Recomenda-se:

Netscope

Monday, August 10, 2015

Confiança: alegoria do amor e da lavandaria



Ontem li num qualquer livro antigo uma frase que era mais ou menos isto: as mulheres sabem perfeitamente a quem confiar a sua roupa; se uma lavandaria lhes devolve uma peça queimada pelo ferro, dificilmente voltam a recorrer aos seus serviços. Então porque é que lhes falha essa percepção perante alguém a quem pensam confiar a sua vida?

Dá que pensar. É claro que as pessoas não são lavandarias e que quando se trata de amor - ou de afectos no geral- nada se faz sem tolerância, sem confiar além da confiança, sem esperar além da mais viva fé, sem uma dose de heroísmo, de peito às balas. Quem vai buscar amor, é bom que leve fundos para trazer consigo um bom saco de perdão e uns quilos de paciência.

 Mas não subestimemos a importância da máxima "quem faz uma, faz um cento". Na dinâmica entre duas pessoas pode ocorrer um - ou mais - erro grave. Por um mal entendido, na sequência de uma crise ou por aquela dose de estupidez que às vezes assiste a toda a gente, as coisas más acontecem. E a bem de salvar o que se tem, perdoa-se (seja a mágoa, a deslealdade, a frieza, a traição, a desfeita, a falta de respeito, a brusquidão) como se espera ser perdoado. 

Porém, quando o mesmo erro se dá uma e outra vez, isso não é um deslize. 
É algo mais grave; trata-se da boa e velha falta de respeito. 


De alguém que acha que tudo está garantido ou que se julga uma pessoa tão extraordinária que se pode dar ao luxo de cometer as piores acções, esperando que lhe desculpem coisas que provavelmente jamais deixaria passar se fosse ao contrário. Isto acontece muito: quanto mais desrespeitadora uma pessoa é, mais respeito e constância espera da outra parte.

Voltemos à lavandaria: podemos compreender que a empregada, se calhar sobrecarregada e exausta, quem sabe com problemas graves em casa, se distraísse, estragando-nos um vestido de noite ou uma blusa. Ficamos lesadas e tristes porque confiámos a uma profissional uma peça que tinha significado ou nos fazia falta.  Mas por uma vez, desculpa-se. No entanto, se acontece mais vezes, das duas uma: ou o pessoal daquele estabelecimento é incompetente de todo, não dá para mais (logo, não nos serve) ou então considera-nos clientes de segunda. Cuida da nossa roupa a pontapé, pensando "aquela é uma pateta, não vai dizer nada". Ora, ninguém quer ser tratado como um cliente de segunda.

Logicamente, nas relações devia aplicar-se a mesmíssima lógica: um comportamento feio poderá ter a sua ocasião, o seu atenuante. Mas se é cíclico, então há aí uma atitude de desprezo, de descaso, de falta de respeito. Ou  a pessoa não se sabe portar melhor (portanto, não interessa) ou age assim porque quer e acha que pode. Quem o permite - pois são sempre precisos dois para dançar o tango- está a deixar-se tratar como um interveniente de segunda categoria, como um vestido que vai à lavandaria para sair de lá pior do que entrou: queimado e amachucado.

Se uma mulher sensata não permite que lhe façam isto à roupa, vai tolerá-lo quando se trata de si mesma?

No comments:

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...