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Wednesday, June 3, 2015

Quando for grande quero ser polícia de choque


Neste país não se pode,  sem arranjar logo uma onda de indignação nas redes sociais, brincar aos pobrezinhos, nem aos riquinhos. E pelos vistos...também não se pode brincar aos polícias, a julgar pelo sentimento de ultraje causado por uma simples demonstração da Polícia em Portalegre, no Dia da Criança.

 A afronta? A Polícia quis mostrar aos mais pequenos como procede em caso de motim - estratégias que dá sempre jeito que as Forças de Segurança saibam caso, sei lá, haja um motim a acontecer nos bairros destas pessoas que se indignaram muito.

 Quando era pequena também fui a demonstrações da Polícia e do Exército (e se a memória não me falha, dos Bombeiros). Por acaso não me explicaram como conter uma multidão furiosa (eu teria adorado, com certeza) mas ensinaram-me outras coisas; nomeadamente experimentei uma amostra do treino dado aos Pára-quedistas. Como havia tradição militar na família, também me fartei de brincar em tanques de guerra  e canhões -  pasmem lá com essa, ó indignados. Aprendi equitação numa escola *fantástica* da GNR, onde me ensinavam habilidades de circo: agora sem mãos! Agora gira na sela! Agora de joelhos! Morri? Não morri. Tornei-me uma pessoa violenta? De todo. Ainda pensei seguir uma carreira militar, mas foi tudo.


 Perante acusações que li por aí - de aprenderem a ser violentos a aprenderem a reprimir os outros - só tenho a perguntar a estes pais e aos indignadinhos do costume: preferiam que o Dia da Criança fosse passado a brincar à anarquia? Isso é que era mau. Que mal aprenderam num cenário de "violência" simulada, num exercício que, na sua versão adulta, serve para CONTER a violência? Porque parece que querem que as crianças vivam numa utopia tipo Imagine, que são os adultos a viver num faz-de-conta onde a hipótese de violência, de motim, não é uma realidade. 

 Sim, a Polícia, as Forças Armadas... são péssimas companhias para os pequenos. Aposto convosco que muitos pais não diriam palavra se a notícia fosse "Meninos passam o Dia da Criança a dançar funk" ou "Crianças fazem book artístico de gosto questionável" ou ainda "Crianças vão a estúdio de televisão entrevistar vedetas da Casa dos Segredos". (Não estou a hiperbolizar: a julgar pela imagem abaixo, um concorrente do dito reality show marcou mesmo presença numa escola no Dia do Livro, e não vi ninguém indignado).


Voltemos a Portalegre: que mal aprende a pequenada numa simulação que lhes pode ser útil para se moverem de modo a escapar, digamos, caso se percam num sitio apertado com muita gente? Num daqueles concertos impróprios para a idade deles onde muitos pais insistem em levá-los, por exemplo?

Que mal aprendem com a Polícia, o exército? Violência? Pancadaria? Não, senhores, o jeito para nos sovarmos uns aos outros é inato, convém é ser civilizado e contido; o que não acontece se fingirmos que não existe. Para não dizer que umas noções de auto defesa e a familiarização com quem nos protege não caem mal a ninguém, nem lembrar que nunca podemos estar 100% certos - lagarto, lagarto-de que a paz e a ordem são dados adquiridos.

 Logo, não convém agir como se as forças de segurança e o exército fossem assim uma coisa ultrapassada, repressora, do tempo da outra senhora, que é bonito desprezar e achincalhar.

Se calhar os pequenos aprendem coisas muito más na companhia de militares e de polícias. Deus nos defenda de expor a tais horrores as florinhas de estufa: aprendem, por exemplo, a ser aprumados, que é uma coisa estranhíssima para quem manda as filhas para a escola de leggings e os rapazes com as calças a chegar aos joelhos e bonés ao contrario sem pensar duas vezes. Se calhar aprendem a caminhar como homens e mulheres, com porte e dignidade, em vez de terem "swag" e fazerem "twerk". Se calhar aprendem noções de honra, disciplina, respeito, integridade, espírito de equipa e amor à pátria, em vez de andarem à bolachada uns aos outros, a fazer bullying aos coleguinhas e a 
pôr-se em poses perigosas nas redes sociais

Com um bocadinho de azar, os meninos (ou meninas) vão chegar a casa e dizer "mãeeee, quando for grande quero entrar no GOE, que é uma das melhores forças especiais do mundo!". Deserdado, logo!

E às tantas - que horror, que medo- deixam de achar tanta graça ao Ronaldo (que fez da rua retrete em Saint Tropez, confirmando de vez aos franceses que os lusitanos são uns rústicos) e à casa dos segredos, estragando os serões de família em frente ao plasma.

Porque a "paz e o amor", a infantilização combinada com o "que mal tem isso?" (menos aquilo que é realmente mau) o "criar florinhas de estufa" faz com que o diabo os leve por outro caminho e a violência extravase na mesma, mas descontrolada.  

A sério, o desrespeito gratuito pela autoridade neste país, a par com o politicamente correcto febril é das poucas coisas que me arreliam profundamente. Para o próximo Dia da Criança, já sabem: façam um mini Big Brother. Os indignados serão muito menos.


3 comments:

Kaia Kakós said...

Caramba! Onde vai buscar a Sissi tamanha inspiração? Subscrevo inteiramente o que escreveu. Estamos a entrar na era da vitimização dos criminosos e na criminalização das polícias. Se há, por vezes, abusos? Há. Mas antes termos uma polícia forte e que seja conhecida por fazer o seu trabalho do que termos uma polícia, como está a acontecer, que é presa por ter cão e presa por não ter. Depois as pessoas admiram-se que, quando já lhes dá jeito, a polícia nunca está lá para eles...Enfim, é uma realidade triste e que a Sissi expressou na sua forma costumeira, que é brilhante. Parabéns!

C. N. Gil said...

Independentemente de tudo o resto - e acho que tens razão - há uma pergunta que se me sobrepôs a tudo o resto enquanto lia, e ofuscou por completo o resto do texto:
Um concorrente da casa dos segredos foi a uma escola no dia do livro? Então mas ele sabia ler? Ou era como o Bush que até lia os livros ao contrário?

E que, caso até saiba ler, isso demonstra um enorme erro de "casting" por parte da TVI...

:)

Inês Sousa said...

Ao ler esta notícia ontem pensei logo em duas coisas: 1º tenho de escrever um post acerca destes pais flor de estufa, 2º o que diria a Sissi se lesse esta noticia? Já que ontem não deu para as minhas escritas, pelo menos fiquei feliz ao ler as suas.
Vergonha é o que tenho destes pais flor de estufa que ficam indignados com o que não devem e veneram coisas que nem lembra ao mafarrico. Bjinhos

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