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Tuesday, June 23, 2015

Bocage dixit: a estroinice é má conselheira. E a Natureza, às vezes, também.


O nosso poeta, famoso pela existência boémia e desvairada, "desordenada nos costumes" (de que os seus escritos nos deixaram uma ideia, e que lhe trouxe bastantes complicações) aprendeu - à sua custa, como é habitual - que isso de viver segundo os apetites e os impulsos tem o seu preço. 

Isso de viver à lei da natureza, que resultava tão bem em teoria e poesia, a rebeldia contra a "corrupção da sociedade" traduziu-se - como acontece quase sempre -  numa corrupção pior. A da saúde, a da alma, a dos relacionamentos verdadeiros. Afinal, se praticar o hedonismo fosse saudável e possível, há muito que a civilização o teria adoptado. Nem tudo o que sabe bem regradamente, dá bom resultado em excesso.

 Mas cada homem (ou cada mulher) que escolhe viver assim, muito livre, muito moderno, achando-se imortal, não considerando o amanhã...julga sempre que nunca ninguém o fez antes! Esquece que já está tudo inventado e que se foram criadas regras e tradições, por algum motivo foi; nem o novo é sempre novo, nem- quando o é realmente - se prova necessariamente melhor do que os usos testados e aprovados por séculos de tentativa e erro...


  Pessoas como o Bocage defendem o amor livre, o amor natural - fingindo ignorar que o ciúme e o desejo de segurança são igualmente naturais e instintivos, e que a sociedade, a Lei, a Religião, instituíram a monogamia precisamente a contar com isso. Outros revoltam-se contra o pudor, a moral, a ordem, a Fé, defendendo em tudo o vício, como que a desculpar a sua própria fraqueza...fazendo por ignorar que deste mundo nada se leva e que o ser humano, sendo dotado de alma, aspira a mais do que às alegrias imediatas e efémeras.

 E assim há tantos que desperdiçam os seus talentos, que deitam a perder o património de família, que trocam um grande amor pela ilusão de uma série de rostos que não deixam marca alguma, que fazem sofrer as pessoas que verdadeiramente os amam em benefício de outras indignas de lhes descalçar as sandálias- e que só ficam por perto nos bons momentos, claro.

Bocage, façamos-lhe justiça, era tão talentoso como azarado; muitas das suas aventuras foram uma reacção aos desgostos e desgraças que lhe sucederam sem culpa sua. E no fim da vida - cansado, desiludido, solitário, consumido por tantos excessos - o poeta procurou a redenção, como todos os rebeldes. A sua conclusão? Não soubera viver, e era tarde demais. Como tantos homens que acham "natural" proceder à moda dos bons selvagens pela vida fora...


Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.










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