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Tuesday, June 16, 2015

Mudam-se as décadas, mudam-se os ideais de beleza (e as mulheres ainda se afligem com isso!)

Um artigo muito engraçado sobre a evolução da beleza "ideal" da Belle Époque até hoje anda a correr a internet. Este tipo de texto não é novidade, mas tem sempre a sua graça e numa altura em que as mulheres nos média parecem obcecadas em demonstrar que todos os corpos são "perfeitos" - embora muitas façam questão de os expor da forma mais crua e inestética, num aparente movimento de auto comiseração - mais importante se torna reparar nisto, para poder relativizar. 

1900- Durante a Belle Époque o ideal de beleza era a mulher imponente muito elogiada por Eça de Queiroz, com a perfeita figura de ampulheta, cintura fina (realçada pelos espartilhos em "S") ancas e busto perfeitamente proporcionados, pescoço de cisne e ombros muito femininos. Grandes decotes shoulder-to-shoulder, chapéus extravagantes e penteados volumosos estavam na moda. A pele queria-se clara e o rosto com um aspecto natural, sobrancelhas pouco depiladas e lábios e faces rosados. Beldades como a "Gibson girl" Camille Clifford e a cantora lírica Lina Cavalieri eram a perfeita encarnação desta "mulher Vénus".

1920 - Após as privações e tristezas da Primeira Guerra Mundial, e como que a adivinhar o que se seguiria- a Grande Depressão e a II Grande Guerra- viver depressa e intensamente passou a ser a palavra de ordem. A entrada das mulheres no mercado de trabalho (e as conquistas femininas a nível social/civil) determinaram o fim do espartilho - com uma ajudinha de Mademoiselle Chanel. Flappers como Louise Brooks e Josephine Baker (de cabelo à garçonne, olhos e lábios pintados dramaticamente, boquilha e joelhos à mostra maquilhados com rouge para dançar o Charleston) eram o modelo a seguir. A figura "perfeita" de então era a de rectângulo: mais pequena e esguia do que a Gibson Girl, com  peito pouco pronunciado e ancas escorridas (ideal para fazer funcionar os vestidos de cintura descida). As mulheres que pouco antes enchiam o cabelo e o peito de extensões e chumaços agora cortavam as madeixas e enfaixavam o busto para obterem a desejada silhueta ágil "à rapaz".
  
1930 - As bainhas das saias descem ligeiramente e há um regresso discreto às curvas, com uma figura de ampulheta magra- cintura vincada e um busto delicado, mas feminino e uma anca um pouco mais pronunciada. A elegância de Jean Harlow, Vivien Leigh ou Bette Davis era o objectivo a atingir, mas o look de Mae West, mais voluptuosa, continuava a fazer sucesso.




1940 - Face à escassez da  II Guerra, e ao facto de as mulheres precisarem de deitar mãos à obra, a figura esguia, mas com curvas, continua em voga. Dior reinventa a saia lápis, que destrona os vestidos sem estrutura de décadas passadas e faz furor por revelar o contorno das ancas.  No entanto a mulher torna-se mais majestosa, austera e com um certo toque masculino no seu look- comunicando respeito, coragem e espírito de sacrifício. Manter a beleza com poucos recursos torna-se um dever patriótico. Churchill incentiva o uso do bâton para manter a moral da população. A beldade ideal é mais alta e tem ombros mais largos, com uma silhueta de triângulo invertido. Lauren Bacall, Katharine Hepburn, a nadadora Esther Williams e a graciosa Veronica Lake dão cartas... mas Rita Hayworth, uma ampulheta perfeita,  tem o seu nome escrito na bomba atómica e Ava Gardner começa a causar sensação.


1950 -  Com a paz (e o fim do racionamento nos tecidos) as mulheres querem voltar ao lar, criar uma família e tirar partido da sua feminilidade. Christian Dior lança o New Look (deixando os maridos à beira de um ataque de nervos, porque mandar fazer vestidos com tanta roda ficava bastante caro) mas o formato lápis mantém-se, acentuando as curvas em saias e vestidos. Surgem as calças cigarrette e capri. Marilyn Monroe populariza os jeans. A figura de ampulheta volta a representar o ideal de beleza, em vários tamanhos - das muito esguias, como as modelos Dovima, Dorian Leigh e Suzy Parker, às mais voluptuosas, como Jayne Mansfield. 
  Elizabeth Taylor, Gina Lollobrigida, Bettie Page, Mamie Van Doren e Grace Kelly - cada uma no seu género - encarnam a mulher perfeita. 


1960 - A "cultura da juventude" instala-se, em 1964 Mary Quant estabelece a mini saia e a figura "arrapazada" ou de rectângulo volta a estar em voga. Para fazer resultar os vestidos de trapézio e as saias curtas era preciso ter pouca anca, uma barriga lisa mas cintura recta, busto pequeno e pernas longas de rapariguinha. As dietas ficaram na ordem do dia, com milhares de mulheres a quererem ser como Twiggy, Jean Shrimpton e Audrey Hepburn (que curiosamente, devia a magreza às privações sofridas durante a II Guerra). Mas Veruschka, com as suas formas amazónicas, encanta o mundo da moda e a silhueta de Sophia Loren e Brigitte Bardot continuará a fazer sucesso pelos anos 60 fora...


1970 - À semelhança do que aconteceu durante a década de 1930, a silhueta rectilínea dá lugar a algumas curvas. A figura continua a ser muito esbelta e quer-se longa, realçada pelas calças boca de sino, mas um bocadinho  definida e feminina, numa ligeira forma de triângulo invertido: mais volume no busto, cintura a direito, barriga sequinha e ancas estreitas. Esta é a forma ideal para permitir usar os novos tecidos coleantes, como o spandex, e os jumpsuits da era da disco music. Farrah Fawcett, Marisa Berenson e no final da década, Gia Carangi, são as raparigas a copiar: atléticas, bronzeadas e alegres, com uma beleza muito natural.

1980 - Impõe-se a cultura da "mulher de sucesso", forte e independente, com conquistas definitivas no mercado de trabalho. Entra o power dressing, com os fatos e vestidos de ombreiras pronunciadas, mas também  a rebeldia colorida da New Wave e os looks opulentos inspirados em novelas como Dallas e Dinastia. A mulher perfeita pretende-se  majestosa, com formas femininas mas longas, esculpidas no ginásio - ainda é um triângulo invertido mas a anca é um bocadinho mais larga, quase, quase a roçar uma ampulheta em versão mais forte e com músculos definidos. Elle McPherson ganha o cognome "O Corpo" e modelos como Paulina Porizkova e Carol Alt fazem sucesso. Cindy Crawford e Stephanie Seymor ficam famosas mais para o final da década: nascem as supermodels.

1990 - As top models Claudia Schiffer, Linda Evangelista, Cindy Crawford, Helena Christensen, Naomi Campbell e Christy Turlinton, entre outras, ditam um padrão de formas perfeitas e majestosas. Mas por volta de 1994  Kate Moss vem, como uma nova Twiggy,  contrariar esta tendência com a sua figura petite e delicada de rectângulo - e surge o look heroin chic, influenciado pela música grunge. Jodie Kidd e Amber Valetta são outros rostos que representam o novo visual. Porém, as curvas não desaparecem por completo: Eva Herzigova apresenta o Wonderbra e Laetitia Casta conquista a indústria com a sua beleza intemporal.



2000 -  Gisele Bundchen, considerada a "rapariga mais bonita do mundo" ressuscita brevemente a ideia de supermodelo (praticamente extinta no final da década de 90, substituída por hordas de modelos magrinhas, pálidas e anónimas) e dita o novo padrão: uma mulher de aspecto mais forte e saudável,  semelhante à dos anos 70 -magra mas com algumas formas, bronzeada, musculada, com abdominais trabalhados, busto pronunciado, mas pouca cintura e anca. Volta o triângulo invertido! Britney Spears populariza o abdómen definido e as calças de cintura descaída. Paris Hilton dá nas vistas com esse tipo de silhueta e de jeans, acompanhados dos "pequenos tops de sair" que não deixam grande coisa à imaginação. 

2010 - Cansadas dos looks demasiado informais e de dietas excessivas, as mulheres reivindicam o direito às suas curvas. Os designers recuperam a silhueta ladylike inspirada nos anos 1950: volta a figura de ampulheta, a saia lápis e acima de tudo, a cintura. Actrizes como Scarlett Johansson e Sophia Vergara encarnam este ideal e Casas como Prada, Dolce & Gabbana e Louis Vuitton apostam em campanhas que recordam o New Look. A sociedade e os média, procurando combater o ideal "anoréctico" de anos anteriores incentivam à "beleza real": as modelos plus size exigem o seu lugar e  imagens de mulheres "comuns" exibindo-se sem photoshop tomam de assalto as redes sociais. Por sua vez a música, a televisão e de certo modo, as ruas exageram a ideia da figura curvilínea até à caricatura; se Beyoncé democratizou as saias curtas para mulheres de pernas fortes e pôs na moda o visual "bootylicious", celebridades como Kim Kardashian impuseram de vez os grandes derrièrres. Pela primeira vez as mulheres não têm complexos de levar o "grande rabiosque" para o mainstream e 2014 é considerado "o ano do dito cujo". A figura de pêra, com glúteos e pernas mais fortes do que o tronco, fica na moda realçada por calções, vestidos bandage ou transparentes e outras peças até então "reservadas" a mulheres mais magras. Para muitas, a nossa é a época do excesso e de uma forma de feminilidade quase agressiva e vulgar. Como todas as novidades, prevê-se que acalme, alcançando-se um bom equilíbrio.


E o que podemos concluir de tudo isto? Que os "padrões de beleza" sempre foram linhas de orientação, reflexos das mudanças económicas e sociais, e não regras para tomar a sério. Afinal, uma mulher pode engordar ou emagrecer, definir mais ou menos os músculos, bronzear-se ou não...mas não pode alterar o seu biótipo. Um rectângulo nunca será uma ampulheta por mais que faça, e vice versa. É sempre possível actualizar o visual sem aderir a silhuetas que não são pensadas para nós. A maior vantagem das mulheres em 2015, em relação às décadas anteriores, é a grande liberdade e variedade nas musas e nos looks: Sophia Vergara está na moda, mas Cara Delevingne também; Kim Kardashian pode ter tomado de assalto as primeiras filas dos desfiles (gostemos ou não) mas a sua irmã Kendall, com um tipo totalmente diferente, está em cima da passerelle. O streetstyle oferece uma diversidade de visuais nunca vista. Já não existe "uma só tendência vigente".  Há lugar para diferentes belezas, silhuetas e tamanhos. Resta vestir de acordo com aquilo que a natureza deu a cada uma, e não perder a cabeça e a saúde querendo por força acrescentar ou reduzir isto e aquilo, ou pior - deitando abaixo quem tem um tipo diferente ou dizer "isto e apenas isto é que é ideal, real ou bonito"...



1 comment:

Pusinko said...


Há pouco vi um vídeo partilhado numa rede social e lembrei-me deste post.
O que é a realidade dos anos 2000 e como os estilistas dos anos 30 imaginavam que seria :)

https://www.youtube.com/watch?v=NvtxFFj6eDY

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