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Saturday, June 27, 2015

Bondade é (e deve ser) elegância


Sobre a ideia, já debatida por aqui, de a bondade estar fora de moda e não ser muito apelativa: 

"Não esqueçamos o advérbio de S. Boaventura quando diz que o bem se deve fazer elegantemente (...). S. Francisco, na sua pobreza, permanece sempre um gentil-homem. O bem, na sua excelência intrínseca, nem por isso despreza a veste exterior digna. E contudo, por não sabermos envolver em capa atraente as obras boas, a dedicação ao semelhante, a seriedade da nossa conduta, acontece o bem ser pouco apreciado, menos prezado e até evitado como uma pedantice insuportável, enquanto o mal, vestindo-se de elegância tecida de seduções refinadas, quase hipnotiza"

         Maria Sticco (professora da Universidade Católica de Milão) ,1943

É verdade que por vezes, à conta de a verdadeira força ser discreta, se cai um pouco no mito "evil is cool". Isto é amplamente repetido na cultura pop, em que quase sempre o vilão é mais sedutor do que o herói e a menina boazinha é uma chata de galochas, pelo menos se comparada com a má da fita que se apresenta com sofisticada elegância.

 Mas na vida real, detestaríamos conviver com tais personagens - podíamos admirar a sua confiança à prova de bala, as suas tiradas espirituosas, a estratégia mefistofélica e as belas toilettes, mas ao fim de algum tempo íamos ter vontade de os trancar num sítio recôndito e deitar fora a chave. Quanto mais não seja, os maus, quando não são inventados pela pena cuidadosa de um autor, revestem-se quase sempre de uma certa dose de estupidez...e de baixeza. A maldade acaba por desfear e ridicularizar. Isto para não falar na tibieza, já que pouca gente tem a coragem de ser abertamente cruel e cai numa mistura híbrida, dissimulada, que ainda é pior...

É muito difícil ser-se mau e permanecer elegante. Há sempre algo que falha. 

 Por outro lado, para se cultivar a bondade não é preciso perder o espírito acutilante, a beleza no porte e no traje (ainda que isto se faça na maior simplicidade) ter uma vida trágica, transformar-se numa caricatura nem ser um perfeito palerma, pronto a deixar-se fazer de parvo por toda a gente. 

Importa mostrar exemplos de bondade e nobreza que sejam apelativos aos olhos. Deixar de relativizar a maldade, porque ela existe mesmo.  E fazer perder a ideia de que só o mal triunfa, porque "o mundo é dos espertos". Até pode ganhar uma batalha por outra na sua ambição desmedida, mas nunca ou raramente possuirá elegância. Ou nobreza interior. E sem isso, aplica-se invariavelmente o adágio "podemos tirar a pessoa da barraca, mas jamais a barraca da pessoa"...

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