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Friday, May 29, 2015

O complexo Ana Bolena






Após ler este post  cá no blog e de ter estado a ver o filme "The other Boleyn Girl" uma leitora e amiga colocou-me esta questão, que dá que pensar:

"Se bem compreendi é a favor de uma posição mais tradicional das mulheres no jogo da conquista (eu preferia que não fosse um jogo, mas infelizmente muitas vezes é tratado como tal).

Mas hoje, após ter visto o filme "Duas Irmãs, um Rei" (que apesar de ser uma versão muito romantizada da dicotomia Bolena/Henrique VIII, prima pela oposição que deram às duas irmãs, Ana e Maria) fiquei com uma dúvida: até que ponto é que essa posição mais tradicional do papel feminino, ao invés de trazer homens com mais certeza do que querem e que lutam por quem lhes interessa, não poderá atrair meninos mimados que não sabem perder nem a feijões
?

Ana acaba por "enfeitiçar" o Rei mais do que Maria, precisamente porque não se lhe entrega de bandeja. Mostra que é uma mulher segura de si e leva Henrique VIII à exaustão que, como homem apreciador do género feminino que era, ainda ganhava mais ímpeto para não deixar escapar tal preciosidade. Fazia-lhe bem ao ego, pronto..

Contudo a mesma "segurança própria" que Ana transmitia acabou paradoxalmente por ser a sua perdição; porque após ter alcançado uma mulher tão inatingível, Henrique cansa-se depressa, tal qual uma criança que já conseguiu o brinquedo novo.

Até que ponto  o verdadeiro troféu não estará na mulher mais segura de si e não na que se oferece de bandeja? Será a adopção de uma postura oposta à que se assiste com frequência hoje em dia a solução para os dramas dos relacionamentos do "usa e deita fora"...ou na verdade não atrairá os verdadeiros predadores?
"


Ora aí está uma excelente pergunta! Vou tentar responder baseando-me tanto nos exemplos históricos, como no que tenho visto e ouvido de experiências em pleno século XXI.

Antes de mais, é escusado repetir que o livro/filme em causa é assumidamente fantasioso. Tem algumas perspectivas e momentos interessantes, mas inventa detalhes que nunca poderiam ter acontecido e inclui rumores da época como sendo a pura verdade. Acima de tudo, foca-se de facto na atitude de "femme fatale" de Ana (que foi real até certo ponto, embora, se ouvirmos os historiadores, não com as motivações apresentadas no filme) pintando-a como uma viborazinha insuportável, má até para a própria família. Aqui entre nós, eu própria fiquei aliviada quando a Ana de Natalie Portman foi despachada, Credo.


                                          

Sobre esse assunto, já falámos em posts como este. Sabemos hoje, graças a estudiosos isentos, que Ana não teria pensado em seduzir Henrique VIII de forma calculista, antes pelo contrário. Não direi que foi uma pobre vítima sem ambição alguma, como sustentam  historiadoras feministas, mas uma coisa é certa: não estava nos seus planos tornar-se amante do Rei e até este falar em divórcio, não é de crer que ser Rainha lhe passasse pela cabeça. Ana dançou conforme a música e apesar de ter um mau feio historicamente comprovado, será justo dizer que Henrique a venceu pelo cansaço e que ela  tentou tirar 
 o melhor partido possível de uma situação inevitável.

Sigamos a lógica: Ana tinha visto o mau exemplo da irmã: primeiro em França, onde teve vários casos amorosos e partilhou o leito real com Francisco I (que se referia à desmiolada Maria como " a égua inglesa" e "una grandissima ribalda, infame sopra tutte"" [uma grandessíssima galdéria, a mais infame de todas"]) e no regresso a Inglaterra, onde caiu rapidamente nos braços de Henrique VIII para ser posta de parte, como outras, pouco depois. 


Maria era uma rapariga demasiado sincera para seu próprio bem, e irreflectida; nota-se pelo casamento pouco vantajoso (embora feliz) que veio a fazer mais tarde, à revelia de todos, o que motivou que Ana se zangasse muito com ela e que os pais a deserdassem.

É natural que, sendo a mais ajuizada e inteligente das irmãs, Ana não quisesse o mesmo destino de Maria. O seu objectivo era, como o das raparigas do seu tempo e condição, fazer um bom casamento.

Apaixonou-se pelo filho do Conde de Northumberland, Henry Percy, que a adorava, e teriam casado se não fosse Henrique (provavelmente, já interessado em Ana) impedir o enlace com desculpas burocráticas.

   Feito isto- e sendo o Rei bem casado com a magnífica Catarina de Aragão sem perspectivas de conseguir um divórcio - seguiu-se um "namoro" de sete anos entre ele e Ana. 


Sabe-se que o sex appeal e inteligência da jovem Bolena  o encantaram e que a heróica resistência que ela lhe opôs lhe acicataram a paixão. Mas em boa verdade, Ana não podia fazer outra coisa: no momento em que cedesse, não só ele se desinteressaria logo (o que, dado que toda a gente falava no caso, a lançaria no ridículo) como ia complicar as hipóteses de fazer outro casamento honrado. A única chance seria exilar-se, mas podemos adivinhar que Henrique, ferido nos brios, não a deixaria partir sem represálias.

Quando finalmente Henrique ficou livre e coroou Ana,  viu-se defraudado não só pela falta de herdeiros (que pelos vistos, dizem hoje os especialistas em genética, seria mais "culpa" dele do que das suas mulheres) mas porque se tinha apaixonado por uma fantasia.

   Era um homem de birras, acentuadamente caprichoso mesmo dentro do seu género. Aliás, um dos meus pontos preferidos no filme, e verosímil, é quando a mãe de Ana, conhecendo o carácter voluntarioso da filha, a avisa " olhe que a arte de ser mulher é conseguir o que queremos deixando os homens acreditar que eles é que mandam!".


 Ora, Ana fez precisamente o contrário: confiava, como tudo indicara até ali, que Henrique a conhecia bem e que apreciava a sua personalidade forte. Esqueceu-se de que tudo o que encantava Henrique numa amante - o picante de ela o contrariar, a língua afiada, a forma indomável e inatingível de ser - não lhe dava jeito numa esposa. Ele era um homem generoso e fácil de levar quando lhe faziam as vontadinhas todas (Jane Seymor e Ana de Cleves provaram essa realidade) mas diabólico quando ofendido no orgulho


Nem Ana nem Henrique se deram realmente a conhecer antes de casar - ambos compraram a ideia romântica que tinham um do outro. E o resultado foi o desastre que se sabe.

Dito isto, voltemos à realidade do século XXI: felizmente, Henriques VIII há poucos; ou se existem homens com esse tipo de carácter, não haverá muitos com o mesmo tipo de poder material sobre a mulher que querem conquistar. A dinâmica actual é sobretudo no território das emoções.

Uma mulher com uma forma tradicional de estar (misteriosa, discreta, subtil e pouco disponível, que como se diz na gíria, "dê luta") vai, pela lógica, atrair pretendentes com uma atitude masculina tradicional, até porque - isso é certinho - afastará à partida homens ou rapazes que tenham uma personalidade mais "feminina", uma forma mais "moderna" e passiva de estar; esses 
desencorajam-se rapidamente; preferem as conquistas fáceis e as raparigas que tomam a iniciativa.

 E ainda bem que assim é, porque se faz uma filtragem prévia: uma rapariga muito feminina nunca se poderá entender com um "homem beta", que tem por norma uma perspectiva algo flexível das relações amorosas.



Todavia, é preciso ver que nenhum relacionamento é um romance histórico, por muito romântico que seja ver um homem com uma atitude dominante, a fazer tudo como manda a tradição e a cobrir a amada de atenções
  Um homem poderoso e dominante, emocional e materialmente, tentará ganhar terreno multiplicando as manifestações de apreço (presentes, mensagens apaixonadas, saídas luxuosas) mostrando que nunca se esforçou tanto por uma rapariga, o que a faz sentir-se lisonjeada e especial; por seu turno, ela vai manter o seu ascendente sendo meiga mas evasiva, o que o faz também sentir-se especial por conquistar uma fortaleza inexpugnável - exactamente como Ana e Henrique!

A grande questão aqui é que, para evitar desgostos, nem um homem pode depender só da sua imagem poderosa, nem uma mulher da sua beleza e aura de mistério. 


Acima de tudo, é preciso haver honestidade de parte a parte. Uma mulher tem de ter respeito por si mesma, como Ana, mas ser um bocadinho mais como Maria Bolena de vez em quando; não no sentido de facilitar a conquista em demasia, mas no aspecto de ser bondosa, sincera e um pouco espontânea. Não há mal em demonstrar que se gosta de alguém, quando essa pessoa se está claramente a esforçar  e já o deixou claro por sua vez. 

Por seu turno, cabe ao homem deixar espaço para a reflexão, afrouxar um pouco a "marcação cerrada" e não pressionar exageradamente, querendo de um momento para o outro inclui-la na sua vida (o que é bom, se for doseado) sem saber ao certo se a personalidade dela lhe convém e sem mostrar que  tem alma e defeitos como toda a gente. 

Convém que a mulher se apaixone por ele não pelo poder e confiança que exala, mas porque o acha atraente, e acima de tudo porque gosta daquilo que ele é por dentro. E convém que o homem veja não só a beleza do corpo, mas a da alma. Se Ana tivesse visto o homem e não o Rei, talvez tivesse fugido a tempo; se Henrique tivesse visto a mulher e não a sedutora, talvez continuasse casado com Catarina, que era de facto o tipo de esposa que lhe convinha: doce, paciente e calma.

Se não saírem dessa dança de domínio, se não se mostrarem tal como são, se houver sedução apenas e nenhuma amizade, nenhum respeito e consideração pelos sentimentos um do outro, um braço de ferro constante, então o relacionamento terá como base apenas a atracção, que nunca é um alicerce sólido. A mulher será de facto um troféu, o homem um tirano e a relação um tabuleiro de xadrez. O jogo da sedução tem a sua graça, é necessário, mas não basta para construir a felicidade a longo prazo.
















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