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Wednesday, June 17, 2015

O amor perfeito nos anos 1940...e a confusão do nosso tempo.


"O verdadeiro amor não admite nenhuma reserva no dom de si e não prevê termo à sua duração. Qualquer advérbio o trairia.... Negar-se-ia a si mesmo se afirmasse "eu amo-te agora", "eu amo-te por algum tempo". Diminuir-se-ia se confessasse "eu amo-te muito". Não. Ele só pode declarar "eu amo-te" englobando neste laconismo toda a intensidade e duração, negando ao mesmo tempo toda a restrição.

O amor é total e por isso quer a intimidade dos espíritos, do coração e dos corpos. Sofre com as omissões, os segredos ciosamente conservados, os recantos sombrios e misteriosos que se escondem no coração. Reclama a plenitude do coração, quer ser amado só, teme todo o rival. Por natureza é ciumento.  Aspira à união porque espera realizar o seu sonho - sempre um tanto iludido - de posse total, decisiva e definitiva, da unificação e identificação com o ser amado. 

Digamos entretanto que chegado à sua plenitude, quando a fusão se conseguiu, o amor não conhece mais o ciúme; a confiança é absoluta e recíproca. 

Tal é a plenitude psicológica do amor e as suas características humanas; tal é o amor integral e perfeito que Deus quis..."

                                                  Pierre Dufoyer


Isto retirado de um manual de comportamento (masculino) datado de 1948. Claro que - o próprio autor o diz - o texto descreve o ideal e não necessariamente a realidade daquele tempo.

 Porém, o ideal norteia os esforços; por ele se medem as atitudes pois ainda que não se alcance esse padrão em absoluto, tudo o que se pensa, faz e diz procura conformar-se com ele. Uma pessoa é sempre a melhor versão possível dos seus modelos de vida: quem aspira à maior perfeição pode não chegar lá, mas andar perto; e com certeza, não vai agir de forma muito contrária àquilo que admira e defende. É assim com tudo, nas coisas mais simples do quotidiano e nas mais sérias - no posicionamento das marcas, nas dietas, na missão das organizações, nos lemas de vida, na forma de vestir, de pensar, de viver, nos princípios de carreira, na Fé, na forma de estar em família, nas ideias políticas, nas amizades e companhias. Estabelecemos padrões e guiamo-nos por eles. 



Quando os padrões descem, a qualidade desce. E quanto menos exigente for o padrão à nossa volta, quanto mais flexíveis e relativos os ideais em que uma pessoa é educada e os que mantém para si, mais fácil é escorregar. 

 Ora, em 1948 as relações humanas estariam longe de ser perfeitas; mas o padrão de comportamento actual, o "ideal" de hoje - se é que existe - é mais rápido, frenético, efémero, elástico, fluido, descartável, frívolo, egoísta e irreflectido. As aspirações humanas ao amor, à companhia, à exclusividade e estabilidade são imutáveis; as receitas para lá chegar, porém, mudaram, ou foram esquecidas por completo.

 Como disse Zygmunt Bauman "vivemos tempos líquidos; nada é para durar". Antigamente procurava-se ir da alma para o corpo; avaliar compatibilidades, apreciar as subtilezas do espírito e os indícios, formar laços sólidos antes de partir para o resto. As mulheres reconheciam a sua vulnerabilidade e tiravam partido dela; os homens faziam gala de a proteger e apreciar; e as fronteiras da lealdade, do compromisso, as nuances da fidelidade estavam bem definidas. Não que isto fosse sempre cumprido ou igual para toda a gente - não era. Mas tentava-se. O próprio comportamento vigente a isso obrigava - os homens apaixonavam-se pelas mulheres totalmente vestidas e à distância; oferecer um retrato a alguém era um passo muito sério, que podia cobrir uma rapariga de ridículo; em tempos mais recuados ainda, chegava-se a namorar pela linguagem dos leques, por carta...as pessoas deixavam de se apaixonar por causa disso? Não. 

  Agora o comportamento feminino é de tal maneira agressivo que um rapaz estranha se uma jovem não lhe envia, como as outras, selfies reveladoras...ou terá o descaramento de dizer, muito ofendido, a uma paixoneta que não chegou a dar-se "se nos tivéssemos envolvido fisicamente mais cedo, ainda agora estávamos juntos". 
 Entre o "amor" e um "test drive" a diferença é muito pouca. E isso funciona  para quem procura divertir-se, atenção - torna-se é confuso para quem não adere a tais ideias ou para os que procuram outro tipo de relacionamento. Aplicam-se ao amor que se quer para durar as mesmas regras das relações fugazes. É como tentar fazer um bolo com uma receita de canapés!

 Pior ainda, mesmo entre as pessoas mais sérias, mais graves ou menos desmioladas, com uma forma de pensar e de estar mais tradicional, esta cultura da "malandrice" e do "logo se vê" também veio baralhar a dinâmica, quanto mais não seja nos aspectos da decisão e da lealdade.

Não nos enganemos: ninguém é perfeito e santinhos há poucos, mas esse "tentar", esse "partir do princípio" faz uma diferença enorme. Ora se faz!

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