Recomenda-se:

Netscope

Thursday, July 30, 2015

Mulheres que têm a carapuça, vestem a carapuça, mas depois não lhes dá jeito a carapuça.


Amy Schumer é uma dessas comediantes americanas todas modernaças e descaradonas que fazem humor com problemas femininos, às vezes com certa piada (achei muita graça a este vídeo a satirizar a moda pantomineira do #iwokeuplikethis) outras a puxar  para o desagradável ou no mínimo, a exagerar os próprios pontos fracos.

Amy Schumer é uma Bridget Jones da vida, ou pelo menos, pinta-se como tal em muitos dos seus "números" de stand up comedy ou sketches: uma mulher nos seus late thirties, solteira, independente e razoavelmente atraente mas que não encaixa a 100% nos padrões de beleza e troça da própria aparência; um tanto trapalhona e desleixada, sem escrúpulos em sair para beber, arranjar inúmeros casos de uma noite e voltar para casa num bonito estado.

Em suma, a cómica veste a pele de uma ganda maluca e usa isso no seu trabalho em embaraçoso detalhe, relatando para a audiência como dormiu com este e aquele de forma bastante (autobio)gráfica. E agora utilizou a mesma ideia para o seu último filme, Trainwreck ("descarrilamento" ou "fora dos eixos") em que a sua personagem, também chamada Amy, leva exactamente esse estilo de vida.


Façamos aqui um parêntesis: cada uma vive a sua vida como entende. Se não for discreta acerca do assunto, quem vê julga como entender - o que não dá a ninguém o direito de desrespeitar outrem, atenção. Pessoalmente, esse comportamento a virar o mundo de patas ao ar só me aborrece porque depois todas as mulheres são medidas pela mesma bitola, o que causa a quem não se comporta assim alguns trabalhos para se fazer respeitar e não ser tratada como doidivanas. Posso não querer grandes amizades com raparigas desse género porque temos pontos de vista demasiado diferentes e não ia funcionar, but to each its own.  

Agora, se uma mulher quer ser um D. Juan de saias, toda escandalosa, ter imensas one-night-stands, praticar o amor livre, enfim, imitar um comportamento que nem num homem cai muito bem, ser uma Samantha Jones da vida real, é preciso uma coisa que em português não tem grande tradução: own it. O termo mais parecido na nossa língua seria, acho,  assumir-se como tal. Ou ter poder de encaixe.

 Ou seja, não temer ser chamada galdéria, desvairada e coisas assim (ou bem que se tem auto confiança, ou bem que não) e mais importante, fazê-lo como a Samantha, que não esperava continuar a aturar as suas conquistas na manhã seguinte. Agora armar-se em perigosa como na cantiga, anda com este- anda com aquele e depois choramingar que se entenderam tão bem e ele nunca mais telefonou, que não arranja uma relação estável, não dá, minhas senhoras.


 Mas foi exactamente isso que Amy Schumer fez: interpretou num filme, cujo guião escreveu, uma valente e sempre bêbeda galdéria (baseada no seu percurso quando era mais nova, segundo a própria). E depois, vá-se lá entender, ofendeu-se toda porque um locutor de rádio, ao entrevistá-la, lhe perguntou "a sua personagem é uma grande perdida, não é?". 

Ora, decidam-se: se são realmente assanhadas, atiradiças, atrevidas, todas moderninhas e desinibidas e ainda por cima fazem questão de o mostrar, não se podem ofender com a mais lógica das associações de ideias, sacar do slut shaming nem da lamúria quando confrontadas com a realidade. 

Das duas, três: ou bem que se é virtuosa à moda antiga, ou bem que se faz trinta por uma linha mas em modo vícios privados, públicas virtudes ou então, bem que se parte a louça toda e se assume o facto, se usa orgulhosamente a carapuça, a Letra Escarlate como rebelde de serviço e campeã de todas as igualdades, mesmo das piores. Querer sol na eira e chuva no nabal é que é impossível. Mas há paciência para estas "poderosas" choramingas?





No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...