Recomenda-se:

Netscope

Monday, June 29, 2015

Bovarismo: um achaque que as mulheres têm de combater


O "bovarismo" - termo introduzido em finais do século XIX por Jules de Gaultier - refere-se a uma certa condição psicológica semelhante à mitomania, que faz as pessoas comportarem-se como a tonta personagem de Flaubert. Não necessariamente enganando a cara metade, atenção, mas sendo ocas e megalómanas como ela.

Eu gostei de Madame Bovary - o livro é tão bom, tão bom que me deu vontade de bater na protagonista. Quando Eça de Queiroz escreveu O primo Basílio
diz-se que foi influenciado por Flaubert; mas sempre achei que a maior se influência limitou à ideia da mulher tonta, ociosa e adúltera que é castigada no fim. Senti que as personagens sofrem do mesmo mal, mas são duas mulheres totalmente diferentes e que embora tendo o mesmo mote, ambos os romances têm um ambiente muito diverso. 
 Primeiro, porque o retrato social em O primo Basílio é muito mais amplo e completo, quase com vários núcleos de personagens; poder-se-iam fazer spin offs com a Juliana, o Visconde Reinaldo ou a Tia Vitória e ter pano para mangas; segundo, porque é um romance muito mais vivo e com uma série de comic reliefs (a meu ver, superior para não dizer mais agradável de ler, mas deixo isso para os especialistas). E terceiro...porque se a Luizinha não é um prodígio de sensatez (além de ingénua, tem mau feitio e é um bocado malcriada; sempre me fez confusão que nem "não, obrigada" dizia às pobres criadas; era não e pronto, fora o resto) Emma é um verdadeiro cepo.



Aqui há tempos, como vos disse, sentei-me a reler Madame Bovary mesmo a sério e senhoras, que raiva! Que mulher estúpida, frívola, egoísta, sem dignidade, cheia de si! Luiza tem ao menos a desculpa de estar sossegada em casa e vir Basílio, um antigo namorado, desinquietá-la; a má influência de Leopoldina também não ajuda. Não tem ainda filhos que a ocupem; estima o marido e apesar de sonhar com uma vida mais glamourosa, não está de todo descontente nem é uma má gestora do lar. O adultério acaba por acontecer em modo a ocasião faz o ladrão, por uma certa ingenuidade.

Já Emma tem uma maldadezinha mais consciente; não casa obrigada, mas detesta injustamente o pobre marido que lhe faz todas as vontades (ele também merecia chicote por ser um verdadeiro palerma, assinale-se); 
considera-se superior a ele em tudo; não tendo grandes predicados que a recomendem, acha-se merecedora das maiores glórias e prestígio social; não precisa que os amantes a requestem, ela própria trata disso e procede como uma verdadeira mulher da luta. 


 É mãe, mas não quer saber da criança para nada; endivida-se não só por vaidade, mas numa tentativa histérica e desesperada de conservar os homens com quem se envolve; e até quando é convidada para um baile de boa sociedade - vida a que se acha com direito por puro sense of entitlement - faz uma triste figura. É incapaz de se comportar de acordo e ainda acha muito injusto não voltar a ser convidada. Em resumo, Madame Bovary precisava de uma vassoura na mão de manhã à noite (já que não sabia fazer mais nada) e de um homem capaz de lhe pôr juízo. À falta de uma coisa e de outra, desgraça-se.

  Porém, desenganemo-nos: o bovarismo não ficou no sec. XIX, soterrado pelas ocupações da mulher moderna, independente, com uma vida fora das portas de casa: em pleno sec. XXI muitas jovens e senhoras sofrem da "ilusão da experiência", como dizia Joseph Duhr, "julgando-se por isso superiores às das gerações passadas". "Ilusão de solidez e de força, de experiência e prudência, são o alimento de uma presunção à qual a natureza, mesmo bem guiada, é excessivamente impelida. O espírito romântico compraz-se no sentimento, na emoção; um bovarismo sem consistência toma o lugar da prática das virtudes".

 Se pensarmos nas mulheres que conhecemos - mesmo com carreiras, com ambições intelectuais (e às vezes, essas são as piores) e/ou casadas e mães - quantas não sofrem de bovarismo? De um bovarismo suportado pelos próprios homens, pela sociedade e pelos média, atenção. 


A Bovary dos nossos dias é pior do que a original, mesmo quando não comete adultério, porque desenvolve o bovarismo mesmo tendo, ao contrário de Luiza e Emma, mais que fazer. A sua educação, diferente de uma Luiza de Brito ou de uma Emma Bovary, não se ficou pela música, pelos bordados, pelas línguas - mas preparando-a para o mundo lá fora (que não mudou tanto como parece)  descuidou completamente o equilíbrio interior. Resultado: esta Bovary é pior porque se julga mais esperta, mais preparada, imune a tudo e mais capaz de se defender. É tão arrogante e ingénua como a outra, mas achando-se "poderosa" e "lutadora".

 Para começar nega, com a ilusão da total igualdade psicológica, a existência de características femininas como a sensibilidade e o pudor. Julga-se (ou sente-se na obrigação de ser) tão desinibida como uma cortesã só porque devorou todos os complicados conselhos de alcova das revistas. E às vezes a realidade é bem diferente, quanto mais não seja porque não se pode grande coisa contra a inerente reserva feminina (seja ela cultural ou biológica) que necessita de certas condições para se deixar cair e porque os próprios homens, esperando que a mulher seja totalmente desembaraçada, não sabem como se comportar nem são capazes de guiar a dança. Muitas tratam o marido com mais desprezo que Emma Bovary, se possível...achando que elas é que sabem tudo e dispõem de tudo. Idealizam qualquer relação antes do seu começo. Depois, ai Jesus - é divãs de especialistas, queixas de íntimas incompatibilidades, quando os casamentos não falham mesmo por não corresponderem ao ideal.



Outras, julgando-se muito modernas, querem ter casos de uma noite, ligações casuais e fugazes - mas ficam frustradíssimas no seu romantismo e vaidade quando são tratadas de acordo com esse estatuto na manhã seguinte. Poucas serão as que não sonham que as achem tão lindas, tão irresistíveis que as peçam em casamento logo ao pequeno almoço. E depois choram, coroa máxima da sua tolice!


 Não esqueçamos as que - tão espertas, tão cultas - perdem imediatamente a cabeça mal estranhos lhes dirigem elogios baratos ou frases xaropentas românticas nas redes sociais. Ou que, assim que terminam um relacionamento (ou casamento, mesmo) se banalizam em "girls nights" bastante vulgares, com comportamentos impróprios para a sua idade e estatuto, com medo de ficar sozinhas ou para - vulgaridade das vulgaridades - "mostrar ao ex o que ele está a perder".

 E já que falámos de leituras, que dizer dos livros? Nem Luiza nem Emma se divertiam a ler romances light cheios de palavrões, nem coisas do estilo As 50 Sombras como muitas psicólogas, advogadas e jornalistas que se ufanam muito da sua instrução, cultura e independência! E quando a isso se mistura a vaidade intelectual, pior se torna...


Tudo isto sem mencionar as que de facto se "portam mal" como a Bovary e a Luiza...

 O bovarismo não afecta só as mulheres, atenção - transcende sexo, época, idade e estatuto social. Mas não deixa de ser um mal muito feminino. Ou que ataca muito no feminino, já que "vaidade, teu nome é mulher". 

O grande problema é que apesar de tudo, no século XIX as mulheres tinham mais atenuantes para a tonteria e horizontes menos largos que as de hoje. Actualmente, algumas parecem ter varrido para debaixo do tapete a ideia "com o poder, vem a responsabilidade". E esquecido que a temperança, a dignidade e a classe são o único santo remédio contra isso, além de caberem em toda a parte.






1 comment:

Padrinhos civis said...

Olá Sissi! Acabei de ler o seu email e vim ler o post. Não o tinha lido, de facto, deve ter sido publicado pouco antes de eu ter começado a ler o blogue regularmente. Que boa teoria! Obrigada por me ter reconciliado com o Eça - faz sentido, sim, que ele não buscasse a originalidade, mas o mote.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...