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Thursday, July 23, 2015

As coisas que eu ouço: as "escandalosas" e a Procissão





Esta história é bastante caricata, própria de uma novela baseada em Jorge Amado, mas não foi fruto da minha imaginação; foi presenciada por pessoas de família (que eram pequenas na altura) em 1960 e bolinha, na Beira Alta. 

 Sempre gostei de ouvir esses episódios em casa (já aqui vos falei brevemente da Sra. Molelas, a velha criada) porque as cidades e vilas dessa zona tinham, na época, um estilo de vida próspero  e algo particular. A pequena "boa sociedade" local era muito unida e bastante cosmopolita. As pessoas viajavam e  faziam a maior parte das compras em Espanha; as mulheres "embonecavam-se", usavam o cabelo em "colmeia" e algumas atreviam-se já a uma discreta mini saia.

 O que não se comprava fora, era fornecido em grandes bazares ou comércio especializado. Depois, quase todas as famílias tinham a sua própria produção de iguarias: legumes frescos, ovos, enchidos, as boas conservas da região, queijos e presuntos enchiam as despensas e eram partilhados entre os vizinhos. Pobreza e desigualdade havia, como sempre houve e haverá, mas sendo uma zona fértil, não se tornava tão aflitiva como noutros sítios. O que mais angustiava ricos e pobres eram ver os jovens que partiam para o Ultramar e voltavam numa caixa, cenário bastante frequente.


 Em suma, quem vinha de visita das grandes cidades do litoral ou do estrangeiro ficava surpreendido com o bem estar e mente aberta da "província". 

Mas as velhas tradições também se mantinham de pedra e cal. As freiras tinham uma parte importante na educação dos meninos e meninas e o pároco local, já idoso e muito bonzinho, era adorado pelas crianças, para quem tinha uma paciência de Job, menos quando lhes metia um medo de morte com o Inferno (o que até resultava para incrementar a disciplina) ou pior, quando prolongava a sua homilia horas a fio (ou o que parecia horas a fio) nas manhãs em que a neve chegava aos tornozelos...

Como a Igreja estava a deitar por fora e nesse tempo os mais novos davam o lugar aos adultos sem fazer perguntas, a pequenada ficava de pé, vergando sob o peso dos casacões de Inverno, a gelar e a dormitar, suspirando pelo "Ite, Missa est!". E os adultos, embora todos fossem cumpridores senão parecia mal, nem todos eram muito piedosos ou tinham espírito de sacrifício para os longuíssimos sermões: começou então a circular um estribilho algo blasfemo à saída da Igreja, dito à laia de desabafo enquanto se batiam os pés dormentes: dominus "vobisco", o teu pai é um corisco, etc (o resto da rima não me chegou, mas era maior...).



No entanto, as irreverências ficavam-se por aí... 

Mas os costumes estavam a mudar, não necessariamente (ou pelo menos, não totalmente)  para melhor. Num certo Verão, vieram de férias umas raparigas, filhas de filhos da terra, que viviam em França. O "povo" (que alguns de vós saberão, significa "aldeia" ou "povoação" para essas bandas) estava sossegado como sempre, e preparou-se uma linda procissão. Chegou o dia e estava tudo arranjadinho e ordeiro que dava gosto ver: colchas nas varandas, alecrim pelo chão, a banda a tocar, os andores enfeitados com esmero,  as pessoas mais ilustres do lugar, as senhoras muito aprumadas com elegantes véus e as santas Irmãs, ladeando os meninos da Catequese muito bem enfileirados.

Sai a Procissão, que percorria a aldeia toda...e eis que as doidivanas decidiram exercer o direito de fazer topless em sua casa, conforme os hábitos que traziam de Paris ou lá de onde era. Ninguém teria nada com as suas modernices, nem mesmo naquele tempo, se não tivessem escolhido a hora e optado pelo pátio da frente em vez do jardim das traseiras no firme propósito de trazer um pouco de St. Tropez à serra, de arreliar o pároco e escandalizar o povo - escandalizar no sentido Bíblico do termo!



 Assim, quando o piedoso cortejo passou à porta de sua casa, lá estavam as Brigitte Bardot do vilarejo nesses preparos, estendidas a apanhar sol com o maior ar de desafio. Depois levantaram-se e puseram-se aos risinhos e pulinhos, a pôr bronzeador, etc, como quem diz "não sabem o que estão a perder, seus anjinhos!". 

Medo da danação não deviam ter; os pais não deviam ser gente de as castigar; e ninguém ia parar para ralhar com elas, pois então!

De modo que a banda apressou o compasso, a assistência acertou o passo, o sacerdote não sei o que pensou mas imagino e continuou como estava, as senhoras olharam com reprovação, os homens olharam para o chão e as freiras...coitadas,  trataram de tapar a vista aos pequenos o mais discretamente que podiam. As escandalosas, essas lá ficaram, contentes com a sua mefistofélica partida que ficou nas crónicas da terra...

Muito gostava eu de as entrevistar  hoje, para ver se continuam a pensar da mesma maneira. O mais certo é jurarem que nunca fizeram tal coisa e serem umas senhoras do mais convencional que há, como costuma acontecer aos piores rebeldes assim que a vida lhes prega das suas...





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