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Sunday, July 5, 2015

As mulheres de 1947 x as de hoje: será que as coisas mudaram assim tanto?




Em 1947, uma jornalista entrevistava o Dr. António Emílio de Magalhães, (médico, sociólogo, filantropo e um dos fundadores da Liga Portuguesa de Profilaxia Social) para a revista de que temos aqui falado, numa rubrica dedicada a saber a opinião masculina sobre o papel da mulher na sociedade.

Eis mais uma diferença que noto entre as revistas femininas de antigamente e as actuais: preocupavam-se em saber a opinião "deles" sobre nós. Não deixava de ser sensato ouvir os homens e assumir que eles eram, afinal, parte interessada...tal como são hoje. No entanto, as publicações de agora parecem, na maioria, preocupar-se com isso apenas quando se trata de conselhos de alcova. É como se fosse ofensivo pensar que os homens possam ter voto na matéria em qualquer outro ângulo da vida feminina, porque afinal, já sabemos fazer tudo o resto sozinhas sem dar cavaco a ninguém. O que me leva a pensar cá com os meus botões "depois não se admirem se as mulheres, não se preocupando em agradar senão nesse aspecto, sejam vistas por alguns apenas nesse sentido..."

Voltemos ao entrevistado: à data, a organização que co-fundara ocupava-se  em combater os males de saúde pública e as chagas sociais mais preocupantes (como o hábito de andar descalço, a sífilis e a tuberculose) recorrendo, entre outros métodos, a campanhas de comunicação bastante inovadoras. 



O bom doutor dedicava-se a várias causas nobres: os sem abrigo, as crianças e jovens em risco, as mulheres de rua, a criação de sanatórios...e apesar de se declarar celibatário (embora não recomendasse tal receita) tinha ideias bastante interessantes sobre a intervenção feminina na vida pública e no mercado de trabalho. É preciso notar que a sua organização se bateu ainda pelos direitos das profissionais da altura, movendo influências pelo "casamento das telefonistas e enfermeiras" já que era suposto apenas as solteiras trabalharem!


 A repórter Isa de Corsa  ia para a reunião com o Dr. Magalhães "alegre e saltitante como um pardal" porque um artigo que escrevera anteriormente sobre a Liga tinha comovido um leitor desconhecido do Rio de Janeiro, que enviara "um cheque de dez contos" (cerca de €400, corrijam-me se estou errada) para o Lar das Raparigas de Rua, uma das obras geridas pelo entrevistado. Eis como o jornalismo no feminino tocava as consciências...

 Depois, perguntando-lhe "concorda que a mulher trabalhe fora do lar?" ele deu uma resposta que, embora segundo  pensamento de um homem do seu tempo, quer-me parecer que levantaria algumas questões válidas ainda hoje:

"Em princípio, quanto à obreira, e outra que não seja a empregada de escritório, a enfermeira, etc...eu preferia que elas não trabalhassem fora do lar. Mas sabendo que isto não passa de puro idealismo tendo em vista o baixo nível económico do país, tenho não só que concordar como
 louvá-las pela heroicidade do seu trabalho - tantas vezes executado em meios mal preparados, que não têm pela dignidade da mulher o devido respeito. Chega a ser necessidade imperiosa ajudar os maridos...e faz pena que algumas sejam tão mal remuneradas, e por vezes por patrões que têm fabulosas fortunas!".

(Nada disto mudou assim tanto desde 1947 - Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de mulheres no mercado de trabalho, mas não só por bons motivos -  o número elevado deve-se também aos baixos salários que não permitem a uma família sobreviver apenas com uma fonte de rendimento, por muito que isso complique a educação e acompanhamento dos filhos). 

"Seria óptimo que assim fosse [as mulheres viverem só para o lar] em determinadas condições isto é, se os maridos ganhassem o suficiente. Mas não vejo a mesma necessidade [de ser só dona de casa] quanto à mulher que se dedica às artes, às ciências, aos problemas pedagógicos e sociais. A mulher que seja inteligente e bondosa pode e deve agir num vasto campo em que útil e brilhantemente se poderá evidenciar"...

Depois, perguntaram-lhe o "palavrão": não concorda que a mulher se intrometa em política? 

- "Conforme o que se depreender por política. - respondeu - Se o termo for tomado na acepção vulgar - o de politiquice - de modo algum. A mulher é séria demais para se deixar diminuir ou desprestigiar por essa paixão que nada tem de edificante. Mas se o termo for empregado como sinónimo de arte de unir os povos, de ser útil à pátria, de cuidar da assistência aos cegos, tuberculosos, etc, etc, assim como de agir nos campos da pedagogia, das artes, da protecção à criança, etc, acho muitíssimo bem que a mulher se envolva em política".




 Estes aspectos estariam na ordem do dia no pós Guerra (quando as mulheres tinham recentemente montado bombas e pilotado aviões). Porém,são discutidos ainda hoje, com muitas profissionais a dar cartas em áreas tradicionalmente masculinas - como a engenharia - mas ainda em acentuada desvantagem numérica, não se sabe se por uma questão cultural ou aptidão natural. Se por um lado, algumas mulheres se sentem diminuidas ao serem incentivadas a escolher profissões ou especialidades  "mais a condizer" com um perfil tradicionalmente feminino, outras defendem que não há necessariamente mal algum em tirar partido da nossa sensibilidade natural, actuando maioritariamente em campos como a educação, a saúde feminina e infantil, a acção social, as artes, etc.

Quanto à política, muito já foi dito aqui sobre o assunto - a história e a actualidade provam que há o muito bom e  muito mau! Nisso quer-me parecer que as mulheres são mais de extremos que os homens...

 Sobre a dinâmica entre marido e mulher, o médico achava que "o homem superior tem de ser educado para elevar a mulher"

Muito engraçada também era a sua opinião acerca daquilo que era melhor: a mulher "antiga" ou a "moderna"? Quase podia pedi-la emprestada para usar como manifesto aqui do IS...

- "Conforme! Se a mulher antiga é a bota de elástico sem pensar elástico para compreender os problemas modernos, fora com ela! Se a mulher moderna é das frívolas, que se apresentam quase despidas, falam em calão grosseiro, contrário à fina ironia, etc...fora com ela! Mas se a mulher antiga é da categoria de Carolina Michaelis de Vasconcelos e de outras tantas ilustres- venham as antigas! E venham também as modernas que se vistam com elegância e aprumo, que tirem cursos secundários e superiores, que saibam, enfim, ocupar brilhantemente o seu lugar qualquer que ele seja. Resumindo, seria óptimo que a mulher actual fosse um traço de união entre a beleza antiga e a moderna... beleza que eleva o espírito em prol da decência e do progresso e também a que obedece às regras da estética. E é por isso que tudo o que os governantes façam para elevar o nível mental, moral e social das mulheres, nunca será demasiado...".


3 comments:

MariaCaneta said...

Olá creio que 10 contos são actualmente 50 euros (10000 : 200,482 = 49,879) a menos que está a calcular a preços correntes...

MariaCaneta said...

Olá, creio que 10 contos são cerca de 50€ (10000:200,482=49,87) a menos que seja valorização desde 1947...

Imperatriz Sissi said...

Eu queria descobrir o valor actual.

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