (Alexander McQueen, 2006)

A gala Met (Costume Institute Gala) é sempre muito aguardada. Mas este ano, como o tema para o dress code era a exposição "China: through the Looking Glass" (que celebra, precisamente, a estética chinesa e a sua influência na moda ocidental) houve logo quem lembrasse que havia de se ter cuidado "para não ofender" e para evitar qualquer "apropriação cultural" (como?) usando algo que fosse vagamente uma caricatura.


Outra imagem promocional da exposição (vestido John Galliano)

  Ora, qualquer pessoa de gosto e não completamente ignorante concordaria com os argumentos óbvios "não vão para lá de traje de carnaval comprado no bazar chinês da esquina nem com pauzinhos na cabeça pois enfim, é a Met Gala e não o entrudo no club Sonero Caliente nem vestidas de geisha, porque, nota bene, as geishas e os kimonos não sêle chinês, sêle japonês" (Jesus,  Duarte e Companhia seria crucificado nos tempos que correm). 

Mas quando a  premissa de uma festa é, passo a citar, "explore the impact of Chinese aesthetics on Western fashion, and how China has fueled the fashionable imagination for centuries" 
torna-se um bocadinho ridículo falar de apropriação cultural, esse modismo paranóico que de repente está por todo o lado. 


A imbatível Fan Bingbing durante a festa

 Seria o mesmo que chamar racista a um vestido com padrão de Lenços dos Namorados do Minho, criado por um designer francês para uma festa cujo tema fosse A Influência Portuguesa no Mundo na Moda (que com muita pena minha, acho que não tem bases para acontecer). Ou uma actriz americana inspirar-se no look de Amália Rodrigues para aparecer na dita festa, e os lusitanos vaiarem-na por estar "a fazer pouco de nós". 

Há uma linha que separa a fantasia e celebrar uma determinada cultura de não fazer a devida pesquisa aos seus elementos antes de se inspirar nela. Chama-se bom gosto - tudo o resto cai no modismo paranóico da apropriação cultural, do pânico de ofender.

  Voltemos a imaginar a tal festa A Influência Portuguesa no Mundo na Moda: ofensivo seria as convidadas aparecerem vestidas de sevilhana.  Tudo o resto - saias da Nazaré, vestidos de noiva do Minho, xailes de Tricana...era uma homenagem bem vinda. 

Do mesmo modo, se num evento dedicado à moda chinesa não aparecer seda bordada, encarnado e amarelo imperial, peónias, jade, salgueiros, dragões, fénix, brocado, veludo dévoré, borlas e outros elementos à mandarina nem cheongsams ou qipaos...mais vale não haver tema e pronto. 


Rihanna, em Guo Pei - espampanante mas a condizer: couture chinesa, amarelo Imperial, bordados e seda

Ao pensar no dress code para tal ocasião, as linhas de orientação são indiscutíveis: a dinastia Tang, Xangai nos anos 30 e os filmes de Zhang Yimou.  Marcas de luxo e designers chineses, como Yang Li ou a maravilhosa Shanghai Tang.



Fei Fei Sun, de Michael Kors e brincos de jade

 Mas com todo esse receio presente, caiu-se numa confusão ainda maior do que a costumeira neste tipo de eventos. Houve looks muito bonitos, mas podia ter sido bem melhor se as convidadas não sentissem tanto medo de errar. Ora vejamos:

Quem acertou:
Emily Ratajkowski (Topshop), Georgia May Jagger (Gucci), Emily Blunt (Prada) a lendária Gong Li (com uma abordagem clássica em Cavalli) Irina Shayk (Atelier Versace) Diana Agron (Tori Burch) Joan Smalls (Roberto Cavalli) Bee Shaffer (Alexander McQueen)

Anna Ewers optou pelos adornos de cabelo em forma de ramo de salgueiro; Bella Hadid; Karolina Kurkova; Kate Hudson (Michael Kors) Liya Kebede de e com Philip Lim; Lizzy Caplan (Donna Karan Atelier).

Sienna Miller (Thakoon) Wendi Murdoch (Oscar de la Renta) e Zendaya (Fausto Puglisi)


Lauren Santo Domingo (Proenza Schouler)

Quem não fez o trabalho de casa:
Karen Elson, como outras personalidades presentes, optou por um magnífico Dolce & Gabbana: o único problema é que o look teve mais inspiração bizantina do que chinesa (embora o toucado pudesse adaptar-se, com outro vestido). Já Lady Gaga (Balenciaga) deixa algum lugar a dúvidas: com o obi, a escolha de cores e as mangas totalmente largas, recorda mais uma oiran ou tayu (cortesã  japonesa) do que uma concubina do Imperador (que me parece ter sido a ideia aqui). 

Quem ao menos fez o esforço:


Alexa Chung (Erdem)
Jessica Hart (Valentino)

Lizzie Tisch

Amal Clooney (Margiela) o encarnado majestoso sempre dá o toque;  Justin Bieber (Balmain) Janelle Monae, Chloe Sevigny (J.W. Anderson) emma Roberts (na dúvida, usou seda verde e um dragão na clutch) Hailey Baldwin (Topshop) Naomi Campbell, com um Burberry em dévoré.

Quem exagerou e seja o que Deus quiser:


Grace Coddington com o mais simples e literal: um fato-pijama em seda
Sara Jessica Parker, com vestido H&M e acessórios Cindy Chao: um toucado menos espampanante e estaria belíssima; Solange Knowles, que levou demasiado a peito a inspiração nas porcelanas com este "vestido-jarrão" de Giles Deacon; Tabitha Simmons, também de Dolce & Gabbana,

Quem jogou pelo seguro e foi à ocidental e mais nada (ou seja, a maioria):


Cara Delevingne (Stella McCartney)


Jamie Bochert, Kate Beckingsale (Diane Von Furstenberg) Katy Perry (Moschino) Julianne Moore (Givenvchy Haute Couture) Caroline Trentini (Atelier Versace) Madonna (Moschino)


Quem, face a tanta baralhada, optou pela abordagem "vai nua que fazes um sucesso" ou "ir nua é menos ofensivo do que caricaturar a cultura dos outros" levando um naked dress a expor as abundâncias: 

Jennifer Lopez (Atelier Versace) Beyoncé (Givenchy) e Kim Kardashian ( Roberto Cavalli)


1 comment:

Lingua Afiada said...

Por momentos pensei que o tema fosse filmes de fantasia, como Alice no País das Maravilhas, Maléfica, O Capuchinho Vermelho, entre outros, já que os vestidos parecem saídos de um filme do Tim Burton ou de uma produção da Disney.
Até fiz uma pequena analogia.
http://a-lingua-afiada.blogspot.pt/2015/05/gala-met-2015.html

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