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Monday, May 4, 2015

Os tiranetes emocionais (o carisma não é tudo).


Já vos tinha contado que ando a acompanhar os especiais do Canal História sobre Hitler e a II Guerra: cada um analisando o cenário por  diferentes ângulos e com espectaculares imagens, algumas inéditas e a cores.

De todos, recomendo vivamente este programa produzido pela BBC com base em entrevistas realizadas ao longo dos últimos 20 anos a testemunhas de todos os lados  (vítimas, diplomatas, simpatizantes, civis, militares...)  na tentativa de esclarecer como foi possível que alguém tão vulgar como o menino Adolfo arrastasse milhões para o precipício. Um enviado da Coroa inglesa descreveu-o na perfeição: "não era um cavalheiro...tratava-se do cãozinho mais banal que imaginar se possa".

 Apesar de todas as condicionantes, a desgraça não teria sido grande se Hitler não fosse um líder carismático: a dizer o que o povo ansiava por ouvir,  iluminado de todas as certezas mirabolantes, muitíssimo cheio de si (nem sequer ouvia conselheiros para não comprometer o seu "brilhante raciocínio inspirado pela Providência") capaz de jogar com os ódios e frustrações do vulgo, de falar ao coração (ou à falta dele) de cada um e habilíssimo quer a deitar as culpas aos que o rodeavam (ou seja, em passar a ideia de que o Führer nunca tinha a culpa toda e de que se passava muita coisa que o Führer, coitadinho, nem sonhava...) quer a eliminar toda e qualquer oposição, mesmo entre os seus.


 Uma data de truques de guru de auto ajuda (olhar as pessoas nos olhos, apertar-lhes demoradamente a mão, etc) e um talento (genial, isso ninguém lhe tira) para a organização de eventos e para criar uma imagem majestosa (as paradas, os uniformes, as gritarias de Sieg Heil! etc) faziam o resto. Podemos pensar como o curso da História seria diferente se Herr Hitler, em vez de andar a planear uma destruição nunca vista, se ficasse por empregar os seus dotes artísticos para ser Herr Hitler, produtor de festas com grande cenografia inspirada nas óperas de Wagner, orçamentos grátis para noivas puramente germânicas dos quatro costados.

Mesmo os que acharam, a início, tudo aquilo uma patacoada perigosa de um revolucionário excêntrico acabaram por se convencer. Se ainda hoje as imagens impressionam, sabendo o que sabemos, é compreensível.

 O pormenor que achei mais interessante, porém, foi realçarem que o sucesso de um líder carismático depende de corresponder, em resultados, à imagem que cria para si. E isso foi a derrocada de Hitler. Prometer é fácil; dizer que os alemães eram o povo mais lindo, mais vigoroso, mais tudo à face da Terra também, porque é tudo uma questão de perspectiva e cada um crê no que lhe dá jeito. Usando a fórmula de Maquiavel, tudo isso era virtú: obra do próprio. O pior é que qualquer líder, mesmo este, tem de se ver com os ventos da Fortuna, que não estão na sua mão: neste caso, a pouca vontade dos Britânicos para lhe sofrer os desvarios e o terrível Inverno Russo, entre outros factores. 


E aí já a virtú lhe faltou - graças aos Céus - pois crente na sua invencibilidade, foi incapaz de dançar conforme a música. Continuou fiado numa vitória impossível e a usar precisamente os mesmos métodos. Pior - continuou a exigir fé e lealdade, independentemente dos resultados e da sua actuação.

Claro que o povo murmurou e começou a pôr em causa se, face a tanta desgraça e com os vermelhos à porta,  o líder não teria dado um passo maior do que a perna. E que fez ele? Mandou fuzilar quem se queixava, e não eram poucos,  por... "derrotismo".

Dali a pouco, foi o que se viu.

 Sem querer comparar o incomparável, sem querer hiperbolizar mas já hiperbolizando, há muita gente (e não necessariamente más pessoas) que faz um bocadinho como o Hitler. Ou antes: age como se fosse o Hitler e as pessoas próximas, o povo alemão. É super cativante quando faz por agradar. Depois julga que já tem tudo na mão e que, aja como agir, quem está à volta continuará preso do seu carisma, do seu apelo, não importa quais sejam os resultados ou as consequências. Se vê que não é assim, que nenhuma devoção é 100% incondicional e que a lealdade tem de ser bilateral (ou então não é lealdade, é escravatura e um pulinho para o abismo) espanta-se imenso, sente isso como traição, arma o fim do mundo porque quer palmas na mesma. Carisma não é tudo na vida, não há fascínio que sempre dure se não for acompanhado de uma dose de realidade, nem ninguém fica hipnotizado para sempre...



1 comment:

Urso Misha said...

O maior génio seria se calhar o Goebbels, a ver o programa e a maneira como tudo era teatralizado e os dias de hoje assustou-me um pouco, mas depois de lar Maquiavel o Príncipe e também tirar tantos paralelismos até arrepia que passe os anos que passar, o sentimento do homem pelo poder é uma coisa por demais...

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