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Friday, June 5, 2015

O Rei S. Luís de França...e as duas mulheres da sua vida


Tenho uma grande admiração pelo Rei S. Luís de França (Luís IX). Foi um soberano, pai, filho e marido modelo, mecenas, rei cristianíssimo, exemplo de justiça, nobreza e bondade. Inimigo do vício, amigo dos pobres e da justiça, o seu reinado fortaleceu França de tal modo que o sec. XIII é chamado "o século de ouro de S. Luís". As imagens que existem dele, mais ou menos romanceadas, também sugerem que teria uma figura bonita, gentil mas majestosa. Em suma, é a imagem perfeita de um Rei medieval, com todas as qualidades a que um homem deve aspirar.

Mas no seu percurso, contou com o precioso auxílio - e lamento dizê-lo, as arrelias - das duas grandes e virtuosas mulheres da sua vida: a mãe, a piedosa mas obstinada Branca de Castela, e a sua amada e intrépida esposa, Margarida de Provença. Se por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher, talvez ter duas nos bastidores fosse simultaneamente uma bênção e provação tão grande que contribuísse para o tornar Santo.

 Luís começou a reinar muito novo -com apenas 12 anos - após a morte inesperada de seu pai, Luís, o Leão, actuando a sua mãe como regente. Mulher de carácter, Branca orgulhava-se de ser filha, sobrinha, esposa, irmã e tia de reis. 

                    
Branca de Castela

Herdara o  espírito da avó materna, Leonor de Aquitânia, que aliás tinha decidido o seu casamento por achar que a têmpera de Branca se adequava mais ao trono de França do que a primeira escolha, a irmã Urraca (que casaria entretanto com Afonso II de Portugal).

Profundamente religiosa, Branca  guiou o filho no sentido da virtude, dizendo muitas vezes "que preferia vê-lo morto a vê-lo cometer um pecado mortal". Esperava fazer dele um digno sucessor do pai, que unia a bravura ao zelo pela Fé.  Mais tarde Luís seguir-lhe-ia ao exemplo tendo uma relação informal e de grande proximidade com a sua prole, sobretudo no que respeitava ao acompanhamento da sua formação espiritual.

 Fazer valer os direitos do jovem Luís não foi fácil: Branca teve de lidar com as pressões de Inglaterra, com conflitos internos e a Cruzada dos Albigenses (a que ajudou a pôr termo, continuando assim a obra do marido).

 É natural que lhe fosse difícil afrouxar a sua amorosa protecção e o seu sentido político, mesmo depois de Luís atingir a maioridade aos 20 anos. Passou então a ter uma posição oficialmente mais discreta, embora continuasse a actuar nos bastidores como conselheira.

  E foi nesse papel que o orientou na escolha da noiva: a linda  Margarida, filha de Beatriz de Sabóia e Raimundo Berengário da Provença. Jovem culta, uma de quatro irmãs que eram consideradas as maiores beldades do tempo e tão religiosa como Luís - depois de casados, tinham o hábito de rezar juntos - pareceu a Branca a nora perfeita: doce, ingénua e obediente. 


Margarida de Provença

Com efeito, a união revelou-se feliz: Margarida era carinhosa e alegre, cobrindo o marido de cuidados. O bonito casal entendia-se na perfeição e os filhos sucediam-se: foram 11 ao todo. Apaixonada e corajosa, chegou mais tarde a  acompanhar o esposo em Cruzada, enquanto a sogra ficava em França, novamente com os destinos do reino a seu cargo.

 Quando o Rei foi feito refém, as hábeis negociações da mulher (levadas a cabo quase no termo de uma gravidez!) salvaram-lhe a vida, e a de vários cavaleiros.

 E assim - com a mãe no Trono, e a cara metade a seu lado - estava Luís IX cercado das mais amorosas guardiãs.


 Porém, este ânimo varonil de Margarida não foi do agrado da sogra, principalmente nos primeiros anos. Branca de Castela enganara-se se esperava uma nora submissa, que se deixasse guiar e ensinar.  Margarida, a despeito das suas grandes qualidades, revelava-se ambiciosa. Essa era, aliás, uma das poucas diferenças em relação ao marido: quando S. Luís, a despeito dos seus nobres títulos, insistia em assinar apenas "Luís de Poissy" e em trajar com simplicidade, Margarida recordava-lhe que devia vestir-se como quem era...ao ele respondia, sem fazer caso, "que vestiria como ela quisesse se ela se vestisse como ele gostava". 


 Branca considerava Margarida demasiado jovem e impetuosa e impedia-a de participar nas jogadas políticas - talvez por a nora ter fama de usar a intriga para conseguir os seus fins; por seu turno, Margarida queixava-se da interferência de Branca, que acompanhava o casal para toda a parte. Enfim, rezavam as más línguas que as duas rainhas andavam numa constante partida de xadrez, disputando a influência sobre o Rei. 

Se Branca pecava por excesso de zelo, não deixando muito espaço ao casal, também Margarida errava ao não aproveitar a orientação de tão boa professora. Podemos imaginar que se a família conseguiu um reinado tão proveitoso com as duas mulheres agastadas uma com a outra, onde não teria chegado se se entendessem! Não há maior tesouro que uma sogra sábia, nem achado melhor que uma nora receptiva e sensata...

 S. Luís, porém, tinha demasiadas conquistas, demasiadas obras, demasiadas misérias a socorrer para deixar que murmurações femininas o perturbassem: respeitoso até ao fim para com a mãe (cuja partida deste mundo em 1252 o obrigou a regressar a França) sempre paciente com a esposa, soube tirar o melhor partido do bem que ambas lhe queriam e da ajuda que lhe prestaram. 

   Margarida sobreviveu mais de duas décadas ao marido -  mas não ficou na Terra os dois anos que faltavam para presenciar fisicamente a sua Canonização pelo Papa Bonifácio VIII, em 1297. Por essa altura, já o casal dormia eternamente na Basílica de Saint - Denis...



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