Recomenda-se:

Netscope

Thursday, June 4, 2015

Maria Madalena, por Amália Rodrigues



Já por aqui tenho dito que acho uma pena não ver mais Amália Rodrigues nos  blogs de moda nacionais. 

Aliás, existe muito pouco material online que se foque nos looks da mais "nossa" das nossas it girls, o que me dá vontade de mergulhar nas minhas revistas antigas e partilhar algumas imagens. 

  Amália teve, na associação musica/moda, uma presença muito semelhante à de Maria Callas. Se Maria Callas pôs a ópera na moda e a moda na ópera (como li algures há muitos anos) Amália pôs o Fado na moda e a moda no Fado (embora não só o Fado, já que cantava outras coisas). De certo modo, glamourizou a canção portuguesa. Fosse Amália uma jovem cantadeira hoje, estou a vê-la perfeitamente a vestir Dolce & Gabbana e Alexander McQueen. Juntamente com Carmen Miranda, foi a maior estrela portuguesa. Ambas com uma imagem marcante, de forma muito diversa.

 Ter um "boneco" é sinal de que se alcançou um estilo próprio. Se virmos uma mulher de sheath dress preto, grandes óculos de sol, bâton encarnado, cabelo escuro e eventualmente, uma flor escarlate no cabelo, zás: pensamos imediatamente em Amália. 

Talvez haja na imagem da fadista algo de siciliano que me agrada (com todo aquele preto, aquele cat eye e aquelas rendas). Adoro a segurança do seu look de assinatura. Era elegante, era clean, era rico e uma pessoa sabia o que esperar dela.



Quanto à sua obra, eu percebo pouco de Fado; as minhas avós gostavam, em casa às vezes recebíamos amigos que cantavam Fado de Coimbra ao luar no jardim; aprecio um bocadinho do outro fado aqui e ali (cheguei a escrever, por carolice, um que até foi muito aplaudido mas dizia precisamente "não canto o Fado!") e o pouco que conheço melhor é Teresa de Noronha e Amália... duas mulheres praticamente opostas, na voz, no background e na forma de estar, mas ambas fascinantes, a viver numa época que em termos de sociedade e cultura nacional, seria bem mais interessante do que a nossa...

 Ocorreu-me isto porque nas minhas arrumações, dei com um disco que era da avó, de Frei Hermano da Câmara, "O Nazareno". Lembro-me de o ver lá por casa em pequena, mas não me recordava nadinha do conteúdo, nem de que era um musical. Fiquei curiosa ao reparar que Amália fazia de Maria Madalena.



 E embora unidos pela música, não é de estranhar que para o autor, profundamente religioso e tradicional, Amália (divorciada, livre e movendo-se em círculos boémios) parecesse o modelo perfeito de uma elegante "mulher pecadora". Uma Madalena do século XX. Mas isto já sou eu a fazer associações de ideias. 
  
 De qualquer modo, a canção é belíssima. Mereceria talvez um arranjo diferente, uma produção nova que a tornasse mais intemporal e realçasse a profundidade da letra, mas as palavras são intensas e eternas. Falam ao coração de todas as mulheres que sentem, tenham ou não arrependimentos. Há um pouco de Maria Madalena em todas, quanto mais não seja nas que encontraram a pessoa que faz cumprir aquela "profecia" virtual muito batida nas redes sociais: "um dia encontrarás alguém que te vai mostrar porque nada tinha feito sentido até então".



E trago-vos bálsamos, trago-vos rosas

E trago mil beijos de límpida unção...
Deixai que estas lágrimas tão dolorosas
Vos verta nos pés que iluminam o chão,
Que me enchem de santa e fremente paixão,
Quero o eterno amor, quero o eterno amor, um amor sem vergonha,
Sem trave e sem fim, sem trave e sem fim...




No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...