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Thursday, July 9, 2015

De Sara Carbonero: "seguirás o homem que escolheres..." (ou não).


É curioso como os tempos, sem mudar muito os factos (porque há comportamentos que são inatos e intemporais) alteram bastante a perspectiva sobre eles.

Noutras épocas, a maior coroa de glória para uma mulher considerada bela, inteligente e capaz, era estar ao lado de um homem bem sucedido e poderoso - de preferência, mais poderoso do que ela. Zás, êxito, missão cumprida. Entre as raparigas americanas, chegava a dizer-se "para que quer ela ir para a faculdade, se já tem noivo?".

Nos nossos dias, em que a educação e o sucesso feminino deixaram - para o bem e para o mal - de ser meios para um fim para passarem a ser um fim em si mesmos, quando uma mulher bonita e inteligente (principalmente, se tiver uma carreira de sucesso) escolhe abrir mão de alguma coisa para acompanhar o homem que escolheu e/ou ser mãe, o reflexo já é dizer "que desperdício".

  Esta discussão tem estado de novo na berlinda, a propósito da recusa da jornalista Sara Carbonero em vir morar para Portugal quando, afinal, pode gerir a carreira, a maternidade e o casamento a partir de Madrid, que fica a 45 minutos de avião. Desculpem se não adianto mais que isto, porque percebo tanto de futebol como de matemática aplicada...



  Há quem argumente que Sara deve o sucesso à carinha linda e ao mediatismo do homem com quem viria a casar; sem isso seria uma repórter mais. Há quem aplauda a decisão de não virar a sua vida do avesso escusadamente, por causa da carreira da cara-metade. Haverá quem ache que faz mal. Eu não tenho opinião, já que a escolha de uma mulher  equilibrar (ou não) uma carreira com a vida em família é uma liberdade inalienável. É uma arte difícil, sim; às vezes é impossível fazer tudo bem, certo; mas é um direito de cada uma. De todos os direitos conquistados, acho que este é dos mais relevantes e  sobre o qual ninguém tem nada que dizer batatas.  Sara quer apostar na carreira? More power to you. Sara quer largar tudo pelo marido e a prole? You go, girl, embora eu defenda sempre que o mundo não mudou tanto como isso. Que quero eu dizer? 



Que desde a noite dos tempos- e não vale a pena estar com hipocrisias, nem filosofias, nem argumentos feministas ou anti feministas - uma mulher tinha poder se efectivamente possuísse poder material seu - não do marido ou companheiro, nem concedido por ele. Se tivesse onde se agarrar ou para onde voltar. A beleza, o fascínio e ascendente que detivesse sobre o marido e/ou os homens à sua volta (no caso, por exemplo, das  maîtresses-en-titre ou cortesãs famosas) a inteligência, até os filhos com que se assegurasse, não valiam nada sem bases sólidas, ou seja, uma família poderosa que a apoiasse (o que não valeu de muito a, por exemplo, Catarina de Aragão) ou algo de seu. 

Sem isso, estava à mercê da paixão masculina (que é caprichosa) e da sua capacidade (ou arte feminina) para a manter viva. Claro que o amor verdadeiro, uma união indissolúvel, tem muito mais que se lhe diga, mas não contemos que cada homem leve isso à letra...

A minha avó, que era a mulher mais feminina, mais tradicional que conheci, dizia sempre, no entanto, "uma mulher nunca deve desfazer-se da sua casa. Deve ter sempre um lugar para onde voltar, não vá o diabo 
tecê-las.". Talvez porque os exemplos de algumas antepassadas estavam bem presentes: quando um marido dominador queria ter o controle absoluto (e não por boas razões) a primeira coisa que fazia era desfazer-se do dote da mulher. Zás, lá ficava ela de pés e mãos atadas. Isto em Portugal, até ao início do sec. XX. Na China Imperial - e mesmo depois - esposas e concubinas tratavam de se agarrar às jóias que pudessem vender, just in case. Porque nunca se sabe. Ou como diz o povo, "hoje estamos bem, mas amanhã vai-se a ver".



 O arrebatamento romântico, a entrega absoluta, tudo isso é lindo...mas há que contar com uma certa fragilidade que se espera sempre que esteja lá. E volto ao que me diziam sempre (e que eu achava estranho quando acreditava, na minha ingenuidade, que as coisas já não eram "bem assim"): os homens, se puderem, dominam. Isto não é necessariamente mau; o mundo anda mal precisamente por culpa de homens que não sabem ser masculinos. Mas como o que é demais é moléstia, às vezes a máxima traduz-se antes em os homens, se puderem, pisam. E se o contraste for muito grande, mais arriscada a dinâmica se torna.

 Por mais feminina, por mais antiquada mesmo que se seja, nunca é bom depender demasiado de ninguém, seja financeira ou emocionalmente. É importante ter presente aquela frase sábia atribuída a Oscar Wilde "everything in life is about sex, except for sex. Sex is about power". A relação mais sincera, mais desinteressada e apaixonada entre um homem e uma mulher tem sempre o seu quê de jogo de xadrez. O ser humano sente uma necessidade inerente e constante de se assegurar, e o ego masculino é frágil. É muito mais fácil para eles se uma mulher não puder arredar pé - o que curiosamente, leva à morte do amor a longo prazo, já que o ser humano deseja sempre aquilo que é de certo modo inatingível.



Digo muitas vezes que as mulheres estão demasiado obcecadas em mostrar-se independentes e mandonas, esquecendo que há muito poder no mistério e na subtileza, na arte tão difamada de "sit there and look pretty" ou seja, de não fazer de chica-esperta. É uma estupidez dizer da mulher que optou por ser dona de casa e mãe, se quer e pode, "coitada! uma rapariga tão inteligente agora vai ser tratada como um troféu!". Mas os receios têm uma razão de ser: é a tal dúvida do "nunca se sabe". 

 Ou seja, quando um homem muito confiante e/ou poderoso escolhe uma mulher por ser um bom complemento para ele - porque a acha linda, espirituosa, capaz de o apoiar e fazer boa figura- há o risco (antiquado, pateta, mas um risco) de, com o hábito, começar a vê-la como uma espécie de ornamento, pela velha lógica "a familiaridade gera a falta de respeito". De se centrar no lado superficial e funcional da relação. A dada altura, pode ter infinita confiança nela para tratar de tudo o que se refere aos aspectos mundanos, mas desconfiar dela no resto porque afinal, se ele se encantou com ela outros poderão sentir o mesmo. Pode ficar cego para as qualidades do seu carácter



Face a um ressentimento- daqueles que são normais em qualquer relação - o facto de ele ser o elo mais forte pode levar a um distanciamento emocional, a uma frieza que gera o mal que tenho visto em muitos elegantes casais: cada um entretém os convidados para o seu lado, mas já não olham um para o outro, já não conversam um com o outro e em privado, alfinetam-se. Não é que deixem de se amar, mas é um amor bastante doentio e retorcido. O homem remói lá consigo as suas queixas, não trata a cara metade lá muito bem, e a coitada vai suspirando e encolhendo os ombros, definhando um bocadinho por dentro. Se ela não tiver bastante energia para velar por si própria, pode mesmo acabar num papel muito ingrato - "acachapada emocionalmente", para usar uma metáfora-  isto se tudo correr pelo melhor.

 Logo, eu não sei se Sara faz bem ou mal em não seguir o marido, nem tenho rigorosamente nada a ver com isso. Mas concordo que queira manter uma parcela de território só seu na sua vida. Um santuário emocional e material, um plano de contingência que é válido e útil por mais fervorosamente que se creia em "até que a morte vos separe". Sem isso, até o "viveram felizes para sempre" se torna demasiado bom para ser verdade.



4 comments:

Lingua Afiada said...

Nada contra em ela zelar pela sua carreira e espaço, mas não gostei nada que dissesse que Portugal é pior em quase tudo que Espanha e que tratasse com desdém a cidade do Porto.

Imperatriz Sissi said...

Penso que já se veio adiantar que isso é especulação, que ela não disse textualmente isso. No entanto, a ser verdade, ela é que perde!

Bryan Silveira said...

Fácil de perceber que este é um texto escrito por uma mulher...
Bem escrito mas nota-se a tal tendência feminista da coisa.. ou seja...
Começa inicialmente com... " e não vale a pena estar com hipocrisias, nem filosofias, nem argumentos feministas ou anti feministas"
E depois leva o texto todo a dizer, que os homens querem dominar, que os homens são inseguros, que os homens isto e aquilo e as mulheres coitadinhas... blá blá blá...
Só críticas ao Homem, não ví uma única crítica à mulher... não é estranho? Ou estaremos perante o "SER PERFEITO" ?
Em tempos era o homem procurava o 8 e hoje a mulher não procura o 40, procura o 80!
Entendam que não há um modelo certo e exato, cada pessoa é feliz como quer.
Se há coisa que eu não entendo é mesmo essa imagem da coitadinha da mulher... ainda por cima na atualidade!
Olhe, já que os homens gostam muito de futebol, enquanto andam a correr atrás da bola, lá andam muitos destes seres femininos nas bancadas, vestidos "à moda" a ver se dão nas vistas pra ganhar mais uns trocos.. ou aparecerem como vieram ao mundo numa capa de revista.. Coitadinhas!
Se querem respeito, e não querem ser generalizadas não generalizem o Homem como o mau e a Mulher como a coitadinha!
Pois até acho muita piada, às mulheres que querem direitos iguais e depois defendem o cavalheirismo.. Supostamente não deveria existir... correto?
A teoria dos direitos iguais veio para o que convém, não veio para tudo... ainda gostava de ver por exemplo a mulher virar-se para o homem e dizer... "deixa estar... eu levo isso porque é mais pesado!"
Que a mulher é inteligente isso já eu sabia, espero é que os homens não adormeçam nesta cantiga.
Sou 100% a favor dos direitos iguais, mas para tudo, não é só para o que convém!

Mas pronto, relativamente à composição do texto, está bem conseguido, parabéns, quanto à mensagem do texto... não coloque o Homem que não "presta" de uma forma geral, e as "Mulheres" as coitadinhas da História...
Quanto ao resto...cada um tem o seu direito e prioridades na sua vida, o casal tem idade suficiente para decidir-se por si. Embora a expressão "UM casal" começa a extinguir-se neste planeta... seres cada vez mais preocupados consigo do que com o outro, quando deveria ser cada um a preocupar-se um com o outro e aí sim, haveria a química de casal.

Imperatriz Sissi said...

Oh Bryan, nota-se bem que não é frequentador habitual cá do salão. Logo eu, feminista? Já têm dito que o blog tem umas ideias machistas ou antiquadas, agora essa é novidade. Convido o a dar uma volta por outros posts. Verá que sou tão ou mais rigorosa com as mulheres, aqui há igualdade nos direitos, deveres e puxões de orelhas. Em tudo o resto, sou pelo cavalheirismo, feminilidade e dignidade feminina. A mulher, um ser perfeito? Talvez nesses portais novos que há agora é dizem o que o mulherio quer ouvir. Aqui não. Há homens que abusam, há mulheres que nos envergonham a todas, e aqui fala se de tudo com realismo.

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