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Thursday, June 25, 2015

A indispensável elegância nos elogios.


Mudam-se os tempos e muda-se o linguajar. Claro que para algumas pessoas e em certos círculos, continua a aplicar-se a máxima "não deixem morrer as palavras", mantendo-se o uso não só de determinadas expressões e pronúncias, mas da sua conotação antiga...o que tem como consequência um vocabulário mais rico, mas que pode soar exótico ou original a quem não está acostumado.

   A nossa época é marcada por uma grande informalidade, por vezes excessiva. Dizem os ingleses "a familiaridade gera a falta de respeito". Talvez não seja sempre assim, mas o "à vontade" que se instalou por toda a parte pode por vezes confundir certas pessoas quanto à "confiança" que lhes é permitida.

Em tempos idos, quando os códigos - de conduta, de linguagem, de vestuário - eram mais rígidos, toda a gente sabia como proceder. Hoje há uma certa indefinição, que obriga a uma delicadeza extra para adequar o discurso ao interlocutor - ou obrigaria, se todos fossem bem educados. 



 Não é que muita gente que falha nisso o faça por mal; simplesmente, não foi alertada para as nuances e as subtilezas, ou pensa que isso já não é importante. Afinal, é "uma coisa que toda a gente diz"; são modos e palavras que aparecem na televisão, que vêem nos jornais, que correm as redes sociais. Por exemplo, dizer "esta gaja", já não é propriamente um insulto. Quero dizer, para mim é. Até dito entre amigas acho feio. Para mais gente é. Mas para outras pessoas não será. E alguém pode dizê-lo insensivelmente, achando que não está a ser maldoso. Mas quem ouve e não gosta, é capaz de se sentir no direito de lhe recordar categoricamente que não andaram juntos na escola. Zás, mau estar.

 Isto também é verdade no campo dos elogios. Os elogios e os galanteios são assim uma coisa que vai mudando com os tempos e as modas. Sempre houve bons e maus elogios. Nos anos 50, a avó e as amigas sabiam que um rapaz que tentasse cativar uma menina bonita chamando-lhe uma coisa relacionada com pêssegos, era caso para nunca mais lhe olhar para a cara. Mas se lhe chamassem "boneca" estava tudo bem. Encantadora, bela, etc...eram a norma. Nos anos 70,  o "boneca" continuava entre os favoritos;  "jóia" ou era aceitável, mas "borracho" já não tanto. 


E agora? Alguns dos ditos atrás e outros vá que não vá. Mas convencionou-se, por exemplo, um rapaz cortejar a uma rapariga que mal conhece dizendo (blhec) "és muito sensual". E isto, entre os menos maus. Mas é feio, é baboso e só lembra aquela cantiga pimba. Sensual é um adjectivo que só faz sentido na descrição do estilo de escrita de um autor, na descrição de uma produção de moda, cinema ou televisão (por exemplo: "não queremos um ar andrógino; façam-na parecer sensual") ou entre duas pessoas que se conhecem muito bem, dito lá na sua privacidade.


Dirigido a quem se conhece mal, é um horror. É a premissa: o princípio é terrível. Os elogios de antigamente louvavam o superficial, o que estava à vista, mas como quem diz "a menina é tão linda por fora, gostaria de conhecer a sua personalidade". Até podia ser totalmente mentira, mas o propósito soava bem. Parecia honesto. O ideal era bom e já se sabe, o ideal estabelece os padrões de comportamento.

Mas com um "és tão sensual" (Credo) está tudo dito; a intenção está logo apresentada, e já se sabe que não é boa. "És tão sensual" poderá ser bem recebido por uma stripper - porque se ela não for sensual, suponho que não esteja a fazer um bom trabalho. Mas não por uma rapariga bem comportada, vestida com compostura, sem nada que se lhe aponte e a quem se pretende de facto conhecer melhor.

Por isso, se a interlocutora não parece fazer um certo género, não lho digam; não ganharão nada com isso e vão parecer mal educados. E se a querem de facto conhecer melhor, se acham que a jovem ou senhora em causa tem potencial para um relacionamento sério, evitem-no de todo, porque passarão pelo que não são...

Ir ao dicionário é sempre uma boa ideia, mas um elogio simples, sincero e respeitoso cai mil vezes melhor.

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