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Sunday, August 30, 2015

Ainda o Bovarismo na literatura e na vida (mulheres frágeis dos nervos)


Não importa o quanto goste dos clássicos e defenda que amores sem graça, mais vale perdê-los do que tê-los, o perfil de muitas personagens femininas da literatura - de Madame Bovary a Anna Karenina, passando por Tess - faz-me confusão pela falta de sentido prático, vulgo Bovarismo.

Tudo nestas mulheres é, como dizia Eça de Queiroz, sentimento! Sempre a porcaria do sentimento (com uma boa dose de ambição e cálculo mal guiado à mistura!). Andam governadas a bel talante das suas hormonas, pois as mais das vezes, o coração pouco tem a ver com o assunto; só fica na má fama...

 Pior do que isso, só a análise actual de muitos desses romances, que desculpa as desgraças das personagens (exageradas, algumas mas reparem- são novelas) com o tempo em que viviam e o papel passivo das mulheres nessa época e no seu meio. Aristocratas, burguesas ou camponesas, pecam por ser estúpidas, romanescas e sem o mínimo de pragmatismo.




Ah, a Anna Karenina, coitadinha; foi ostracizada pela sociedade por ser mulher, mas o amante, que partilhava a culpa, já era bem recebido (pudera...ele era solteiro; ela é que era uma princesa casada com um bom homem e tinha um filho...sabendo como as coisas funcionavam em sociedade, porque sabia bem, deixou tudo para trás para fugir com um galã e não contente com ter abusado da boa vontade do esposo até ao ridículo, que se ele fosse outro internava-a num convento ou coisa assim, e com a paciência do amante que comprometia o seu futuro para estar com ela, enche-lhe a cabeça com recriminações e delírios, enfrasca-se em morfina...queriam o quê, que a aplaudissem? Não sabia viver, e duvido que soubesse se vivesse no sec. XXI. O mais certo era perder a transmontana e o desfecho ser o mesmo, mais comboio menos comboio).




Oh, pobre Madame Bovary,  com um marido que é um cepo e que engole veneno quando perde o controlo das dívidas! Não casou obrigada, mas vitimiza-se; enche-se de vaidade; não faz nenhum; acha-se a última coca cola do deserto quando lhe faltam aptidões para brilhar nos meios com que puerilmente sonha; e sendo uma mulher adulta e mãe, com obrigação para perceber que nenhum dos mariolas com quem se envolve deixará a sua vida tão arranjadinha para se arruinar com uma amante casada, ainda se dá ao luxo de ter chiliques...





E a Tess? Infeliz Tess. Essa é mais azarada, mas não sabe fazer limonada com os limões que a vida lhe dá. Acha-se muito boa pessoa, muito acima do rapaz que a desencaminhou mas mal ou bem tenta reparar o erro, e prova que é um anjo de pureza enchendo-o de facadas. Tudo porque meteu na cabeça que o traste do marido, que lhe virou costas no pior momento, é que é o bom da fita.

 Estas personagens, como tantas outras, sofrem daquela doença de nervos que é ser "mad about the boy". Ou the boys.

 Em suma, são capazes de sacrificar tudo por um par de calças, perdem a dignidade toda...mas só se houver a promessa de uma aventura bem romanesca, de subir na vida, de drama, de se sentirem muito desejadas, de satisfazerem a sua vaidade. Quando lhes cheira a dever, a sobriedade, a auto domínio, a esforço, a compostura feminina, perde a graça toda, a coragem some-se, queixam-se que morrem com um aperto no coração, sufocadinhas. E ainda se vitimizam, ou fazem com que os leitores e a sociedade lhes dêem palmadinhas nas costas.




 Calha-lhes mesmo bem que hoje se desculpe tudo: com a desculpa do "amor" (que de amor não tem nada) e com o estribilho "nada é errado se te faz feliz"...


Mas o mais mau é que nem dá para concordar com a teoria "estes autores pintavam as mulheres de uma maneira horrível...era tudo homens a escrever sobre as mulheres, não percebiam nada do assunto"...qual! Há muita diferença entre elas e uma Bridget Jones (salvo no rasgo literário, e que a Bridget Jones é uma personagem de comédia escrita por pluma feminina do sec XXI, logo ninguém leva a mal os seus desarranjos)?


Ora zumba no arsénico, ora no arsénico zumba

Haverá grande distinção entre Bovary, Anna, Ameliazinha, Monforte, Luiza,Lidya,  Clotilde, etc e muitas mulheres reais? Entre elas e as serigaitas de hoje que se oferecem de bandeja sem olhar à figura que fazem?

 Ou entre estas personagens e tantas conhecidas nossas que julgam que o casamento é só vestido "de princesa" e boda, que casam porque sim (porque hoje já nem "pressão para casar" é tão determinante, logo não há desculpa)  e dali a nada mandam tudo às urtigas por um pistoleiro qualquer, que às vezes as brutaliza...acabando muitas a saltar de relacionamento em relacionamento, sempre infelizes e instáveis, com filhos espalhados por aí mas sempre em festa à procura da próxima aventura, partilhando disparates nas redes sociais, transformando-se em cougars ou objectos que, como Bovary, acabam num farrapo que implora migalhas de carinho em modo "quanto mais me bates mais gosto de ti"?

Há tantos casos, e muitos de meios aparentemente bem estruturados!

Eu diria que os autores não se enganaram e exageraram pouco ao traçar o tipo. As regras é que eram mais claras, o que torna a imprudência delas mais flagrante, e por outro lado, as mulheres eram menos informadas, o que pode atenuar um pouco a culpa em tanta fiada de asneiras.

  Não creio que pretendessem  dar uma imagem negativa das mulheres: sempre me pareceu um aviso. "Ir atrás do sentimento sem usar um pingo de racionalidade, dá nisto".





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