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Tuesday, June 9, 2015

As mulheres, os debates e Brízida Vaz.




Toda a vida ouvi "uma Senhora não desce a debates" e ainda bem que me educaram assim - a fazer mais por atalhar qualquer tendência para a "refilice", como lhe chamavam, do que a encorajá-la. "Uma pessoa para se defender não precisa de falar aos berros", "a palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro", "é muito feio uma menina responder a provocações" etc, etc. Acredito que muitas de vós tenham recebido máximas semelhantes.

Viesse eu de uma família contestatária, panfletária, muito interventiva...e seria a ovelha negra, uma proscrita, porque detesto verdadeiramente debater o que quer que seja.

   O debate, sobretudo o televisivo, serve muitas vezes apenas para que cada um se agarre com mais força às suas opiniões e convicções, boas ou más, mais na ânsia de ganhar para não ceder um feijão que seja, do que no amor a aprender alguma coisa com os outros. O ego interfere sempre e na ânsia de não sair derrotado, de não fazer "má figura" cada um se desunha tanto que é impossível haver alguma troca de ideias - quanto mais o espectador tirar alguma coisa dali. Poucas pessoas têm a modéstia e a serenidade necessária para sair de um debate sãs e salvas: com a dignidade intacta, sem ter os seus princípios abalados e ao mesmo tempo, tendo trocado algum conhecimento com os companheiros de mesa. Não porque os argumentos do adversário sejam melhores, mas porque amiúde ganha quem fala mais alto, quem está disposto a fazer mais figura de urso. É muito difícil, hoje em dia, manter-se numa discussão de forma civilizada (quanto mais levar a melhor) quando todos se interrompem, se descabelam e falam aos berros. 



 Se estamos muito certos da nossa perspectiva, é inútil expô-la num cenário desses, perante quem está do contra (não consigo recordar-me qual foi o grande Santo que disse algo como "não debatas, não vás tu ser vencido e sair pior do que lá entraste").

 A não ser que de convencer alguém dependa algo vital para uma causa, ou para a nossa existência, debater é estéril. Até porque - como qualquer elementar altercação de rua - mesmo a discussão mais relevante muitas vezes termina em desacato, vulgo peixeirada. Entre a política e as sardinhas da Joaquina Peixeira, pouca diferença há...logo, o debate é mais do que tudo, um circo. Quem assiste, vê-o com a curiosidade popular de quem pasma para dois ébrios à pancada.

  Por isso, a Barca do Inferno era programa que eu, pouco amiga de televisão, nunca seguiria. O pouco a que assisti foi o que no ano passado correu as redes sociais, quando uma das intervenientes foi maltratada pelas outras (típicas mulheres que fazem gala da sua "inteligência", achando que é aos gritos que a demonstram) e hoje, com a saída em directo de Manuela Moura Guedes.



Muito já foi dito por aqui acerca da postura de muitas mulheres na política: a maioria esquece a máxima de Margaret Thatcher, sumidade na matéria, que jurava "ser poderosa é como ser uma Senhora - quem o é, não precisa de se gabar disso". Julgando que precisam de falar alto para se fazer respeitar, adoptam um "ar de comando": vozes de cana rachada, gestos exagerados, modos de Hitler, todo um aparato descomposto e chinfrim que contribui para que os homens digam "uma mulher não sabe mandar".

Serenidade, compostura, elegância, viste-as. Se os homens já fazem figuras tristes quando discutem, em mulheres parece muito pior.

Ora Manuela Moura Guedes, que é quem é e se expressa como sabemos, sempre me pareceu um anjinho ao pé do resto do painel, para não mencionar o facto de ser (corrijam-me se estou enganada) a única que não representava abertamente uma certa agenda política. 


Brízida Vaz- (imagem via)

Sendo ex-directora de informação, ex pivot de telejornal (considere-se ou não ética a forma opinativa como apresentava as notícias in illo tempore) era de esperar que moderasse o debate em vez de participar nele

Mas não. Parece que as mulheres - por culpa delas que se prestam a isso, nota bene - são tão pouco levadas a sério que não podem debater numa mesa redonda como outra qualquer. Foi preciso criar um programa em que as mulheres "debatam coisas sérias". Ou para usar um termo que eu detesto, "um programa de g*jas a falar de coisas sérias, olhem que admiração".  Melhor ainda, que para moderar uma data de mulheres a discutir qual hienas, não podia estar outra mulher. Elas serão tão incapazes de se comportar que tem de ser um homem - um humorista, ainda por cima - a impor respeito? Ou a tentar pô-las na ordem, salvo seja. Não sei se aponte o insulto, o paradoxo ou o óbvio, já que os resultados falam por si, bem alto. 

Manuela Moura Guedes saiu porque a discussão subiu de tom - boa decisão - mas nenhuma Senhora que se prezasse se sentaria de boa vontade em tal conciábulo para começar.

Parece que quanto mais independentes querem ser, mais infantis se tornam. O próprio nome, "Barca do Inferno" remete para Brízida Vaz, a alcoviteira. Ou ninguém reparou nesse "detalhezinho"?

Todo o formato parece inventado no firme propósito de confirmar um estereótipo; ou se calhar, de lembrar o responso das nossas avós: uma senhora não se baixa a discutir, nem desce a debates.








1 comment:

C. N. Gil said...

Não costumo ver este tipo de programas.

A minha opinião sobre eles pode ser decalcada desta passagem de um livro meu, que, embora fosse acerca de um assunto específico, retrata o que eu acho na generalidade:

"Basicamente, este debate não passa de chuva no molhado. Não são apresentados culpados. Não são apresentadas ideias. A verdade é que ninguém aqui sabe quem são os culpados e ninguém aqui tem a mínima ideia do que fazer a seguir. Os partidos da oposição apenas tentam retirar dividendos políticos de uma situação que merecia mais respeito que isso. Os partidos do governo defendem-se dizendo que a culpa está no passado. Claro que no meio de tudo isto estão as pessoas com as vidas devastadas. Mas esses como sempre, só são importantes na altura das sondagens"

A mesma coisa com os comentadores políticos que aparecem nos diversos canais. É tão mais fácil ter um gajo na televisão que tem opiniões por nós...
...muito mais fácil do que pensarmos pela nossa cabeça para desenvolver uma opinião pessoal...

Quanto ao que se passou na barca do inferno, e embora eu não simpatize por aí além com a protagonista, acho que foi um pingo de dignidade no meio de algo que mais parecia uma discussão de varinas...

:)

:)

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