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Tuesday, July 7, 2015

Mixórdia de morais: que lições ensinam a cake art, Freddie Mercury, Kanye West e Santa Catarina de Siena?




1- Um amigo partilhou este engraçadíssimo vídeo - haja dom para a edição, senhores! - de Kanye West a assassinar Bohemian Rapsody...e de como seria a reacção do meu adorado Freddie Mercury, caso estivesse entre nós para ouvir o sacrilégio. Ora, a brincar se ensinam lições valiosas...Mr. West é um compositor de talento. Pode ser um parvalhão, um malcriado, um inconveniente de primeira que não sabe estar e casado com uma Kardashian, mas mérito ninguém lhe tira. É também, suponho, um rapper de gabarito ou pelo menos, um rapper de sucesso. O que estraga tudo é ser metediço. 



Querer dar passos maiores do que a perna e achar que, mexendo cordelinhos e movendo influências, será aceite e louvado em áreas que não são a sua. É na indústria de moda, que quer porque quer tomar de assalto e agora, na divina música dos Queen. Se ele tentasse rimar, sei lá, Another One Bites the Dust, acredito que resultasse lindamente. Gostava de ouvir, palavra, sem ironia alguma. Mas Bohemian Rapsody? Já agora, porque não Love of My Life dedicado à Kimmizinha? Só faltava essa. E que nos demonstra isto? O valor da modéstia. É que é impossível ser fantástico em tudo. Quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré... mas até podemos ser fantásticos jacarés numas coisas e simples lagartixas noutras, por vezes em áreas bastante próximas. Há quem faça bolos do outro mundo e seja um desastre nos outros cozinhados. É a vida. Não é preciso transformar todas as fraquezas em forças. Basta ser muito bom numa coisa ou duas, não se pede mais...

2 - E por falar em bolos, um bolo de aniversário que era para ter a cara da Princesa Elsa, de Frozen, saiu esta coisa de meter medo. Espero que o bolo fosse saboroso, porque isso da cake art está muito na moda, mas tem bastante que se lhe diga. Antes da cake art estar na berra e de toda a gente se armar em pasteleira, antes das redes sociais, já se faziam bolos muito engraçados. O primeiro de que me lembro foi um palhaço giríssimo na festa de anos do meu primo (eu tinha dois anos, mas lembro-me como se fosse hoje, don´t ask why). Pessoalmente achava mais piada a comer as rosas do bolo do que aos ditos, mas fiquei encantada com ele e chocadíssima quando ao cortar o pastel, zás- começaram logo por decapitar o boneco. Pimba, uma facada no pescoço. Nunca mais quis bolos em forma de coisa nenhuma, mas lembro-me de o de um amigo que era em forma de campo de futebol, com coco tingido de verde a  fingir de relvado!



  O pior, porém, estava por vir: o senhor mano sempre adorou carros, especialmente muscle cars. E os pais, querendo fazer-lhe uma surpresa na festa de anos, encomendaram numa boa pastelaria da cidade um bolo admiravelmente executado, em forma de "Kit" ou de Lamborghini. Um carrão preto que era um encanto. Ficámos todos admirados com aquela  beleza de bolo, e muito curiosos para descobrir a que saberia a "pintura" do carro. Seria chocolate? Seria groselha? Seria...coisa nenhuma. Alguém se esqueceu de pôr açúcar naquela obra de arte da pastelaria ou não sei, mas nunca provei porcaria tão insípida. Ficámos tão desconsolados que o bolo nem foi retratado, logo não vos posso mostrar. E a moral da história? É que na pastelaria, como em muita coisa na vida, a apresentação, a beleza, o aparato, as maneiras, o esplendor, o prestígio contam bastante. É irrealista dizer o contrário. Mas se não forem acompanhadas de conteúdo genuíno e qualidade, nada feito. 

3 - Quem nasceu num país Católico toda a vida ouviu, quanto mais não seja por hábito, que é preciso perdoar os desafectos, ser melhor do que quem nos faz mal, dar a outra face e rezar por essas alminhas a ver se se arrependem, etc. Tenho para mim que essa é uma das lições mais difíceis de pôr em prática (e a que por isso mesmo,  mais pessoas varrem para debaixo do tapete; face à fúria, que às vezes é legítima, a maioria dirá como aquele padre de O Crime do Padre Amaro, "qual Cristo, qual cabaça!" e vai de não só dar o troco, como fazer trinta vezes pior sem pensar duas vezes). 

No entanto, em muitas situações, não dar importância e desculpar a doidice é mesmo a melhor coisa a fazer; há pessoas tão empedernidas, tão malvadas, que antes vale "matá-las com gentileza" porque quanto mais avisos ou bolachadas se lhes dá, mais enfurecidas ficam. 
Mas claro que esse é um remédio complicado, pois muitas dessas criaturas, por mais mostras de boa vontade que recebam, não desistem. Principalmente se forem pessoas invejosas, que em vez de ficarem contentes, pensam "olha esta, armada em superior!". Há que ter paciência, como Santa Catarina de Siena. Se bem que nesse caso, o "matar com gentileza" foi levado um bocadinho à letra (sem culpa da Santa, óbvio). 
 Havia uma irmã da Ordem Terceira chamada Palmeirinha que em vez de se inspirar nos méritos e sabedoria de Catarina, lhe tinha um rancor de morte. Invejosa, levantava contra a futura Doutora da Igreja toda a espécie de calúnias. A Santa, coitada, via a sua paz em risco por essa injustiça, mas que fazer? Rezava por ela. E como Palmeirinha cada vez se portava pior, rezava que rezava. 

Talvez porque as boas intenções caíam em saco roto, talvez porque Deus trabalha de maneiras misteriosas, como se costuma dizer, Palmeirinha ficou doente (alguns autores dizem que o Céu lhe castigou o corpo para lhe curar a alma). Catarina ficou cheia de pena e foi para casa da inimiga fazer-lhe de bondosa enfermeira. Claro que a outra mais zangada ficou e pô-la na rua!
  Como castigo, a doente entrou em agonia sem possibilidade de receber os sacramentos  e Catarina, receando que ela morresse e fosse para o inferno, fez o que qualquer santa faria: redobrou as orações e penitências para que ela recuperasse a saúde, ou pelo menos se redimisse caso o pior acontecesse. Palmeirinha lá se arrependeu e morreu na paz do Senhor, e Santa Catarina, que era mística, viu a sua alma subir ao céu muito brilhante, com uma beleza indescritível. 
 Isto dá que pensar que a reconciliação é bem melhor do que a vingança, que embora possa ser justa, a Deus pertence pois a dos homens é quase sempre exagerada e tem mais de mesquinhez que de justiça. Se bem que uma história destas dá algum medo de rezar por gente mazinha...uma bofetada causava menos dano! Then again, como pouca gente terá os méritos de Santa Catarina acho que é seguro querer bem aos inimigos, sem risco de matar gente por aí.





1 comment:

Lingua Afiada said...


Quando era mais nova ninguém se podia meter comigo porque iria pagar em triplo, era extremamente vingativa. Depois à medida que amadureci lá percebi que isso não me trazia nada de bom e forcei-me a não guardar rancor e a abandonar os planos de vingança. Se bem que com isso acho que perdi parte da minha inteligência emocional já que estava sempre a prever as consequências de tudo e isso obrigava-me a uma ginástica mental constante e a estar sempre atenta a tudo.
Por outro lado deixei de dar importância a pessoas que não têm qualquer relevância para a minha felicidade, além disso às vezes é, como dizes no texto, uma dose de gentileza desarma muita gente. Mas enfim em certos casos não temos outro remédio que não seja dar-lhes uma dose do próprio veneno, já que por melhor que tentemos ser a pessoa arranja sempre forma de nos fazer mal.
Inveja nos dias de hoje é um sentimento demasiado comum que afasta as pessoas umas das outras.

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