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Friday, June 12, 2015

De tirar uma mulher do sério: as férias grandes e a boa educação



Quando eu era pequena, tinha um ritual com os meus primos mal chegavam as férias grandes: ir para um sítio alto, abrir os braços e berrar "FÉEEERIAS!!!!!". 

Depois (do 5º ano em diante) antes de passarmos a gozar a liberdade como uns perfeitos índios, entretinhamo-nos a preencher o que ficara em branco da Caderneta do Aluno com todo o tipo de justificações mirabolantes para faltar às aulas, em vez de a deitar simplesmente fora. Sentíamos uma alegria perversa em escrever coisas como "não fui porque não me apeteceu", "tive nojo de ir à escola", "fiquei a brincar", "os extra-terrestres raptaram-me", etc. E claro, na nossa ingenuidade infantil, fantasiávamos com o bendito dia em que "nunca mais precisaríamos de ir à escola".

  Por muito que uma criança goste de aprender (e eu era bastante curiosa e boa aluna *quando queria*, mas nem sempre gostava dos manuais nem dos programas) rebelar-se contra o ensino formal é um privilégio, um costume, quase uma tradição da infância. Em caso de cenário apocalíptico, estilo Mad Max ou The Walking Dead, creio que só a pequenada ficaria satisfeita -ao início, pelo menos - porque não havia aulas para ninguém. 

Que atire a primeira pedra quem nunca desejou (como o Calvin ou o Filipe da Mafalda) que a escola desabasse. Quem disser o contrário está a ser fariseu.



Confesso que já dei muitas graças aos céus por não ter nascido, sei lá, Budista: detesto a ideia de reencarnação, e um dos motivos é por achar uma coisa terrível ser de novo bebé, passar pela creche, pelo infantário...e por anos e anos de escola. 

A ideia - até o nome - de FÉRIAS GRANDES encerrava, além da promessa de um tempo de brincadeira que parecia infinito, a possibilidade de uma catarse temporária. Salvava-nos a rebeldia e espírito crítico inato, que actualmente parecem querer amolecer a todo o custo.

É um paradoxo do esprit du siècle: por um lado indisciplina, infantilização nos conteúdos, uma educação totalmente piegas que faria Afonso da Maia desejar o regresso da doutrina e do latim, tolerância a toda a má criação, liberdade para ver maus programas, ritalina (que raio de nome para um remédio; parece nome de solteirona do Jorge Amado) em vez de respeito, incentivos à precocidade e atrevimento em vez de lhes salvaguardar a inocência, palmadinhas nas costas em lugar de uns açoites taludos na hora certa, uma babujice e adulação com as crianças que deixaria invejoso o menino Calígula (que apesar de ser adorado pelo povo, passou maus bocados em pequeno). 



  Por outro, uma pressão desgraçada para aprender não sei quantas línguas (menos a escrever bem a nossa) para darem em génios da informática, para serem crianças índigo palerminhas que enfardam lanches biológicos, passam o tempo livre a dizer disparates nas redes sociais, sem um "feriado" (trocado por esse horror das "aulas de substituição") e com horas intermináveis encafifados na escola, fora os TPC cada vez mais rigorosos.

E olhem que eu fui criada na velha guarda, vulgo "de pequenino se torce o pepino" e não fui propriamente uma criança escola-casa: tive ballet, o Instituto Alemão, equitação, etc, etc. Mas nada se compara à obsessão de hoje por *mal*criar super crianças.

 Ora, parece que os arautos das modernices e do politicamente correcto, super burguesinhos, super new age - e os pobres pais que alinham por essa cartilha - se lembraram de dizer que os alunos deviam ter apenas um mês de férias no Verão. Aliás, isto é apenas alargarem-se mais um bocadinho, porque todos os Verões é o mesmo dilema: pais de orçamento apertado a perguntar desesperados "onde é que eu vou deixar os meus filhos?".



Como se a escola, além de instruir, tivesse o dever de educar e de ser ama seca. 

Mas a culpa não é só da estranha cultura que se instalou. Não podemos deixar de lhes dar uma certa razão, até porque nem todos os pais se demitem de educar a sua prole: alguns simplesmente não têm alternativa, a não ser que subscrevam a cruel máxima "quem não tem recursos, não se ponha a ter filhos".

Com um cenário de mais incentivos ao aborto do que apoios à família; com as avós a trabalhar até cada vez mais tarde, sem tempo para a nobre arte de ser avó; o avô a adiar cada vez mais a reforma; a família alargada, idem (bons tempos em que havia sempre tias que ficavam em casa) e pais com salários dos mais baixos da Europa (o que obriga a uma das maiores taxas de empregabilidade feminina mas não deixa sobrar muito para pagar a amas) só uma parcela muito específica da população pode contar com uma estrutura mais à moda antiga. Ou seja, uma dinâmica familiar que permita às crianças serem crianças. 

 E depois vêem-se cenas de bradar aos céus - de miúdos stressados  a desancar e descarregar nos colegas feitos selvagens a pequenos e adolescentes para quem levantar-se no autocarro para dar lugar a uma freira ou uma velhinha é um conceito totalmente alienígena. É que a escola não pode ensinar tudo, nem se compara à figura da preceptora...




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