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Monday, July 6, 2015

Qual é o pior dos males: hipocrisia ou pouca vergonha?


A hipocrisia- bem prega Frei Tomás, faz como ele diz, não faças como ele faz - é uma coisa terrível; saber que algo está errado, condenar esse mal pela frente e ir por trás e fazer a mesmíssima coisa, tendo obrigação para mais e consciência do erro que se comete...é péssimo, principalmente se a pessoa cai repetidamente nisso, tornando-se uma anedota ambulante.

 No entanto,  parece ser o mal do século condenar a hipocrisia...com o propósito de absolver qualquer descalabro (feito com muita sinceridade, pois claro).

Agora até parece que é moda fazer toda a sorte de tropelias e orgulhar-se disso, com a desculpa "ao menos não sou hipócrita!" e pronto, fica tudo santificado...

Uma falta de delicadeza, dizer rudemente coisas que magoam sem necessidade? Quem diz a verdade não merece castigo -  ao menos não sou hipócrita! - é a resposta pronta, esquecendo que franqueza sem delicadeza é grosseria.

Promiscuidade, comportamentos desviantes, excessos, tristes figuras em público...ao menos não sou hipócrita! - algo que até ofende quem é bem comportado, pois é o mesmo que dizer que TODAS as pessoas, sem excepção, que procuram ter uma forma honesta e limpa de estar são umas mentirosas que mal se apagam as luzes, mal se apanham longe da vista, fazem trinta por uma linha...ou pelo menos, gostariam de o fazer e não se atrevem!





Pela ordem de ideias vigente qualquer alma discreta, cavalheiresca, digna e/ou religiosa é automaticamente um satã encapotado...

Todos os seres humanos são frágeis e se ser virtuoso fosse fácil, não era virtude nenhuma; e é claro que, em modo "do mal, o menos" por vezes há quem, embora falhe, tenha no mínimo a discrição de não dar nas vistas segundo a máxima "vícios privados, públicas virtudes".  Não basta ser sério, há que parecê-lo. Mas não exageremos. Quero acreditar que ainda há quem ponha em prática o que prega.

E embora seja certo e sabido que muita gente elegante, discreta, bem educada e cumpridora - muita gente religiosa, até - diz uma coisa e faz outra, entre o mal da hipocrisia e a devassidão declarada, não sei se a segunda não será pior.

Quando ouço alguém desculpar a sua corrupção com "eu cá não sou hipócrita" penso às vezes "olha que grande avaria! Um hipócrita não é bom, mas ao menos tem vergonha na cara!"

 Ora pensemos: a hipocrisia é má porque nos faz descrer de tudo. Se este, que parece tão boa pessoa, um exemplo para a sociedade, um modelo de virtudes....vai-se a ver e é do piorio...não resta gente boa neste mundo. Mas a hipocrisia choca pelos exemplos isolados. Um hipócrita tem consciência (a consciência pesada, muitas vezes) do mal que faz. Se comete uma maldade, tem pelo menos a noção de a classificar como tal. E por vezes os erros de um hipócrita são pontuais; tendo os princípios, sabe o que está certo e o que está errado e pode sempre emendar-se. No mínimo, possui a percepção de que deve esconder as suas maldades, quanto mais não seja para não escandalizar e contaminar os outros.


 Já um degenerado, um desavergonhado...não vê mal em nada, ou finge que não vê. Gosta verdadeiramente do que faz. Não se importa de corromper o ambiente que o rodeia - por vezes, faz de propósito para contagiar os outros, já que o vício adora companhia. Ainda troça, se for preciso, de quem tendo as suas falhas, se envergonha delas, chamando-os, precisamente, hipócritas. Não tem remorso ou se o tem, abafa-o. Se lhe chamam a atenção, arranja toda a sorte de desculpas tíbias e cobardes: sou íntimo de fulano, que tem uma fama horrível...não me importo com o que as pessoas dizem de mim! Sou amigo de fulana, que se entrega a esquemas duvidosos...a vida é dela! O desavergonhado, o dissoluto, o rebelde por conveniência, com uma moral que não existe ou se existe é de uma elasticidade que dá volta a um estádio, desculpa tudo... menos os preceitos, menos os princípios.

Porque os princípios podem falhar - como todos os padrões, não são garantia de nada. E quanto mais exigentes, mais difíceis são de cumprir na perfeição.  Mas elevam a fasquia e ditam as regras, mostram como as pessoas se deveriam conduzir. Têm pelo menos a virtude da tentativa. Um hipócrita pode ser mau, mas um devasso, um amoral assumido, nem sequer se esforça. É muita lata.


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