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Monday, July 13, 2015

Em defesa do direito a condenar o mau gosto


Ontem encontrei uma belíssima crónica, a levantar (ou ressuscitar) um ponto de vista inestimável e que vai ao encontro do que discutimos aqui há dias: o velho, quase extinto hábito de temer o mau gosto. Ou antes, de evitar certas coisas apenas por ser de mau gosto fazê-las, mostrá-las, dizê-las ou usá-las.

Vou explicar um bocadinho melhor, que o conceito é subtil e muito velho: antigamente, se muitas pessoas não se abstinham de proceder mal, de cometer excessos ou de magoar os outros por bondade, medo, integridade, amor à saúde, moral ou decência, abstinham-se porque fazer tais coisas era de mau gosto e podia ser danoso para a sua reputação.

 E as que não prescindiam dos seus pecadilhos...procuravam pelo menos prevaricar discretamente. Era o velho "ao menos estão salvas as aparências!" que poupava muitos desgostos, aborrecimentos e maus exemplos mas actualmente é descartado como hipocrisia.

 Noutros tempos, para que se fugisse de cometer certos actos, não era preciso serem ilegais ou simplesmente pouco éticos: bastava serem de mau gosto para se pensar duas vezes. A autora exemplifica mencionando o romance A idade da inocência, que se desenrola na boa sociedade nova iorquina de 1870, no seio da qual o bom gosto era um bem maior. 



 Os actos eram julgados mais severamente por serem reles do que pelas suas consequências.

Ora, nem a cronista nem eu defendemos que as aparências salvem tudo, ou que contem mais do que a verdadeira conduta. Quem bem prega mas cai em baixezas é um veneno, sobretudo para si próprio. 

 No entanto, não devemos desconsiderar o peso do mau gosto, nem de o apontar como razão válida para descartar o que for preciso.


Um acto pode não ser errado, ilegal ou criminoso, mas ser reles. Uma pessoa pode estar no seu direito de o cometer (o velho "não devo explicações a ninguém"), mas não deixa por isso de ser deselegante. Pode ser moral ou eticamente difícil de definir ( já que os costumes andam de tal maneira pelas ruas da amargura que há quem trate o certo e o errado como mera questão de opinião) mas inquestionavelmente chinfrim. Constituir, em suma, algo de feio e desagradável.



A fronteira do bom gosto, daquilo que ultrapassa o razoável e não choca os demais, é um bocadinho mais acessível do que a Lei, a Moral, a Ética ou a Obrigação porque fala directamente à consciência e à dignidade pessoal de cada um. 

Se por vezes se pensasse "o que é que fazer isto diz de mim? Será que estou a proceder com honra e dignidade, ou estarei a ser reles? Estarei a fazer uma coisa feia, deselegante, baixa?" evitavam-se muitos aborrecimentos e até questões graves...

 Por outro lado, não saiu nenhuma lei que impeça cada um de condenar em boa consciência o que é de mau gosto com base apenas nesse argumento, ou que obrigue à conivência com o vulgar...é uma liberdade como qualquer outra na época de todas as liberdades.


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