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Monday, July 6, 2015

É o corpo que se deve adaptar à roupa, ou o contrário?


Provas de Jacques Fath (1951) Madame Grés (1940s) e Givenchy (1952), via

Quando se olha para roupa (e consigo ouvir a minha avozinha reclamar comigo, num tom muito engraçado: é só roupa! roupa! roupa!) com olhos do ofício, mas também com olhar atento de consumidora, reparam-se em certos aspectos que podem às vezes passar ao lado.

Digo muitas vezes: tivesse eu a oportunidade de criar uma colecção que (olha eu a sonhar) fizesse sucesso, como facilitaria a vida às mulheres! Porque ao comprar ou recomendar, me foco sempre mais naquilo que é útil, naquilo que poupa complicações e inseguranças, no que resulta, favorece e funciona, no que impressiona discretamente (bem dizia Coco Chanel, quando uma mulher está mal vestida reparam na roupa; quando está bem vestida, reparam na mulher) do que na originalidade gratuita.

Porém, essa busca constante - tantas vezes desesperada - por dar nas vistas, pela criatividade, pela novidade, pela originalidade - é a causa de muita dificuldade para as clientes...e da perda de identidade de algumas marcas.

A novidade é importante, a originalidade também...mas a boa originalidade está, tantas vezes, mais na beleza do corte, no primor dos detalhes, do que nos enfeites e exageros, nas transparências e recortes!


Balmain

 Embora certas fantasias resultem nos editoriais ou na passerelle, quando toca à realidade as roupas que perduram são as que se podem vestir uma e outra vez, usar a noite inteira confortavelmente, sem erro. As colecções que fizeram história, as peças que fizeram um nome, respeitavam não só o desejo feminino de elegância e beleza, mas também- de diferentes modos - as necessidades das mulheres.

 Chanel possibilitou-lhes o conforto que desejavam para a vida activa. Christian Dior, por seu turno, respeitou e enalteceu as curvas femininas. Ele era  um grande adepto da "arte do disfarce" e da ideia realista e prática de que nenhum corpo é tão perfeito que dispense, para obter a desejada harmonia, pequenas "ilusões de óptica" que cabem à arte da costura!


Dior, nos anos 1950 e actualmente. Embora a qualidade se mantenha
 e seja preciso dar desconto às tendências, o cuidado com o fitting já não parece por vezes ser o mesmo.


Nos nossos dias, há tanta liberdade criativa e tantas opções (para não mencionar que mesmo com etiqueta de luxo, as coisas já não são, frequentemente, o que eram)  que esse conhecimento é posto muitas vezes nas mãos de stylists, capazes de interpretar e colocar a favor das clientes ou modelos as criações dos designers. Mas quem não tem um stylist - ou contratou o profissional errado - precisa de muito bom senso para não se deixar guiar mal pela imaginação ou pelo desejo de consumo.

 Autores como Eça de Queiroz criticaram muitas vezes as roupas do seu tempo, que sufocavam as formas naturais, contrapondo a beleza do modelo grego: mente sã em corpo são, e roupas que acompanhavam a silhueta em vez de a transformar.

Não estou totalmente de acordo com isto, até porque nem toda a gente conseguirá, por mais que se esforce, uma figura tão correcta que um simples vestido solto caia bem. Mas quando ouço mulheres dizer "fiz uma operação ao peito para poder usar aqueles vestidos sem costas" acho que se chegou a um distanciamento enorme entre moda e ergonomia. 

Até porque, com implantes ou sem, não há-de ser confortável abusar de roupas sem qualquer suporte. Quando penso nisto...acho que os espartilhos estão mais que perdoados, goste-se ou não deles (eu gosto, embora andar assim todos os dias tem que se lhe diga). Mal ou bem, podiam forçar um pouco a figura, mas mantinham-na no lugar e tinham o intuito de a favorecer para que a roupa "de fora" caísse como devia. Agora o mais comum é vestir-se um farrapito - as mais sensatas usam um spanx por baixo - e fé em Deus!


Rita Ora (em Donna Karan) pouco pano, pouca costura.

 E desde que na adolescência me interessei mais a fundo pela indústria de moda, isto sempre me pareceu estranho. É certo que há- e convém que assim seja - roupas criadas a pensar em todos os biótipos femininos. Mas não considerar as necessidades de um corpo em movimento (não um manequim de montra, com os tecidos devidamente puxados no sítio com alfinetes e fita adesiva), de um corpo que tem curvas e cintura (sejam mais acentuadas ou menos) e atirar-lhe simplesmente pano para cima, esperando que tudo corra bem, é utópico.

 Ora, isto vê-se todos os dias; e afecta especialmente quem não dispõe de recursos ilimitados para escolher a dedo cada peça nas marcas mais habilitadas para a fazer, ou pelo menos de conhecimentos aprofundados e vagar para procurar nos lugares certos a bons preços. É fantasioso crer que cada consumidora, ainda que possua meios, comprará rigorosamente vestidos clássicos Dolce & Gabbana, casacos Max Mara, e assim por diante. Ou mesmo que se dará ao trabalho de levar à costureira tudo o que compra (hábito muito recomendável) pois mesmo que o faça, se a peça for inadequada à partida, pouco remédio há.

As senhoras que encontram mais desafios devido à sua figura e/ou tamanho, mais dificuldades têm. Já aqui se falou na falta de bons básicos nas lojas comuns, mas o problema afecta todos os segmentos...

 Embora ninguém espere detalhes de Alta Costura no pronto a vestir, mesmo nos melhores, bastaria que as colecções fossem desenhadas para a realidade das mulheres - pois reais somos todas, e mesmo uma modelo não aguenta correr de top "cai cai" para cima e para baixo  um dia inteiro.


Oooooops! 

Sem ergonomia, não pode haver elegância. Então com se explica que numa colecção, haja muito mais vestidos de alças finas (que não permitem usar a devida roupa interior, e não me venham atirar areia para os olhos com os soutiens sem alças, que são um triste remedeio, ou com os de apertar no pescoço, que provocam dores nas vértebras se usados por mais de duas horas) do que vestidos normais, quando bastaria colocar alças de 5 cm de largura para que nada se visse por baixo? Ou que os vestidos de noite sem costas apareçam sempre, mas os modelos mais favorecedores, simples de vestir e manter toda a noite no lugar, com um decote bonito, sejam um sarilho para encontrar?



Este vestido da Mango é o tipo mais fácil de encontrar
 quando se  procura um modelo "clássico", adequado para o emprego.

 Que - mesmo nas secções de "roupa para o escritório" - as saias sejam quase sempre muito acima do joelho, o que não é apropriado, nem democrático para todas as idades e pernas? Que seja facílimo comprar tops de manga curta, mas muito mais complicado achá-los com manga a 3/4? Ou que as saias sejam tão largas na cintura que, a não ser que uma mulher as ajuste à medida ou fique quieta todo o dia, acabe inevitavelmente desfraldada? Para não falar nas roupas mal forradas, ou de tecidos que se está mesmo a ver que vão realçar o que não devem. Problemas que afectam todas as mulheres, de todos os tamanhos, rectângulos ou ampulhetas, pêras ou triângulos, altas ou baixas, ricas ou remediadas, bonitas ou nem tanto.

Imaginem agora uma senhora gordinha, sem grande informação nem recursos, a ir às compras: a não ser que tenha muito sentido estético e muito amor próprio, optará pelas peças em que consegue caber e em que se sente minimamente à vontade. E o resultado é desastroso, já se sabe.

 Meia dúzia de truques simples de alfaiataria, não necessariamente caros, resolveriam todos estes problemas. Era uma questão de banalizar a roupa bem feita, bem pensada, fácil e agradável de usar. Se vemos tantas mulheres mal vestidas, tantos braços de lavadeira à mostra, tantos "rolos" e gordurinhas por baixo das blusas, a culpa não é só do mau gosto das pessoas. É que quem faz as roupas, que tem obrigação para as desenhar e confeccionar como deve, descuida muitas vezes o seu papel de embelezar e educar a sociedade. E mais importante, de lhe facilitar a vida...








4 comments:

Cris said...

Sissi, só lhe tenho a dizer o seguinte: tem aqui uma cliente em potencial para a colecção que criar! Principalmente no que a vestidos adequados para o emprego diz respeito. Quanto aos tops de manga 3/4, tento comprar tops simples de algodão de manga comprida (breton stripes para que vos quero), e alterar as mesmas. Não sendo ideal, é até bastante fácil para quem está mais para remediada do que para rica (e dá sempre jeito treinar habilidades com a máquina de costura).

Paula said...

Quantas vezes experimento roupa e apesar de me "servir" deixo-a na loja.
O mau corte, ser demasiado curto, etc não são desculpáveis.
vidademulheraos40.blogspot.com.

cec said...

descuida muitas vezes o seu papel de embelezar e educar a sociedade. E mais importante, de lhe facilitar a vida...


O problema não é o descuido mas sim o cuidado que é posto em ganhar dinheiro fácil: mulheres em dificuldades é o mesmo que mulheres infelizes e frustradas com a sua imagem / os seus produtos no armário; e mulheres infelizes são mulheres que consomem mais... a deseducação e banalização enriquecem muita gente ( os grandes imperialistas e ditadores de séculos passados comparados com os dos sec XX e XXI são uns anjinhos!)

Imperatriz Sissi said...

@Cris, vou pensar nisso, quem sabe? Esse é um bom truque; infelizmente sei muito bem mandar fazer as coisas como quero, mas nunca peguei na máquina. Um dia ainda me atrevo...

@ Paula, é uma coisa tão desnecessária. E os que são rés vés campo de Ourique pelo joelho, mas encolhem na primeira lavagem e zás, mini saia forçada?

@cec, nunca tinha pensado sob esse ângulo. É um pouco teoria da conspiração, mas não digo que não haja verdade nisso. Quem não gosta da roupa que tem e anda mal informada, vai de comprar mais. Nesse caso, a minha marca maravilhosa iria à falência :D

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