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Wednesday, July 22, 2015

Os heróis de 20 de Julho



Conde von Stauffenberg, General von Tresckow e Conde von Heinrich von Lehndorff-Steinort

Esta semana assinalou-se uma efeméride importante: o atentado para assassinar Hitler a 20 de Julho de 1944, culminar da conspiração falhada que passou à História como Operação Valquíria e visava acabar com a Guerra, derrubar o regime Nazi e fazer a paz com os Aliados .

Curiosamente, não vi nada por aí a lembrar a data, o que pode significar uma de duas coisas: ou a sociedade recorda mais os vencedores do que a coragem e nobreza que é precisa para abrir o caminho para a vitória, ou estas ideias ancestrais andam com baixa cotação...


 De qualquer modo, o que é que três oficiais mortos na Alemanha nazi há  71 anos importam para a nossa vida? 


Importa o exemplo. A II Guerra Mundial, se trouxe à superfície o pior do ser humano, terá sido igualmente um dos últimos cenários em que um grande número de pessoas agiu com verdadeiro heroísmo.  Ou porque a cultura do "eu, eu, eu" ainda vinha longe, ou porque (dirão alguns) face à barbárie não houve outro remédio. Não podemos prever como os homens e mulheres de hoje reagiriam a circunstâncias semelhantes -espero que nunca sejamos obrigados a descobrir - mas as prioridades e valores mudaram tanto que creio que gente deste quilate é muito rara. Apetece afirmar "já não se fazem homens assim!".



Busto de Stauffenberg (Museu da Resistência, Berlim)

 A conspiração foi encabeçada pelo Conde Claus Von Stauffenberg (reputado Coronel das Forças Armadas Alemãs e  pai de cinco filhos), ajudado pelo pai da célebre modelo Veruschka, o Conde Heinrich von Lehndorff-Steinort e pelo General Henning von Tresckow, nobre prussiano responsável pela Resistência Alemã e por delinear o plano, entre outros importantes oficiais.

Os três vinham de famílias da nobreza tradicional alemã; eram casados, profundamente patriotas e  Católicos; logo, como bons militares, inicialmente tinham-se deixado seduzir por tudo o que representasse uma Alemanha gloriosa. No entanto, a crueldade contra os judeus, o massacre gratuito de outros inúmeros inocentes e algumas más e descontroladas decisões estratégicas de Hitler causaram a revolta. 
Von Tresckow teria afirmado, em 1943 "não sei como é que pessoas que se proclamam Cristãs podem apoiar um tal regime".  

Lehndorff-Steinort e  Stauffenberg com os filhos

Stauffenberg, apesar de nos primeiros tempos admirar o poderio marcial de Hitler, sentia-se repugnado pela maior parte das suas ideologias e nunca se tornara membro do Partido Nazi; de resto, o tratamento dos judeus ofendia a sua consciência Católica. Durante a invasão da União Soviética, assistiu a crimes tão horrendos que decidiu juntar-se à Resistência (Widerstandque operava dentro das Forças Armadas- a única organização capaz de fazer frente às SD, Gestapo e SS. E foi já como resistente que se tornou um herói de guerra, tendo perdido um olho, a mão direita e vários dedos da esquerda na campanha do Afrika Korps.

 Também Lehndorff-Steinort foi convencido a resistir por  von Tresckow durante a Operação Barbarossa em 1941 - tarefa fácil depois de testemunhar o massacre da população judaica na Bielorrússia.





Todos sabiam que arriscavam muitíssimo, pois Alta Traição era punida com a morte: Claus Von Stauffenberg disse à família "se eu conseguir, cometerei Alta Traição, se não conseguir estou a trair a minha consciência" e comentou com um jovem conspirador, o Barão von dem Bussche, "estou a cometer Alta Traição com todos os meios ao meu dispor...de acordo com a lei natural, para defender a vida de milhões ".


 Depois de um plano falhado, o Conde von Stauffenberg decidiu matar Hitler pessoalmente. Como o resto do grupo, estava ciente de que as possibilidades de sucesso eram muito remotas e que o mais certo era a tentativa custar-lhes a vida. Mas o General von Tresckow animou-o: "mesmo que falhemos, temos de agir. É a única forma de mostrar ao mundo que a Alemanha e o nazismo não são uma e a mesma coisa".

 Após várias tentativas abortadas de atacar Hitler, Himmler e Göring no mesmo local, o atentado foi levado a cabo na Toca do Lobo, o primeiro quartel - general de Hitler na Frente Oriental. Porém, houve dificuldades para armar e colocar as duas bombas planeadas (montadas como bombas britânicas, para desviar as atenções) tanto por causa das limitações físicas de von Stauffenberg, como por questões de localização (houve mudanças de planos no local das reuniões e pessoas a entrar e a sair, que obrigaram a agir apressadamente).  A segunda bomba, escondida numa pasta sob uma mesa de carvalho, foi movida, sem querer, pelo Coronel Heinz Brandt, que não sabia do que se tratava e assim salvou a vida de Hitler...



A "Toca do Lobo" depois do atentado

Quando se deu a explosão, o Conde - que conseguiu escapar - julgou que ninguém tinha sobrevivido. Mas cedo Goebbels e logo a seguir, o próprio Hitler, anunciaram na rádio que, apesar de haver vários mortos e feridos, o golpe tinha falhado. Os conspiradores sabiam que tudo estava perdido para eles: no covil destruído, o führer pôs-se a gritar "eu sou imortal" e a planear a sua vingança.


O Conde von Stauffenberg com a sua mulher, Nina;
 com o pai e irmãos (os gémeos Berthold e Alexander); junto dos filhos, a recuperar dos ferimentos de batalha.

Stauffenberg, de 36 anos, foi fuzilado a 21 de Julho com outros companheiros e, apesar de enterrado com as suas medalhas e todas as honras militares, Hitler ordenou mais tarde que fosse exumado e cremado. Toda a família foi cruelmente perseguida: a esposa, grávida, foi presa e os filhos internados em orfanatos sob outro nome, mas o seu irmão mais velho, Berthold, de 39 anos e também envolvido, teve pior sorte: seria lentamente garrotado em Agosto desse ano (Hitler fez questão de mandar filmar a horrenda execução, para a apreciar nas horas vagas).

O Conde von Lehndorff-Steinort foi enforcado a 4 de Setembro, com apenas 35 anos de idade. A sua mulher e quatro filhas tiveram os bens confiscados e passaram o resto da guerra em campos de trabalho. Também o famoso Marechal-de-Campo Rommel, a Raposa do Deserto, foi implicado. Devido à sua popularidade como herói de guerra, Hitler quis conservar-lhe a  reputação intacta e deu-lhe a hipótese de se suicidar discretamente, aparentando morte por causas naturais. Rommel aceitou, para salvar a sua família.  Ao todo, cerca de 5000 pessoas foram presas e 200 executadas. 

Henning von Tresckow e a mulher, Erika,
 que participou na conspiração
 Quanto ao General von Tresckow, era um homem que nunca tivera medo de morrer. Durante I Guerra Mundial,  os seus superiores tinham dito profeticamente, espantados ante as suas façanhas como um dos mais jovens e brilhantes oficiais: você, Tresckow, há-de ser Chefe de Estado-Maior, ou morrer no cadafalso como rebelde! Contava também com o total apoio da família: a própria mulher era filha de militares e ajudou-o (junto da secretária, a Condessa Margarete von Oven) a dactilografar cartas com ordens incriminatórias, que depois da guerra comprovaram o seu papel central na conspiração.

 Suicidou-se a 21 de Julho, deixando as palavras: " O mundo condena-nos agora, mas sei que fizemos o que estava certo. Hitler é o arqui-inimigo não só da Alemanha, mas do mundo. Dentro de horas, estarei perante Deus a contar-lhe o que fiz; Ele prometeu que pouparia Sodoma se houvesse dez justos na cidade, por isso espero que não destrua a Alemanha. Nenhum de nós pode queixar-se de morrer, pois quem se juntasse a nós sabia que vestia a túnica de Nessus...a moral de um homem só vale quando ele está disposto a dar a vida por essas convicções". 


Tom Cruise como Stauffenberg no filme Operação Valquíria (2008)

  Há dias falávamos de como sem bússula moral, um povo fica sujeito a todos os males. E os conspiradores da Operação Valquíria sabiam disso: fossem  bem sucedidos, não só teriam salvo incontáveis vidas como poupariam à sua pátria uma derrota militar humilhante, com uma saída honrosa do conflito. Onde não há ética nem nobreza de princípios, não pode nascer nada de bom. S. João Crisóstomo disse "não é possível que a paz subsista se a virtude não prosperar". Às vezes é preciso que a virtude prospere mesmo nos terrenos mais acidentados, quando ninguém vê mal nos piores males.





1 comment:

Urso Misha said...

Excelente texto.
Mas basta ver com o Dia-D e o fim da IIGM e da IGM, é uma peça de 5m e já está. Em Inglaterra até a papoila ao peito usam.

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