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Tuesday, August 4, 2015

Escândalo aparta amor


A avó citava muitas vezes este provérbio, a que às vezes o povo empresta uma métrica mais musical adulterando-o para «a "escândala" aparta amor».

 Para o compreendermos, temos de deixar de lado a conotação actual e mais comum de "escândalo" ( um mau comportamento ou crime público) e concentrar-nos, uma vez que se trata de uma questão privada entre duas pessoas, no seu significado mais puro -  vergonha, indecência, desonra, indignar, envergonhar, desencaminhar, dar mau exemplo, prejudicar a alma do próximo, corromper ou ferir moralmente. "Escândalo" vem do grego e
 relaciona-se com "tropeçar" ou "fazer cair". 

Daí o ditado: dificilmente uma afeição pode vingar se sujeita a tropeços constantes. Embora nenhum amor, de espécie alguma, possa ser digno desse nome sem sacrifícios (que em certas fases, podem ser unilaterais) e uma enorme capacidade para os suportar com paciência, sem uma certa dose heroísmo e sem considerar o potencial (eu diria inevitável) sofrimento que advém de se importar com outrem, é preciso ser realista: não há muralha tão inexpugnável que não se abale ante ataques gratuitos e sucessivos. 

Por muitos trabalhos que haja para manter a  muralha erguida, por muito que se renovem as sentinelas, as estruturas não são infalíveis e os soldados, ainda que corajosos e dedicados, têm um limite de forças. Uma cidade sitiada podia resistir valentemente anos a fio - mas se não recebesse algum auxílio, o inimigo não capitulasse ou alguém lá dentro não tivesse uma ideia genial para se libertar dele, acabava inevitavelmente por se render.



 Quando duas pessoas estão ligadas por um laço forte - ainda que seja daqueles que resistem a ventos e marés - partilham a obrigação de se proteger uma à outra, incluindo contra tudo o que possa causar escândalo entre si. Não podem fiar-se simplesmente nos sentimentos; isso é dado, como uma graça; surge espontaneamente e alimenta-se, em grande parte, das alegrias dos primeiros tempos que o cimentam. Muita gente procura esta dádiva toda a vida sem a encontrar. Mas depois falta o resto, pois (cá vem outro ditado) 
"Deus dá-nos as nozes, mas não no-las quebra". 

Quando se recebe esse dom, é preciso cuidar dele; não em modo pisar ovos, com o constante pavor de melindrar o outro (pois isso seria falta de confiança e não há amor onde não há confiança; uma relação "vidrinho" não é saudável) mas conhecendo-lhe os hábitos e os limites, sabendo o que o magoa e evitando fazê-lo, principalmente perante terceiros, procurando trazer à relação alegrias e bons estímulos...em suma, alimentando-a (como a uma planta) com o que é bom e fugindo daquilo que é mau. 

 Não podemos fiar-nos que uma bela árvore rara, ainda que antiga e com raízes profundas, viverá no jardim só porque o nosso jardim é lindo, se não a regarmos e ainda  - para lhe testarmos a resistência - lhe dermos umas machadadas ou convidarmos as pragas a apoderar-se dela. 

 Ou noutro exemplo, nenhuma beldade se manterá por muitos anos se deixar a pele torrar ao sol sem protecção, comer tudo quanto faz mal, não se exercitar, estragar o cabelo, etc. Nem quem nasceu rico assim continuará se fizer de propósito para desbaratar a fortuna.



 No entanto, é assim que muita gente procede - não com as árvores, o corpo ou a riqueza ( tende-se a ter um pouco mais de senso com as coisas tangíveis) mas com as pessoas que supostamente lhe são caras. Confia no sentimento como se ele, como todas as coisas vivas, não precisasse de manutenção; entrega tudo aos seus encantos, ou à sorte; toma tudo por garantido e acha que continuará a provocar amor mesmo que aja de forma a causar aridez de sentimentos, ou mesmo (a longo prazo) desprezo e aversão.

 Nessas circunstâncias talvez o amor não morra deveras; mas fica sepultado sob tal quantidade de más recordações, impressões desagradáveis, cansaço, alfinetadas, rupturas, palavras ditas e retornadas, maus hábitos e repetições de comportamentos que ferem e vexam, que às vezes já não se encontra - ou quando se encontra, é em muito mau estado ou nos casos piores, a dar o último suspiro.

 O escândalo, enquanto tropeço, pode não matar logo, como uma queda leve; mas mói, cria brechas, erosão, enfraquece. Torna o amor uma recordação distante ou um hábito e a longo prazo, destrói as fundações mais firmes. Não cortará imediatamente laços, mas aparta-os. E às vezes aparta-os para muito longe...










1 comment:

Carla Santos Alves said...

Engraçado que a minha avô dizia o mesmo...e é tão verdade o que escreve...por mais maravilhoso que seja o jardim, se não cuidarmos dele...vai morrendo...porque "quem ama cuida".

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