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Thursday, June 18, 2015

Comédias românticas x vida real.


Costumo dizer "não ia ao cinema ver uma comédia romântica nem que me pagassem mas para relaxar no sofá, não há melhor". Em especial se tiverem boa fotografia,  paisagens e roupas bonitas, para uma pessoa desligar o raciocínio. Curiosamente conheço rapazes que dizem o mesmo, o que me faz pensar se terei uma abordagem menos tipicamente feminina dos chick flicks. Se houver mais mulheres com a mesma opinião, e creio que há, é um pouco injusto chamar a tais filmes "enredos de saias". 

  Se de facto muitas mulheres adoram comédias românticas, se são minimamente influenciadas por elas, se ir ver uma comédia romântica é o programa ideal de primeiro encontro para muitas meninas e senhoras, ...isso é capaz de ser mau, porque poucas transmitem algo de válido - para não falar daquelas mais recentes em que a mulher é premiada por se portar mal (como Pretty Woman, Bridget Jones ou esta mais recente que me irritou bastante). Mais ou menos bem escritos, estes folhetins são como as gomas e as pastilhas elásticas: cumprem a sua função, distraem, mas só isso.


 No entanto, analisemos os elementos da mais banal  comédia romântica, aquela feita a pensar nos problemas e aspirações da maior parte das raparigas: quase sempre a heroína tem um azar qualquer ao amor - amiúde acompanhado do mesmo na carreira. 

Regra geral, o pontapé de saída para a história é a protagonista ser desiludida pelo noivo/namorado/marido (traída, abandonada no altar, posta na "prateleira" ou outra opção igualmente desagradável) e como uma pouca sorte nunca vem só, tem um patrão horrível que a despede ou coisa assim. Se a protagonista for rica, perde tudo o que tinha e tem de recomeçar do zero. A pobre coitada fica no fundo do poço, o que só não é totalmente trágico porque os argumentistas tratam de lhe inventar uma série de desaires cómicos, como se os planetas estivessem todos contra ela. Nas comédias românticas não se fala no Zodíaco, pelo menos que me lembre, mas a julgar pela quantidade e velocidade dos acontecimentos, parece que a protagonista está sempre a atravessar um trânsito astrológico estranho (não que eu creia lá muito nisso, mas tem de haver uma explicação).



 Então a menina faz um esforço para sair da depressão e do buraco - ou acontece ainda OUTRA mudança que parece terrível mas vai-se a ver, não é, que a obriga a mexer-se: viaja para algum lado, aparece-lhe um trabalho aparentemente detestável ou um rapaz esquisito que está sempre a tropeçar nela,etc. E pronto, a heroína lá começa a sua jornada New Age de crescimento. O que parece querer demonstrar que basta uma mudança de cenário para que a vida das pessoas se altere também (o que nem sempre é verdade). 

Mais uma vez, os acontecimentos movem-se a uma velocidade só explicável por, sei lá, Mercúrio a toda a brida ou intervenção da Fada Madrinha e - quase sempre no espaço de um ano mais coisa menos coisa, conforme indicam as legendas - resolve-se tudo. E não me venham com a desculpa "é um filme, não podia durar muito" porque as legendas podiam sempre indicar "dois anos depois" mas não.

 É tudo ultra rápido, e, apesar das peripécias, super fácil. Como nos livros da Anita (o que me faz pensar que passar a infância a ler livros da Anita e a juventude a ver comédias românticas não é lá muito saudável).



Adiante. A menina supera as suas inseguranças e dúvidas interiores, descobre o seu propósito de vida e a carreira perfeita (sempre com uma exposição/livro/formatura/projecto de sucesso a ser comemorado com todas as personagens num cenário todo catita) corrige todas as injustiças na sua vida e invariavelmente, o noivo parvo volta arrependido.

 Então, das duas uma: ou é rejeitado e castigado de forma cómica (caindo ao lago que estava enfeitado para a festa ou coisa que o valha) e a rapariga fica com o bom rapaz que apareceu para salvar o dia ao longo do enredo, ou vai-se a ver e foi tudo um mal entendido, fazem as pazes e zás, final feliz. O karma funciona sempre como um relógio nestas estórias e a fórmula é  sensivelmente esta: tal como um hamburguer do McDonald´s, não tem surpresas mas consome-se bem por isso mesmo. 

E atenção, nada contra um pouco de romantismo e "magia" na vida real, até porque tudo isso existe: muitas vezes a realidade ultrapassa a ficção. A rapariga que nunca viveu momentos que parecem tirados de um filme ou de um livro talvez deva aplicar a  fórmula das comédias românticas, mudar urgentemente alguma coisa na sua existência maçadora, porque algo está errado. Por exemplo, tive uma professora linda de morrer, bem sucedida, super amorosa, que foi abandonada literalmente no altar e que depois encontrou um noivo bem melhor. True story. E conheço outros casos mais mirabolantes...mas calma.

  As comédias românticas têm, primeiro, o defeito de não terem nada de sobrenatural, ou quase nada: ao contrário dos contos de fadas são perigosamente comuns, muito parecidas com a realidade, de modo a que as espectadoras se identifiquem com isso - o que pode causar, ainda que inconscientemente, uma certa frustração quando tudo não encaixa tão perfeitamente como nas telas. Ninguém leva um conto de fadas muito a sério, mas uma comédia romântica é um bocadinho mais plausível.

Depois, os chick flicks sugerem, na maioria, três ideias perturbadoras: 

- 1º, o que está errado na vida da heroína é sempre culpa de alguma insegurança/complexo/desconfiança/falta de desenvolvimento interior; 

- 2º, basta abanar um pouco os acontecimentos que tudo se resolve;

-  3º,  a justiça poética é sempre servida e as recompensas aparecem invariavelmente à velocidade da luz.

A realidade nem sempre é tão linear. Coisas desagradáveis acontecem a todas as pessoas, mesmo às melhores e mais seguras de si; não é preciso ser "uma mulher que deixou de acreditar no amor" um "patinho feio", "uma rapariga que era má no liceu mas decidiu ser boazinha" ou "uma loura tonta que descobre o seu potencial". Por vezes os desastres sucedem às mulheres mais "resolvidas" e sair deles não depende de nenhum truque mental. Como dizem os americanos, porcarias acontecem.

 Depois, o remédio não reside necessariamente nas mudanças. Ver as coisas por outra perspectiva, estar noutro cenário, tentar algo que nunca se fez pode distrair, pode ajudar, pode atirar dados novos para a equação ou conduzir a  uma realidade ou fase diferente, mas nem sempre. Por vezes as novidades que surgem nesse processo são transitórias e sem grande significado para o futuro. 

A rapariga pode não alcançar a iluminação: às vezes nem lhe faz falta. Até está a fazer tudo bem, simplesmente são fases e precisa de lutar sem nenhuma arma nova. Nem sempre o homem perfeito ou o sucesso absoluto aparecem no momento em que isso dava um jeito enorme, ou se aparecem, por vezes o final feliz não se conclui logo. A heroína pode ter de fazer frente às situações com um final que ainda é um work in progress - e dar a volta por cima mesmo assim.

E por fim, nem sempre o mau rapaz ou o vilão é castigado de forma divertida e a boa rapariga recompensada pelos céus com perfeita justiça poética na hora exacta. Acontece- já vi acontecer - mas não há uma regra. O que não é necessariamente pior, nem melhor. 

É como dizem: a diferença entre a realidade e a ficção é que a ficção faz sempre perfeito sentido.

  A vida, por muita magia que tenha, é sempre cheia de infinitas subtilezas que o cinema jamais conseguirá captar...



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