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Saturday, May 23, 2015

Traditions - a propósito da relaxaria em Cannes




Ontem um texto que li recordou-me aquela canção do musical A Fiddler on the Roof, "Tradition".

Penso que as palavras do herói se aplicam a qualquer cultura, modo de vida ou época - e a vários aspectos da existência: todos somos como violinistas no telhado, tentando apanhar uma bela melodia sem cair. E como se mantém o equilíbrio? Através da tradição. Às vezes não sabemos como certas tradições começaram, mas por causa delas todos sabem o seu papel; cada um sabe o que é esperado de si.

Embora o mundo pule e avance e se mudem os tempos e as vontades (nem sempre para melhor) os procedimentos, os hábitos, os protocolos, as regras de conduta, de civilidade, de etiqueta, de vestuário, oferecem-nos um guião, uma moldura, expectativas e limites, linhas de orientação. Quem não sabe minimamente como proceder nunca estará confortável em lado nenhum.  Quando todos conheciam as regras, todos sabiam o seu papel, tudo encaixava sem grande esforço. Basta pensar que se  todos pusessem o próximo em primeiro lugar, como antigamente, tentando não causar incómodos, cada um de nós estaria sempre em primeiro lugar nas prioridades alheias e tudo funcionava como um relógio. Mas hoje, com o aligeirar dos bons costumes e o egoísmo que se instalou, é uma baralhada total.

 Esta semana houve grande polémica porque no festival de Cannes, algumas celebridades se sentiram indignadas pela "obrigatoriedade" de usar saltos altos na passadeira encarnada. Muitas bradaram mesmo "o que eu queria era vir de sapatilhas!" ou, mais disparatado ainda, "que regra machista! Por acaso os homens usam saltos altos?". A pressão foi tanta que a organização já veio desculpar-se, dizendo que nunca houve uma determinação exacta quanto à altura do calçado.



 Ora, vestido de cerimónia (ou mesmo cocktail) "pede" ou "recomenda" saltos altos - mesmo que não "exija" com todas as letras. Obviamente não têm de ser vertiginosos e poderão dispensar-se por questões de saúde ou mobilidade (eg: grávidas, senhoras com algum problema crónico ou que tenham sofrido um entorse ou intervenção mas não possam de todo faltar) havendo para essas situações sabrinas elegantes, por exemplo. Mas de preferência, usem-se - tal como as meias transparentes num casamento, mesmo de Verão. 

É apenas um detalhe no todo, porém, se não nos habituamos a reparar nos detalhes, deixamos gradualmente de prestar atenção ao essencial. 

Esta rebeldia gratuita, este desleixo, é mais um triste reflexo daquilo que se disse aqui recentemente: se uma cerimónia não tem um guião, não tem códigos, não tem regras, ninguém sabe a quantas anda. Vivemos numa época de descontracção, de informalidade, de facilidade, de rapidez, de vale tudo. O à vontade excessivo - de que o vestuário é só o exemplo mais visível- instalou-se em vários aspectos da vida, a começar pelos mais mundanos. E essa descida de padrões acaba por não ser divertida sequer. Há todo um sentido de ritual, uma antecipação, uma preparação alegre que se perde. 



Ao ser convidada para uma festa, uma mulher tem a responsabilidade de fazer obedecer (e se possível ou necessário, elevar) os padrões. De cada convidada se espera que contribua para a beleza do ambiente. Imaginemos que uma se esquece, que outra não sabe, que outra ainda recusa adequar-se ao dress code, e assim por diante...se todas assim procederem, de ano para ano, deixamos de ter um evento especial para ficar com uma coisa igual a todos os dias. E quando se fala de Cannes - uma das últimas mostras públicas de modas & elegâncias que vai mantendo o brilho de antigamente - mais grave se torna.

 Ou como diria a "Condessa" de Gencé, "a naturalidade, desafectação e a maleabilidade das regras  não significam o seu abandono".

  Já são tão poucas as ocasiões de usar algo especial sem parecer overdressed, que não se percebe esta birra, esta desobediência sem sentido. Todos os dias se podem usar ténis e saltos rasos, jeans e t-shirts. Porque não tirar partido dos dias extraordinários? E em última análise, ninguém é obrigada a passar pela passadeira encarnada, nem mesmo a assistir à estreia. Quem não quer, fica em casa ou pede para entrar pela porta dos fundos. O mais estranho é que muitas das que reclamam não se ralarão de usar saltos assassinos para ir à padaria...

 Pressionar a organização do festival via redes sociais para aligeirar o código de vestuário não é só ridículo: é um atentado à ordem, à tradição, a tudo o que faz de Cannes, Cannes.  E receio bem que tendo esta cedido a tal abuso, podemos dizer que a decadência é obrigatória. Daqui a nada, vai-se para os óscares de pantufas. Também é só o que falta: quando se vêem mini saias em baptizados, já nada me espanta.














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