Recomenda-se:

Netscope

Thursday, July 30, 2015

Lição de 1905: beleza sem isto é perigosa.

 


Esta semana veio ter-me às mãos outra remessa cuidadosamente seleccionada dos livros que mais me agradam e que ando sempre a caçar - velhinhos e cheios de conteúdo, do tempo em que era seguro entrar numa livraria sem sair de lá com uns neurónios a menos, com ideias quaestionáveis e muitas dúvidas de gramática, estilo e ortografia. 

Alguém se há-de ter desfeito da vasta biblioteca do avô ou tio, um tal Sr. Azevedo que possuía volumes e mais volumes sobre religião, ciência, história e costumes em pelo menos quatro línguas e comprados entre 1930 (embora alguns fossem mais antigos; as dedicatórias lá estavam) e 1970 e pouco. Trouxe uma caixotada deles, pensando com amizade no desconhecido Sr. Azevedo, essa alma irmã cujos herdeiros não teriam grande apreço pela sua cuidadosa escolha de leituras...coisa assaz estranha. Desde pequena adorava virar do avesso os livros que o avô, que não conheci, deixara lá em casa, e ainda guardo a maior parte. Com muita pena minha, perdi a edição de Jane Eyre que a avó adorava e que me recomendou. Foi a minha primeira introdução às irmãs Brontë.

Por respeito ao Sr. Azevedo, esperemos que as suas netas e sobrinhas não se regalem a ler asneiras! Mas não apostava...

Adiante; entre os que trouxe comigo, estava um encantador livrinho de contos italiano, pretendendo ser um estudo da psique da mulher: Psicologia Feminina -A proletária- A burguesa- A aristocrata, de Paolo Mantegazza, Florença, 1905.


Depois de introduzir a obra com o aviso "às mulheres de hoje, para que nos preparem a mulher do futuro" de dissertar deliciosamente sobre a mulher do seu tempo e de tecer algumas considerações proféticas sobre a opinião que os leitores de épocas vindouras teriam sobre o seu livro-documento (voltarei a isso noutro post, com certeza), o autor lança-se então na análise  de mulheres de todos os cantos da sociedade.


 Achei particular graça a este trecho de uma das estórias, sobre uma rapariga lindíssima:

"A nossa rapariga lia no rosto dos homens todos esses desejos, dos quais media a força, descobria a direcção e interpretava a origem. E sem o ter aprendido com pessoa nenhuma, a não ser com Eva dos tempos remotos, sabia, com o olhar e com o sorriso, sem palavras, aquecer os desejos muito frios e friar os muito ardentes (...) aquecendo e regelando, mas espalhando sempre pelos sulcos das almas as sementes subtis e infinitas da esperança. Nesta arte as mulheres muito belas, que devem quase sempre e necessariamente ser loureiras** empregam uma diplomacia de tal ordem que bastaria para imortalizar muitos estadistas."

 E atrevo-me a dizer, fazendo a vontade ao autor que muito curioso estava sobre a opinião das mulheres do futuro: ai da mulher, bonita ou feia (mas se for bela, pior ainda) que não possua esse dom instintivo, de auto domínio e de controle sobre as emoções que provoca nos outros. Sem o golpe de vista, carecendo da capacidade de ler os rostos alheios e de gerir estrategicamente as reacções que causa, a mulher torna-se uma presa fácil, uma vítima dessa "primeira divindade" que é a formosura...


**NB- loureira: Sedutora; que faz por agradar.



No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...