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Tuesday, June 2, 2015

O diabo adora que falem nele. E nós, feitos parvos, falamos.



Temos Instagram, Twitter, Facebook...e adoramos audiência!

A minha querida avó era uma senhora muito piedosa. Também tinha um grande sentido de humor e deixava-nos fazer trinta por uma linha, mas havia uma fronteira que não podíamos ultrapassar: era proibido dizer "diabo" lá em casa. Bem como a maior parte dos "sinónimos": demónio, Satanás, Belezebu,etc. De todo. Nem como força de expressão. Ficava logo incomodada e já se sabia que,  caso viesse à baila, o  fio do diálogo era interrompido com uma lenga lenga de "Credo, não falem nisso, Santo Nome", etc.

 Claro que alguns dos netos e sobrinhos aproveitavam para trazer o Príncipe das Trevas à conversa de vez em quando, só para a ver repetir a deixa do costume - que às vezes acabava com o desabafo "ele que se suma para as profundezas do Inferno!".

 Mais medo do Inimigo do que a avó, só o meu tio C., que se arrepiava todo à simples menção de tal nome e volta não volta tinha pesadelos em que o Pai da Mentira queria tentá-lo ou arrastá-lo para os seus domínios. Como o tio C. era uma das pessoas mais angelicais que já conheci, a seguir à avó, concluí que só quem era realmente muito bom tinha medo de quem arquitectava todo o mal desde o início dos tempos.



Uma vez começou uma série para crianças, sobre gatos, que se chamava "Os Mafarricos", coisa que eu não sabia o que era. Ela viu, ficou horrorizada e foi uma complicação, que a televisão não havia de passar tal coisa, etc. Lição aprendida; fiquei logo instruída que "mafarrico" não era uma palavra boa- embora se aplicasse lindamente ao nosso comportamento quando nos juntávamos em pandilha, eu acho.

 Certa vez fez mesmo o sacrifício de nos sentar, com ar solene, e explicar que não se devia falar no "coisa ruim" em circunstância alguma, porque isso o chamava logo. Nem para dizer mal dele? - perguntámos, espantados com uma entidade tão pouco ocupada, que acorria logo à menção do nome ou alcunha. Nesse caso, as Missas Negras que se viam nos filmes e nos livros para o invocar eram uma enorme perda de tempo e desperdício de velas pretas, donzelas sacrificadas e orações em latim às avessas. "Se disserem mal dele ele ainda fica mais contente! Quer é ver maldades e adora que falem nele! Está sempre à espreita a ver se o chamam!". Um verdadeiro Manel dos Plásticos, portanto, servido por legiões de diabretes sempre prontas a marcar presença.



 Não me fiei muito nisso, nem fiquei com medo porque a ideia de anjos caídos era fascinante, havia imensos contos populares que eu adorava sobre o assunto e além disso o meu bisavô barafustava sempre que com a canalha nem o diabo quis nada, logo estávamos a salvo; mas achei curioso. 

  Por estes dias a existência literal e a relevância do Demo tem estado na ordem do dia e sido abordada por representantes da Igreja através dos média, a propósito (mas não só) do jogo "Charlie Charlie" que correu a internet (e que se veio a saber, não sem antes gerar casos de histeria em massa, que é uma manobra publicitária para um filme qualquer). Moral da história: não convém chamar o que não se conhece, mesmo a brincar...

Ou mesmo para dizer mal!

 Espíritos e diabruras à parte, há muito de verdade nisto. Não convém dar atenção a attention whores, a quem vive do "falem mal, mas falem de mim!". 




 Numa época em que todas as queixas, mesmo as lamurias mais ridículas, são legitimadas em nome do politicamente correcto e em que qualquer um tem acesso às redes sociais para levantar as discussões mais disparatadas, ganhando assim buzz e audiências, parece que a premissa diabólica se realizou mesmo. E lamento dizê-lo, sem a elegância mefistofélica que sempre se atribuiu ao Príncipe deste Mundo... 




 Das estrelas de reality shows e sub celebridades deste mundo às acusações de discriminação impossíveis de engolir, passando pelas mulheres que advogam o "direito" de se exibir de forma ridícula em modo auto-pena sem que ninguém diga ai ou ui, pelos movimentos anti champô, anti depilação ou qualquer forma de disparate que gere discussões, tudo serve aos modernos mafarricos para o bom e velho "ser falado" e "ficar famoso". 

  E tal como com o Inimigo, mais vale estar de guarda, mas dar o desprezo, a fazer muito barulho escusado com benzeduras e esconjuros. O pior é que ao partilhar, comentar ou simplesmente falar contra na tentativa de dizer "esperem lá, mas isto agora é normal, está tudo louco?", estamos a fazer exactamente o que os "diabos" querem. Vade retro, Satana.



1 comment:

C. N. Gil said...

Pois...

Fora isso, tens aqui uma foto do Al Pacino que foi, para mim, o diabo mais fixe que já vi no cinema...
...sobretudo pelo discurso que faz no fim do filme! Acho que o problema do diabo não é mentir... É atrair-nos com meias verdades!

:)

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