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Wednesday, July 8, 2015

Duas princesas "feias" (mas lindíssimas por dentro)


A beleza (ou a fealdade) é uma coisa bastante relativa. Embora seja hipocrisia negar os padrões ou ideais eternos  e a existência de certos conjuntos de características que apelam naturalmente aos olhos desde que o mundo é mundo (é frequente as crianças muito pequenas, cuja sensibilidade estética ainda não está formatada, sentirem-se impelidas para as pessoas consideradas "bonitas") há que ter em conta que até certo ponto, o que é belo varia de acordo com as preferências, as circunstâncias, as culturas, as modas e as épocas. Há traços de beleza intemporais e/ou universais, outros que variam.

No tempo dos Tudors, por exemplo, um nariz comprido não desfeava ninguém, mas uma pele ligeiramente bronzeada ou um nariz de batata podiam complicar muito as perspectivas matrimoniais de uma jovem; mais recentemente, durante a Belle Époque, embora algumas beldades do tempo arrasassem qualquer passadeira encarnada dos nossos dias, outras senhoras louvadas pela formosura possuíam um rosto demasiado cheio, com um ligeiro "duplo queixo" que actualmente seria causa de muitos desgostos!

Os franceses, povo muito sábio nestes aspectos, costumam dizer "nenhuma mulher pode ser verdadeiramente bela se não for, por vezes, verdadeiramente feia". E se olharmos para algumas modelos e actrizes famosas com atenção, veremos que é exacto: os traços mais marcantes, mais exóticos, ainda que muito harmoniosos, podem parecer estranhos ou exagerados sob determinado ângulo ou luz.

 Depois temos o carisma, o encanto, o sex appeal, que não são tão mensuráveis. Há mulheres desengraçadas que ninguém se lembraria de designar como feias, porque são dotadas de outras qualidades: elegância, estilo, espírito, meiguice, bondade...e raparigas muito bonitas que parecem totalmente apagadas...ou que se tornam mesmo antipáticas e repulsivas se o interior não corresponder. Tal como há muitos homens bonitos por aí com tanto charme como um cepo ou uma abóbora crua...

 "Nenhuma mulher pode ser verdadeiramente bela
se não for, por vezes, verdadeiramente feia
"

A fealdade plástica mais flagrante só é irremediável se vier acompanhada de maldade, falta de jeito, preguiça, depravação e uma certa dose de estupidez. É o velho mal da fealdade "double face", por dentro e por fora, que felizmente é raro. Conheci uma mulher exactamente assim: sofria do complexo "as raparigas feias têm de se esforçar o dobro para não acabarem sozinhas" por isso era a coisa mais atiradiça, mais devassa que já se viu - e o que é pior, tentava roubar os namorados das outras, agarrando "paixões" mal um rapaz lhe dizia olá. Era feia, inegavelmente - sem pescoço, narigão adunco, olhos descaídos e pequenos, queixo retraído, dentes encavalitados, um rascunho de Picasso mal sucedido, fora a figura mal feita. Fazia lembrar a Ciutazza do Decameron. Salvava-se o cabelo, que era bonito.

E no entanto, estes traços desafortunados podiam passar por outra coisa - por um perfil aristocrático, até - ganhar um certo encanto,  se não fosse o olhar parado e cobiçoso, a expressão aparvalhada e maliciosa a tentar ser "sensual", o descaramento e as asneiras de fazer corar um carroceiro que bradava e escrevia...

    Isto para dizer que a beleza da alma pode embelezar o resto. Será mesmo justo arriscar que se a alma não for bonita, contamina o exterior mais cedo ou mais tarde.

 E como a beleza, ou a falta dela, não escolhe berços, houve várias meninas do mais elevado estatuto que sofreram bastantes dissabores por não corresponderem à norma. O que era particularmente sério nos tempos em que viveram, quando o poder e o sucesso de uma mulher dependiam muito mais dos seus dotes físicos do que hoje. Algumas, como Catarina de Medici, deixaram-se amargurar por isso, vingando-se em intrigas palacianas; outras, como Santa Joana de França e Carlota Isabel da Baviera, voltaram-se para o seu interior, que era belíssimo, ganhando assim um lugar na História.


Joana de Valois, filha de Luís XI, teve uma infância infeliz: sendo a terceira rapariga numa família ainda sem herdeiro varão, o pai, que não era um prodígio de sensibilidade nem de inteligência, não lhe ligava nenhuma. A mãe, a Rainha Carlota, estimava a pequena frágil e enfermiça, mas não se atrevia a demonstrá-lo por medo do marido: a princesinha (que olhando para os retratos, teria mais de tímida e achacada do que de feia) cresceu assim num castelo sombrio, entregue a tutores. Isolada, sem carinho, Joana desenvolveu muito cedo uma intensa vida espiritual e por sua vontade teria passado a vida num convento, mas o pai não consentiu. Em vez disso, arranjou-lhe um casamento muito mal pensado: o noivo escolhido era um primo, o belo, alegre e popular Luís, Duque de Orleães (futuro Luís XII de França).


 Apesar de pouco confiante na sua capacidade para conquistar o coração do marido, Joana sentiu-se deslumbrada por ele. Porém, depressa se desenganou: Luís abandonou-a na própria noite de núpcias e não perdia a oportunidade de a humilhar em público. No entanto, o carácter de Joana nunca se azedou: à indiferença e crueldade do marido, respondia com a mais doce resignação, o que o irritava mais ainda.

 Mal se sentou no Trono, pagou-lhe a devoção conseguindo junto do Papa Alexandre VI  que o casamento fosse declarado inválido, por não ter sido consumado nem contraído por vontade própria - e apressou-se a casar com a cunhada, Ana da Bretanha...que aos 21 anos ia no terceiro casamento e era amiga de Joana. Obediente e boa como tinha sido sempre, a infeliz aceitou esta punhalada com a mesma seráfica paciência: foi então feita Duquesa de Berry e retirou-se para Bourges, onde viveu calma e santamente, governando o seu território e acudindo aos necessitados. Nunca esquecendo o fervor religioso, fundou a Ordem da Anunciação em 1500, pedindo que fossem rezadas contínuas orações pelo ex marido. Apenas retirou a aliança no fim da vida, antes de tomar votos e vestir o hábito. Só aquando da sua morte, aos 40 anos, Luís se comoveu, mandando que fosse sepultada com honras de verdadeira Rainha. Joana foi beatificada em 1742 e canonizada por Pio XII em 1950.


Já Carlota Isabel da Baviera, conhecida por Liselotte - que curiosamente, também casou com o Duque de Orleães, Filipe, mas em 1671- tinha uma forma totalmente diferente de estar, e encarava a sua "fealdade" com boa disposição. Sem se ralar, dizia de si própria: "tenho de ser feia por força, com os meus olhinhos pequenos, um nariz que mal se vê, lábios sem desenho e feições sem carácter..." e continuava por aí fora, troçando de si mesma de modo demasiado rigoroso, já que parece bem bonitinha nos retratos "sou gorda e mal feita, em suma, sou um estafermo...".


Esta franqueza excessiva tinha a ver com a sua educação algo desvairada. Alegre por natureza, Liselotte, cujos pais não se entendiam, crescera como uma perfeita maria rapaz, e desenvolvera os modos de uma pequena selvagem: chegava a bater nos criados que lhe ralhavam por trepar às árvores e comportar-se de um modo pouco apropriado à sua condição...
 As maneiras rudes e um pouco masculinas, destituídas de graça senhoril, não deixavam porém de ganhar a simpatia dos que a rodeavam, pois eram acompanhadas de lealdade, de um espírito que divertia quem estava por perto e de um óptimo carácter. Protestante, não se opôs a converter-se ao Catolicismo (aprendendo o catecismo em 20 dias!) por um marido que nem sequer conhecia.


E apesar da vaidade do esposo - que nisso, era o oposto dela, passando o tempo a arrebicar-se e a comer bombons, enquanto Liselotte preferia a comida sã e a cerveja da sua terra - o casal entendeu-se bem. Liselotte, que se revelou uma mãe extremosa, fez muitas amizades na corte do Rei Sol com quem, aliás, tinha excelentes relações. Apenas cultivava na corte um odiozinho de estimação: Madame de Maintenon, a quem, com os seus modos desabridos, alcunhava de todos os nomes que lhe vinham à cabeça, de "bruxa" a "velho farrapo"! Mas até com essa viria a reconciliar-se...
 O seu sentido de humor também transbordou para a escrita, que era mais abundante do que perfeita: a Princesa deixou numerosas cartas que hoje são uma preciosidade para os historiadores: ora em francês, ora em alemão, bastante trapalhonas na gramática e recheadas de duras críticas a este e aquele e anedotas um tanto grosseiras...mas que encantam pela vivacidade e pitoresco e permitem fazer uma ideia de como era a vida na corte de Luís XIV.





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