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Sunday, August 23, 2015

A cansativa arte de fingir por ambição



Quem anda no mundo de olhos abertos e faz um mínimo de vida social, reconhece facilmente certos tipos caricaturados por todos os autores de costumes de todos os tempos.

Ao início, esta constatação não acontece sem surpresa: parece incrível a qualquer alma sensata ver, em carne e osso, trajando roupas e usando engenhocas do sec. XXI, um Dâmaso Salcede (ou uma "Dâmasa") pretensioso e ridículo, um Conde d´Abranhos, uma Becky Sharp (espertalhona, sonsa e sem escrúpulos) à procura de um homem que lhe dê uma vida regalada e estatuto, o perigoso tipo de um Barry Lyndon, de um Bel Ami ou de um talentoso Mr. Ripley, capazes de usar mulheres e de recorrer à violência ou ao crime tentando dar um golpe à Conde de Monte Cristo por ganância ou ressentimento, uma Juliana disposta a tudo, uma Mrs. Bennet virando-se do avesso para arrumar as filhas com um bom partido, filhas essas que por sua vez procedem como autênticas serigaitas, uma Madame Bovary com a doença das grandezas, as "preciosas" de Molière imitando os tiques das celebridades ...e assim por diante. 



Thackeray, Oscar Wilde, Eça de Queiroz, Jane Austen, Maupassant, Flaubert e tantos outros viram de perto esses tipos, caracterizaram-nos em cruel detalhe...e receio bem que não seja preciso grande poder de observação para os encontrar hoje. É que dão muito nas vistas!

No entanto, não devia ser novidade para ninguém - afinal, já era o prato do dia na Roma Antiga: Cícero dizia que a par com os tolos, os ambiciosos são um dos desafios a que qualquer nação precisa de sobreviver. E Marco Aurélio, que a ambição é a inspiração que move a gente vulgar. 

 Ora, já se sabe que mulheres da luta interesseiras ou falsos cavalheiros estilo parvenu são atraídos por tudo o que reluz, como as traças e os corvos. Os traços e as armas são sempre iguais, não importa a época ou o meio em que se movem: uma simpatia untuosa, um ar de inocência falsa, muita abertura, muita solicitude, marcação cerrada ao alvo, uma devoção que soa a postiço (mas pode desorientar quem está desprevenido) um desespero por agradar e uma aflição danada para "fazer o boneco".



 E é aqui que a maioria falha...ou que é mais fácil detectar o engodo. Tomemos como exemplo uma alpinista doidivanas (já que a versão masculina foi vista por aqui em tempos). A partir do momento em que escolhe a mira, procurará reparar em tudo o que a pessoa faz (para concordar com tudo) facilitar encontros e ocasiões de interacção, dar toda a graxa que puder. Até aqui, como não tem noção do apropriado nem do decoro, não mede as distâncias, não pensa se tem ou não qualidades para o lugar que pretende ocupar, é tarefa fácil.

 Resta o mais complicado: vestir a pele. A não ser que se trate numa expert na matéria (espécie particularmente complicada que não vamos analisar aqui) este tipo age por oportunidade. Ou seja, pode nunca ter sido acostumada a estar/pensar/ agir/vestir de certa maneira e de repente, eis que para chegar onde quer, para se colar ao homem que será o seu passaporte, não pode continuar a ser a hippie desleixada ou a flausina vulgar.

O que fazer? Resta aplicar a táctica da carteira falsa. Se já viram uma carteira de imitação, sabem como é: mal acabada, com materiais de segunda e uma preocupação superficial com copiar o design. Ou seja, lêem-se umas revistas à pressa para ver os modelitos, pergunta-se aqui e ali, tem-se particular atenção às amigas, namorada, mulher, parentes ou ex do alvo (as redes sociais são particularmente úteis para isso) e vai de copiar. Mal.



Dá-se então uma mudança radical; aqueles programas de extreme makeover não seriam mais alucinantes. Se dizia e escrevia palavrões, deixa de o fazer; se costumava usar o cabelo estilo escova de arame e aparecer em retratos ao melhor estilo Woodstock e pior, agora aparece bem penteada, a tentar fazer de Jackie Kennedy. Se está fora de forma, trata de disfarçar o melhor que pode. 

Claro que isto é muito cansativo. Na maioria das vezes errará o dress code, porque "vestido de noite" tem muito que se lhe diga, encerra infinitas subtilezas que lhe escapam. E como fazer, de um momento para o outro, para ter uma postura perfeita quando se andou sempre corcovada, para ficar na linha, quando toda a vida desleixou a silhueta, para distinguir um vestido bom de um mau se até ali ia à Bershka sem olhar sequer ao que trazia, para alinhavar duas frases com jeito, para parecer que se porta bem quando sempre fez só o que quis?

É um esforço titânico, e tal como não se pode esperar que uma Hermès comprada em Canal Street (ou na banca da esquina) aguente ventos e marés como uma verdadeira, não se conte com grande resistência destas pessoas. As alças rebentam, os pontos cedem, o verniz estala e ou se desinteressa  - porque o que nasce rápido, morre rápido - ou se espalha ao comprido. O cavalheiro falso mostra o brutamontes que na realidade é; e a Cinderela trapalhona esquece-se que nunca teve realmente uma varinha de condão que lhe valesse, agindo como a gata borralheira que nunca deixou de ser.

 Na ficção a maioria destas personagens acaba mal; mas na vida real, observar os seus malabarismos é uma autêntica comédia...

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