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Tuesday, June 23, 2015

Eu embirro com...a letra dos "Óculos de sol"


A canção é engraçadinha, marcou uma época, quando a ouço até imagino aqueles bikinis muito giros dos anos 1960...( "Óculos de Sol" fez sucesso em 1968 e tanto quanto sei foi uma one hit wonder...) mas a letra, a letra é que eu não aguento. E como o Verão já chegou, receio bem que vá ter de a ouvir outra vez por aí...

Senão, reparem: a história até começa muito bem. A menina Natércia Barreto (que não sei se compôs a cantiga ou só lhe deu voz, esclareçam-me por favor se estiveram mais informados) está a preparar-se para ir à praia. Já tem o kit de maquilhagem, o bikini encarnado e "um creme muito bom para se bronzear" (na altura ainda não se falava muito nos malefícios do sol e só no final da década apareceram os primeiros protectores solares, mas espero que o da cantiga já fosse desses, porque a cantora era branquinha e lourinha). 

 Também leva o rádio portátil, porque em 1968 não existiam androids e IPhones para distrair as pessoas de todo o contacto humano. Só não se percebe se vai sozinha - onde estão as amigas da Natércia? Principalmente considerando que a pobre coitada vai fazer o disparate de ir à mesma praia onde o ex se pavoneia com a nova serigaita que arranjou. 




Pimba, primeira dúvida: a Natércia não tem amigas, afastou-as todas durante o namoro com o malandro e agora não lhe resta nenhuma (má ideia - isso nunca se faz) ou as amigas da Naná (para não escrever de novo Natércia) são tão tontas como ela e não a impedem de fazer uma asneira tão grande? Pior ainda, se tem amigas, são tão más e egoístas que não prescindem de ir à praia para afastar a coitadinha de tal mau encontro?

 Qualquer amiga verdadeira e sensata diria "não, Naná, não vamos à praia para não nos cruzarmos com o estúpido do Gustavo, que deve lá estar com a pindérica da Ritinha. Vamos antes às lojas, à piscina daquele hotel novo  ou para casa da avó da Filipa na aldeia, que tem rio e tudo". 




Tentaria distraí-la com outra coisa. Não. As insensíveis, se é que existem, desafiam-na a ir ao mar e cara alegre. O que me leva à dúvida número dois: a praia é assim tão pequena? É que isto parece-me uma desculpa esfarrapada, ou um cenário à Morangos com Açúcar versão anos do ié-ié, que os moranguitos arranjavam sempre maneira de todo o elenco ir de férias em simultâneo para o mesmo sítio. Certo, há praias na Linha, na Caparica e outras (como as de Buarcos e algumas algarvias) na cidade que são um pouco apertadas, mas...de qualquer modo com tantos quilómetros de costa neste país há sempre outras praias livres de defuntos e coisas ruins.

E a infeliz  da Naná, com espírito de mártir ou de mulher da luta, lá vai contemplar tão triste espectáculo. Dúvida número três: ela bem se desculpa "já pensei não sair/ mas para onde hei-de ir/com este calor?".

 Mas atenção-  quando uma mulher não se quer cruzar com o ex, não sai e não sai mesmo, ou até arranja um itinerário dos lugares a evitar, mesmo que desista de assistir àquela festa ou de se refrescar no areal. Antes deitar-se na relva com os aspersores ligados! Antes, à falta de piscina privada (ou de um tanque, para quem mora em quintas) abrir a mangueira no máximo e fazer uma triste mas refrescante figura. Ao menos não se sujeitava a isso.

 Agora óculos de sol! Uma rapariga saca dessa arma secreta caso vá tranquila da sua vidinha, no lugar mais improvável para tropeçar na alma penada e, zás: lá aparece o anticristo. 

Que fazer? É pôr os óculos de sol, fingir que não viu e andor, violeta. Já ficar numa praia deitada a ver a cena do pateta aos afagos à flausina, com óculos de sol ou sem eles, exige masoquismo. E um bocadinho de falta de dignidade feminina. Sem esquecer uma mistura entre pateticidade e auto domínio sobre humano.

 Mais sinistro ainda, será que a intenção seria uma tentativa ridícula de comover o ex ("olha para mim tão triste, a chorar por ti") ou de lhe mostrar o que estava a perder para o reconquistar? Ou ainda, de estragar a tarde de praia à outra? De qualquer modo é infinitamente mau. Imaginem o ego do rapaz- deve ter ficado nos píncaros. Em vez de o mandar passear categoricamente, porque os homens mulherengos não merecem ser conservados, quanto mais disputados, põe-se a chorar com uns óculos de sol na cara! Fosse minha amiga ou irmã, que correctivo ia apanhar!

  Uma mulher só se presta a isso se:

a) estiver para lá de Bagdad e não se importar de todo;
 b) tiver uma companhia melhor para apresentar na praia, para ao menos salvar as aparências e devolver a arrelia. Nem que seja a fingir.

 Com cantiguinhas destas a encher as cabeças femininas de tolices como quem não quer a coisa desde os anos 60, não admira que se veja por aí tanto descalabro...

2 comments:

Um Diário Público said...

Bem, eu acho que essa música é uma versão em português de uma música inglesa; o tema é o mesmo e a letra não muda muito com a tradução. Eu não fazia ideia até há cerca de 2 anos, quando fiquei perturbada ao ouvir a versão inglesa numa séria britânica alusiva aos anos 80 se não estou em erro. Sempre pensei que fosse uma invenção nacional, mas parece que não.
Com um pouco de pesquisa e persistência (os dados sobre o tema não são muitos e eu sentia que tinha de descobrir a verdade...), descobri que o autor da música original é John D. Loudermilk (https://en.wikipedia.org/wiki/John_D._Loudermilk) e como pode ser visto na Wikipédia, o tema foi gravado 3 vezes, sendo que só à terceira virou hit...
Aqui vão as 3 versão, conseguidas no youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=FulSsLHKSU4
https://www.youtube.com/watch?v=4HVBEb-GA1Y
https://www.youtube.com/watch?v=Vw1y6fqz0VU

Espero ter ajudado na reflexão sobre o tema ;)

Imperatriz Sissi said...

Muitíssimo obrigada pela partilha!Nem acredito que na altura não lhe respondi.As minhas desculpas.

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